Não esperneie, São Paulo também é bonita fora do carro

Por Veridiana Domingos *

Abre o vidro.

“Vai pra puta que o pariu!”

Pé na embreagem.

“Não vai dar tempo”.

Faixa de ônibus vazia.

Desliga o carro.

“Essa cidade vai explodir!”.

Bi-biiiiiii.

Liga o rádio.

Reinaldo Azevedo fala na Jovem Pan. Fala, fala, fala, falafalafalafalafalafala… zzzzzzzzz

Dá um totó no carro da frente.

“Isso é culpa do prefeito! Se fosse a pé chegaria mais rápido!”

Ótimo! Aliás, por que, então, não vai de bicicleta?

Os últimos meses têm sido decisivos e trazido muitas mudanças para a vida na cidade de São Paulo no que se refere à mobilidade urbana. Esta pauta veio das vozes das jornadas de junho; pauta posta pela própria população. É claro que mudança (senão “revolução”) causa um certo incômodo. Afinal, mudar o status quo não é fácil, nem para quem está executando a mudança e nem para quem a está vivenciando. O fato é que com ou sem reclamações, São Paulo está dando um giro de 180 graus para se alinhar com os planejamentos urbanos de grandes cidades do mundo. O projeto de 400 quilômetros de ciclovias e a realização de outros quase 400 quilômetros de faixas exclusivas de ônibus não são alucinações do mandato Haddad. Se o fossem, não estariam sendo apoiadas por grandes nomes do urbanismo nacional, como Nabil Bonduki e Ermínia Maricato.

 3970683984_6c6feaa0b1_zEm Copenhagen, 32% dos trabalhadores se locomovem de bicicleta para o trabalho, além de ter um bairro, Christiania, onde carros não podem entrar. Países nórdicos têm outra configuração social e espacial. Está certo que comparações com eles são um tanto enviesadas. E comparar com nossas cidades latino americanas, está valendo? Bogotá é um bom exemplo de início de mudanças rumo à mobilidade urbana que prioriza o transporte coletivo e transportes não poluentes, como a bicicleta. Em uma cidade na qual apenas 13% da população possui carro, as transformações eram quase compulsórias, mas, mesmo assim, as camadas elitizadas não aceitaram com facilidade a diminuição de faixas para carros e o fim de inúmeras vagas de rua. À luz dos acontecimentos em Bogotá, parte da sociedade paulistana tem apresentado reações similares: o fim das 40 mil vagas de rua e a extensão de faixas exclusivas para ônibus chegou como um soco no estômago para aqueles que se locomovem sozinhos dentro de seus carros de cinco lugares.

A rejeição contra a administração Haddad é perfeitamente explicável quando retomamos a convulsão política (que quase culminou em deposição do prefeito) que aconteceu ao longo do mandato de Enrique Peñalosa, prefeito de Bogotá entre 1998 e 2001 e responsável por grande parte das mudanças viária na metrópole. A capital colombiana conta com 121 quilômetros de ciclovias, nas quais trafegam, diariamente, 1,5 milhão ciclistas, sendo que ainda há um esforço para a melhoria do transporte público. Na esteira dessas mudanças iniciais, a prefeitura paulistana também tem se esforçado, dentro do possível (lembrando dos sempre presentes e “espinhudos” obstáculos postos pelos cartéis de ônibus da cidade), para a melhoria do transporte coletivo. As faixas exclusivas já apontam para uma velocidade 68% maior, trazendo mais comodidade e rapidez para quem trafega de ônibus pela cidade. Há também uma nova  frota de ônibus com wi-fi e ar condicionado, tornando assim mais tragável o transporte coletivo para aqueles que ainda estão acostumados com suas redomas de vidro e lataria.

Fim de vagas na rua, expansão de faixas excluSivas para ônibus, construção de ciclovias fazem parte de um projeto de cidade que respeita o coletivo, as interações sociais e ocupa o espaço público. Tais ações não são isoladas, mas acompanhadas de outras como a legalização de artistas de rua, o diálogo com os skatistas e a legalização das comidas de rua. Por anos, os artistas de rua tiveram que pedir autorização na prefeitura para se apresentar. Desde quando espaço público tem dono? Por que privar os transeuntes de experiências artísticas e culturais? Da mesma maneira, as comidas de rua possibilitam ao pedestre uma opção de não ficar recluso em shoppings ou restaurantes. Uma vantagem do projeto atual de food-trucks é que eles se diferenciam da “barraquinha de cachorro-quente” e do “carrinho de yakissoba” porque são inspecionados pela subprefeitura, têm autorização da municipalidade e, portanto, pressupõem maior segurança e condições sanitárias ao consumidor. O Le Parkour (modalidade, com origem na França, que envolve o deslocamento rápido pelos obstáculos da cidade) só poderia ter se desenvolvido em uma cidade que permite a interação dos habitantes com seus equipamentos urbanos, bem como a interação entre os próprios habitantes. É nesse sentido que o diálogo estabelecido com os skatistas também é parte desse novo projeto de cidade.

Vida longa à São Paulo ocupada por seus próprios habitantes. Vamos nos desarmar e olhar para este novo projeto do lado de fora da janela do carro.

  “Calçadas são um direito do cidadão. Ter carros estacionados é uma decisão política. Não há nada técnico, nem legal que obrigue a ter vagas. Estacionar não é um direito constitucional”. Enrique Peñalosa

 “Uma boa cidade não é aquela em que até os pobres andam de carro, mas aquela em que até os ricos usam transporte público. Cidades assim não são uma ilusão hippie. Elas já existem”.  Enrique Peñalosa[1]

 *socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

[1][1] Essas citações foram retiradas da palestra do ex prefeito de bogotá na palestra concedida por ele na Portlan State Unviersity. Segue o link: https://www.youtube.com/watch?v=W03qBlwtRJI

 

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Categorias: Cidades

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um comentário em “Não esperneie, São Paulo também é bonita fora do carro”

  1. Yara
    15/09 às 21:06 #

    As mudanças estruturais que a cidade requer são numerosas, sendo muitas delas profundas e traumáticas, em vista dos interesses poderosos envolvidos, além de maneiras de pensar fossilizadas pelo preconceito e egoísmo de classe (a velha conversa de que é preciso que tudo mude, desde que em prejuízo apenas dos outros, respeitando os meus “direitos”, por mais absurdos e imorais que eles sejam). Enfim, espero que estejamos dando os passos iniciais e irreversíveis nesse longo caminho.

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