PNAD 2013 e o Impacto no PT

Por João Moraes Abreu*

A PNAD (Pesquina Nacional por Amostra de Domicílios, realizada anualmente pelo IBGE) de 2013, divulgada com dados incorretos na quinta-feira e corrigida na sexta, é provavelmente o maior golpe sofrido até aqui pelo Partido dos Trabalhadores – ao menos em termos objetivos.

São duas as origens do abalo: primeiro, o erro em si é grave, como classificou o próprio instituto; segundo, os dados corrigidos são apenas simbolicamente melhores do que os anteriores.

Causa (e consequência eleitoral) do erro

A justificativa do IBGE é tecnicamente compreensível. Seria necessária muita habilidade técnica para propositadamente alterar os dados e usar, para isso, um erro tecnicamente crível – sem aspecto de fraude.

O que espanta é: como uma das instituições de pesquisa mais sólidas do país divulga sua principal pesquisa anual sem um mecanismo de checagem capaz de identificar um erro primário como este? Como, para piorar, a falha gera alteração qualitativa em um dos indicadores sociais mais importantes politicamente – a desigualdade de renda – e este não foi conferido? O episódio lembra a pesquisa do IPEA com pergunta sobre estupro, que se tornou viral na internet e na mídia antes de ser drasticamente corrigida. O erro desta vez foi muito menor. Porém, uma particularidade do caso PNAD eleva as suspeitas: como isso pode ocorrer a algumas semanas das eleições presidenciais? Não faltam elementos para teorias conspiratórias.

Quanto ao impacto político, as reações foram previsíveis: o governo se disse ‘chocado’, o candidato e senador Aécio Neves (PSDB) falou em ‘mais uma marca perversa do petismo no Brasil’ e a candidata e ex-Ministra Marina Silva falou em ‘maus gestores’ criando uma ‘situação completamente inaceitável’. Busca-se traduzir um assunto altamente técnico para o idioma do eleitor, capitalizando em cima do erro do instituto. A questão é saber se isso terá algum efeito; provavelmente, não. As pesquisas até agora mostram o contrário: Dilma segue subindo.

Em termos da credibilidade do IBGE, o esclarecimento técnico do erro e abertura de sindicância devem bastar aos pesquisadores. O candidato tucano buscou teorizar o impacto do equívoco – sem perder a oportunidade de criticar o PT: “não se sabe mais em quem acreditar. Inclusive esses dados positivos, que poderiam estar sendo comemorados por todos os brasileiros, ficam sob suspeita. Ninguém acredita mais em dados desse governo”. É certamente um exagero, no entanto, para os milhares de especialistas que recorrem ao IBGE para seus estudos: é preciso mais do que um ‘grave erro’ pontual para afundar a instituição.

Mas os dados agora são, como disse Aécio, positivos? Os dados completos revisados ainda não foram divulgados, mas o IBGE forneceu informações sobre os principais indicadores. Vejamos.

Mas… O que mudou?

Para todas as críticas econômicas sérias – inflação no teto da meta oficial, PIB fraquíssimo, benefícios fiscais discricionários, falta de credibilidade, entre outros – sempre houve três argumentos muito fortes em defesa do governo: “o emprego segue altíssimo, os salários não param de crescer e nós reduzimos a desigualdade como nunca”. O que a (nova) PNAD nos diz sobre esses três pontos? Comecemos pelo último.

Desigualdade (não) para de cair

A desigualdade de renda medida pelo Gini se reduziu marginalmente, de 0,496 para 0,495 em 2013 (inicialmente, o IBGE falou em 0,498, erro de 0,003 pontos percentuais). Variação pequena, mas simbólica: seria a primeira vez que veríamos uma elevação no indicador desde o governo FHC. Com o erro corrigido, a tendência ainda é de queda – o Brasil segue menos desigual em renda. Com o governo de Dilma, o indicador quase não variou, mas a correção preservou o símbolo da queda constante: reergeu-se o primeiro dos três argumentos governistas. Foi esta a razão para que Aécio chamasse os novos dados de ‘positivos’ – e razão por ter sido o ponto mais noticiado da revisão da pesquisa.

Ainda mais importante, porém, são as declarações dadas por Marcelo Neri, da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República. O economista vem repetindo, já há alguns meses, que a desigualdade em 2014 está em queda acentuada, quando observa-se a Pesquisa Mensal de Emprego (PME-IBGE). Neri fala em queda de 0,001 ponto percentual do índice de Gini por mês desde o início deste ano. Em outras palavras, estaríamos vendo a cada mês deste ano uma redução de desigualdade igual à toda a redução de 2013. Chegaríamos em 2015 com o Gini medindo 0,483.

Se os cálculos se confirmarem, 2014 terá sido a redução anual de desigualdade mais intensa de todo o governo petista – com exceção de 2007, um dos ‘anos dourados’ do lulismo. Se for o caso, faria bem ao Partido dos Trabalhadores acelerar a divulgação destes dados – não apenas para fins eleitorais, mas para fortalecer empiricamente o pilar principal de sua ideologia política.

Renda do trabalho cresce – mas menos

Um ponto que sofreu alteração substancial foi a renda: 2013 mostrou elevação real do salário, ainda que menor do que anteriormente noticiado. O rendimento mensal médio do trabalho atingiu R$ 1.651, alta de 3,8% em relação a 2012, (e não 5,7%, como divulgado anteriormente). É um indicador politicamente muito relevante, já que o que importa é ‘comida na mesa’, como ilustra o polêmico programa eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Eleitoralmente, faz todo o sentido: “ninguém se alimenta de PIB”, como disse recentemente a economista Maria da Conceição Tavares, em defesa do governo. Logo, a elevação é bem-vinda, mas também é bem menor do que a observada em 2012, quando foi de 5,8%. Nesta tendência os salários podem ficar praticamente estáveis em 2014, após descontada a inflação. No longo prazo, será essencial retomar o crescimento econômico: ninguém se alimenta de PIB, mas salários não subirão para sempre com o produto anual estagnado. 

Cresce o desemprego

Um dado inalterado com a revisão, porém, é mais grave: o desemprego cresceu pela primeira vez desde o auge da crise internacional (6,1% para 6,5%, ou quase meio milhão de desempregados a mais do que no ano anterior). Apesar do patamar ainda baixo, a inversão de tendência preocupa. O gráfico a seguir, elaborado pela Folha de São Paulo com base na PNAD, mostra que desde 2005 a queda anual desta taxa foi a regra, com a compreensível exceção de 2009. E, desta vez, será difícil culpar o cenário externo. Tudo indica que a era do pleno emprego se aproxima do fim – como prevê a teoria econômica neoclássica, dada a deterioração dos indicadores macroeconômicos.

graf

 

O que esperar, antes e depois das eleições

A oposição ganhou ferramentas de ataque para a reta final da eleição. No entanto, a população não sentirá na pele as mudanças sutis da PNAD. Poderia, no máximo, preocupar-se (com toda a razão) com a inversão de tendências, mas não há sinais de que isso ocorrerá até outubro.

Há, por outro lado, motivos de apreensão no longo prazo: após a estagnação econômica, dois dos três pilares do discurso do partido que governa o país há 12 anos estão sólidos (desigualdade e renda). O emprego, no entanto, balança. Em 2015 saberemos se a nova tendência se manterá – seja quem for o escolhido pelas urnas nas próximas semanas – ou se estamos caminhando para uma deterioração no mercado de trabalho.

* João Moraes Abreu cursa Economia na Universidade de São Paulo (FEA-USP).

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Categorias: Economia

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