Chiapas, Zapatistas e mais ruínas

Por Fábio Zuker*

Os momentos de solidão e introspecção, de me sentir senhor do meu tempo, aristocraticamente sentado diante de uma linda praia semi-deserta que muito pouco contribuía para tirar-me da inércia, de decidir fazer algo além de contemplá-la, e pensando nos momentos em que estava vivendo, terminou com a mesma brusquidão que começou.

Na rodoviária de Tulum, indo em direção à cidade de Palenque, conheci um casal de alemães (Friddo e Elizabeth) e a um israelense (Shir, cujo nome quer dizer canção). Ao descobrirmos que estávamos todos indo para Palenque, combinamos de procurar um lugar para dormirmos nessa noite.

O sentimento de grupo se concretizou quando o ônibus, previsto para chegar às 9h da manhã em Palenque, estacionou as 6h30 na rodoviária. Nenhum de nós imaginou que havíamos chegado antecipadamente ao nosso destino, e permanecemos todos os quatro dormindo, sem entender o que estava acontecendo, até que fomos ”gentilmente” acordados pelo motorista desejoso de partir e seguir viagem.

Pois bem, estávamos em Chiapas! A terra das famosas revoltas indígenas, que desde o tempo colonial se recusaram a submeter-se ao poder dos espanhóis, por vezes resistindo até a morte, outras preferindo o suicídio. A terra do Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN), da carismática figura do subcomandante Marcos, movimento político baseados em princípios indígenas e de esquerda que em meados da década de 1980 gerou interesse e curiosidade ao redor do mundo.

O plano consistia em ficar apenas aquela mesma noite em Palenque, visitando as ruínas maias e as cataratas de água azul, e dali seguir para San Cristóbal de las Casas. Afortunadamente, os meus novos companheiros de viagem eram muito mais organizados do que eu, e dotados de um guia Lonely Planet encaminhamo-nos para uma espécie de complexo hoteleiro e restaurantes logo na entrada do parque nacional, ou seja, na beira da selva, e onde se podia acampar por 30 pesos (equivalente a cinco reais).

Ruínas de Palenque, foto de Veridiana Domingos

Ruínas de Palenque, foto de Veridiana Domingos

Eram 7h30 da manhã, e depois de comer umas boas tortillas de café da manhã, resolvermos caminhar pela reserva florestal até as ruínas maias de Palenque, que formam um impressionante conjunto de ruínas de cerca de 2,5km2 – estima-se que apenas 2% da antiga cidade maia tenha sido descoberto. Reconhecido pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade, trata-se de uma cidade completa, construída ao redor de 100 a.C. e que viveu momentos de glória e catástrofe. Para chegar ao sítio arqueológico, tivemos que subir uma escada extremamente íngreme, e semitomada pela floresta (sendo parte de seus degraus formada por grandes galhos). A umidade da região (em meio à floresta), o calor e a altitude faziam com que a subida fosse mais difícil do que parecia – mesmo para alguém acostumado a fazer trilhas. Entre as estruturas, encontram-se os impressionantes Templo das Inspirações, o Palácio, os Arqueodutos, o conjunto das cruzes e o Templo do Sol – todos quase que tomados pela floresta que os entorna.

Saímos da zona arqueológica propriamente dita e passamos pelo museu que se encontra logo na entrada, no qual se exibem peças fascinantes de arte maia, objetos decorativos como câmaras e adereços funerários. De ali seguimos para um passeio/excursão que tinha tudo para ser o mais tosco possível: um monte de estrangeiros indo visitar cascatas de águas azuis. Acabei indo meio na onda dos alemães e do Shir, e foi um passeio realmente inesperado: devido à chuva, as famosas cataratas de água azul estavam totalmente marrons – o que não deixa de ser engraçado, tomar 2h de estrada pra ver umas corredeiras de barro.

Mas o interessante dessa vez não foram as belezas naturais nem ruínas, senão a quantidade de acampamentos zapatistas pelos quais passamos pelo meio do caminho. Na realidade, a própria série de cachoeiras encontrava-se em uma região em que ninguém soube ao certo me dizer se se tratava de um acampamento zapatista ou organizações indígenas – o que aparentemente se confunde.

Imagem divulgação, anônimo

Zapatistas, foto divulgação

Embora tenha surgido em meados da década de 1980, o Ejército Zapatista de Liberación Nacional (EZLN) tem suas origens nos cinco séculos de colonização que destruíram os modos de sociabilidade das comunidades do continente americano. A atual região de Chiapas é particularmente conhecida pelas revoltas indígenas: que por vezes se recusaram a viver sobre o domínio espanhol, preferindo suicidar-se no Cañon del Sumidiro (impressionante formação geológica com paredões de até mil metros, onde estive no dia seguinte) ou bem revoltar-se contra os colonizadores (uma dessas revoltas está retratado no livro Oficio de tinieblas, de Rosario Castellanos, que estou lendo). Já no início do século XX, a figura de Emiliano Zapata no sul, e de Pancho Villa no norte, encarnaram a figura romântica do revolucionário: não tinham um plano exato de governo, por exemplo, caudillos como Álvaro Obregón, mas como um dos grandes feitos da Revolução Mexicana geraram um pioneiro programa de reforma agrária.

Em 1992, o presidente Carlos Salinas de Gortari modificou o artigo 27 da constituição mexicana, referente à reforma agrária, e que dava garantias e direitos sociais que protegiam os pequenos produtores, como o fato da terra pertencer à comunidade, e não ao indivíduo, e não podendo ser vendida para uma outra pessoa para formar latifúndios. A modificação desse artigo nada mais foi do que a gota d’água de um processo que se realizava desde a década de 1970, de industrialização do campo e expansão do capitalismo, muitas vezes promovida por pressões norte-americanas.

