Delação

Editorial

Como em todos os casos, seria adequado para a democracia que os acusados (quaisquer que sejam) tivessem respeitado seu direito de serem considerados inocentes, até que (e se) a Justiça prove o contrário. Vivemos num país em que a mídia é livre, a Polícia Federal investiga, o Legislativo abre CPIs. O governo não impõe qualquer restrição a que se acuse, se investigue e se puna, caso comprovadas as irregularidades, quem quer que seja. Infelizmente, mídia e oposição parecem não apresentar tanto apreço pela democracia.

A mídia sempre se adianta, julga e pune antes de o Judiciário fazer seu trabalho. Funciona como as Medidas Provisórias que tanto critica: impõe culpa e pena, e o Judiciário que as tire se quiser, contra a parede e com um discurso pronto de que estará dando trégua aos “corruptos” se não condenar e punir. Ainda mais perverso é o fato de o julgamento midiático ser seletivo; os “corruptos até que se prove o contrário” nunca são os seus aliados.

Qual a dificuldade de deixar a Justiça fazer o seu trabalho? Não é dificuldade. É falta de compromisso. A mídia não tem compromisso com a justiça, tem compromisso com seus interesses em jogo. Agora, como sempre, não quer perder a oportunidade de explorar a situação que, coincidentemente ou não, vem um mês antes da eleição.

Marina Silva julga a parte que lhe toca do último escândalo (o ventilado suposto envolvimento de Eduardo Campos) como “vilania”, mas aproveita a parte que toca ao governo federal para usar na campanha eleitoral. Uma pergunta que caberia a Marina: por que a parte que desfavorece a candidatura do PSB (que inclusive é mais clara na delação, visto se tratar do próprio Eduardo Campos) não tem credibilidade, mas a parte que será usada para atacar a candidatura da presidenta Dilma Rousseff tem? Falta muita coerência para Marina Silva. Para resolver os problemas é preciso admiti-los, mas não só quando estão no cercado dos outros.

Aécio Neves continua na volta de apresentação depois de a corrida ter começado. Agora vê o safety car entrando na pista e sonha em voltar à disputa. Aécio é do partido que domina jornais em Minas Gerais e em São Paulo, que impede CPIs no Legislativo estadual, que fez mensalão em MG, que fez cartel em SP, que tinha Romero Jucá como líder do governo FHC no congresso, que é aliado de Arruda no Distrito Federal… O que faz Aécio? Apresenta-se como Aécio, o Limpo – assim como o PT já fez uma vez, antes da eleição de Lula. Nada mais sujo do que empurrar sujeira para debaixo do tapete.

E Dilma? Dilma estará sob fogo de muitos lados nos próximos dias. Será rebatizada de “Dilma Calheiros Vacarezza Alves”, pela turma do Domínio do Fato. Por outro lado, seria interessante se ampliasse seu olhar nesse momento. Mais uma vez, confronta-se a frágil tese da podre essência moral dos petistas – desmontada em segundos com o envolvimento de opositores e paralelos na prática de todos os partidos -, com o inquestionável caráter sistêmico da corrupção no Estado brasileiro e de uma governabilidade que funciona, mas que para funcionar desfigura em grande parte as disputas, forçando todos a serem muito parecidos e muito dependentes.

Colocando em segundo plano as acusações que vão responder, reparemos na ironia de que Cândido Vacarezza (PT-SP), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e Renan Calheiros (PMDB-AL) são justamente protagonistas dos entraves dentro do governo para se avançar na democratização do Estado e numa reforma política que contribua para desatar os nós da corrupção e dessa governabilidade marcada por vetos permanentes. O primeiro apunhalou o próprio partido na questão da reforma política. O segundo disse que é contra alterar o financiamento de campanhas porque sabe que só o PT ganharia com alguma forma alternativa (público ou de pessoas físicas). O último fez coro com os setores mais reacionários do País contra a política de participação social.

Que boa hora para Dilma ousar e fazer a sua segunda faxina. A primeira foi moral, quis agradar Willian Bonner que só ficaria satisfeito se Dilma demitisse a si própria. A segunda tem que ser uma faxina política, justamente desses que estão com a corda no pescoço agora, homens fortes do PMDB. Que se abra espaço para avançar nos projetos que são a razão de ser maior do PT na política brasileira hoje.

Nas próximas semanas, 450 entidades apresentarão o resultado do Plebiscito Popular que está colocando em discussão uma constituinte para fazer a reforma política com participação popular. O momento é bom para cravar um compromisso necessário, mesmo que o plebiscito não vá para frente ou mesmo que ele não seja a maneira mais adequada de se atingir seus objetivos. Espírito democrático, o governo do PT já provou há muito tempo que tem. Mesmo sob todos os ataques, de dentro e de fora do Estado, conviveu de forma respeitosa com instituições e com a imprensa.

Cada vez mais a realidade cobra, no entanto, além do espírito democrático que permite conviver com a democracia e as regras do jogo a ser mantido, a coragem democrática de assumir o papel de fazer a democracia se ampliar e se fortalecer. Neste momento que o governo Dilma estará sob forte ataque, se o partido ampliar o campo de visão, pode ver não apenas o problema, mas partes de sua solução.

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Categorias: Opinião, Política

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