Foi então que no ano seguinte que os zapatistas de Chiapas fizeram um referendo com a simples pergunta: ”devem os zapatistas levantar armas?”. A resposta em uníssono (apesar da oposição da igreja católica) foi ”sim” e no dia primeiro de janeiro de 1994, dia em que a nova regulamentação agrária entrava em vigor, os zapatistas tomaram, para o espanto de todos, o controle de vários centros populacionais e de mais de 500 fazendas, naquilo que foi caracterizado pelo editorial do New York Times como a primeira revolução pós-moderna.

Não se tratou de um processo pacífico. O Estado Mexicano enviou setenta mil militares para conter a revolta – ou seja, um terço de seu efetivo militar. Conflitos se seguiram, e embora as negociações com o governo parecessem garantir que certa autonomia, seria outorgada as regiões controladas pelo movimento, isso de fato não ocorria. Assim, diante da leniência do Estado em implementar os pontos acordados, os zapatistas resolveram implementá-los por si só.

Mas o que propunham os Zapatistas de tão diferente? No que consiste a sua resistência política? Diante de leis que ameaçavam o modo de vida e subsistência de 25 milhões de pessoas, os zapatistas propunham uma organização horizontal sem chefes (embora a carismática figura do subcomandante Marcos tenha recebido mais atenção do que os milhares que compunham a massa que lhe apoiava).

Algo de interessante parece diferir essa revolta e consequente organização autônoma de outras revoluções de esquerda tal como vivenciadas no início do século XX: a união de princípio indígenas de autonomia e produção não voltada à exploração e acúmulo de produtos naturais com princípios de esquerda. A ideia de autonomia está centrada na proposta de construção de um mundo em que caibam vários outros mundos.

Não sou especialistas no zapatismo, e ainda conheço pouco da história mexicana. Espero em breve poder escrever mais sobre o assunto e sobre a Revolução Mexicana, temas sobre os quais tenho lido um pouco, desde que cheguei. Para entender mais sobre o movimento, vale a pena ler o canal que utilizam na internet para veicular notícias, comunicados e apontar abusos contra suas populações (veja aqui).

O que parece claro é que o esforço do Estado mexicano em implementar programas sociais na regiões, e de publicizá-los muito bem, como forma de aumentar a presença do estatal e diminuir o poder político dos zapatistas, que em menos de 25 anos melhoraram todos os índices sociais na região. A cada esquina outdoors enormes mostram que o Estado financia agricultores ”verdes”, mães indígenas solteiras, e jovens indígenas com bolsas para estudar.

Apenas para terminar o relato da viagem, no dia seguinte fomos a San Cristóbal de las Casas (cidade que parece diversas vezes no livro de “Rosario Castellanos”, em que ocorre a chocante cena da mulher espanhola que alicia indígenas para serem estupradas por colonizadores, e que inclusive narra o episódio de uma sangrenta revolta indígena no século XIX, e do mito do cristo indígena). Uma cidade colonial muito bonita, lembrando algo de Paraty, mas também muito fria e chuvosa, devido à altitude que tornava caminhadas mais penosas.

Seguimos para San Juan Chamula, a dez km de San Cristóbal de las Casas, onde todos os domingos ocorre um colorido e festivo mercado indígena. Tivemos a sorte, pois ocorria uma festa popular especial naquele dia, que ninguém soube ao certo nos explicar, mas cujo caráter sincretista, de mistura de tradições indígenas com cristãs se fazia evidente. O próprio nome da cidade já permite vislumbrar o caráter de encontro de culturas: San Juan (de origem evidentemente cristã) e Chamula (gentílico utilizado para nomear as muitas etnias maias que aí vivem: tzotzil, tzeltal, mame, tojolabal, choles).

Igreja de San Juan Chamula

Igreja de San Juan Chamula, foto divulgação

Aquilo que antigamente fora uma igreja convertera-se em um singular templo do sincretismo, no qual os habitantes da cidade, mas também as comunidades ao redor, iam para realizar diversos rituais, marcados pelo forte cheiro de incenso e muitas velas. Trata-se, muito provavelmente, da igreja mais verde que já vi, repleta de folhas, plantas e terras.

No dia seguinte fomos ao Cañon del Sumidero, local onde se suicidaram muitos indígenas contrários à dominação espanhola e onde existe uma figura formada por rochas que está relacionada ao mito do cristo indígena. Conheci muitos italianos, com quem estive conversando, comendo (claro) e que como consequência de haver praticado o meu pobre italiano me deixaram balbuciando qualquer frase que me deveria sair em espanhol. Naquela mesma noite peguei o ônibus de 16 horas rumo à Cidade do México (o Destrito Federal), onde começaria imediatamente a trabalhar, senão tivesse sido recebido de braços abertos por uma infecção alimentar logo na minha primeira refeição – e que atrasou a redação deste post.

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Cañon del Sumidero, foto de Veridiana Domingos

PS: acampando em Palenque, fomos acordados pelo baralho de um animal aparentemente grande. Uns juraram que era um lobo, outros achavam que eram macacos, mas eu, apesar do sono e medo, tenho certeza de ter ouvido os passos e rugidos de algum felino realmente grande, passando rente à minha barraca – frente ao qual, dessa vez, não tive a coragem, mas sim a prudência de controlar a curiosidade, e não espiar.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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