De volta às Américas ou mais um pantoprazol, por favor!

Muito provavelmente, mesmo para alguém que nunca tenha acampado sozinho em uma bela praia, não deve ser muito difícil imaginar o gênero de situações  pouco habituais às quais o acampante se encontra sujeito. Entre elas, chamo atenção para a que mais me marcou nesses três dias: estar sozinho. O que se agrava diante do fato de a viagem ter sido extremamente mal organizada, pois estava mergulhado em livros e mais livros do meu mestrado, e não pensei em comprar repelentes, nem lanterna.

(Aliás, não ter uma lanterna e depender do celular para iluminar o caminho entre a praia e a barraquinha da “tia” que vende tacos a dois quilômetros e meio daqui me rendeu bons sustos, como os escorpiões amontoados num canto da estrada e a iguana – que até eu entender que se tratava de uma inofensiva iguana e não de um dinossauro maia que havia sobrevivido à colonização espanhola –, já tinha me deixado com o coração na boca. Regra número um: mesmo com lanterna, não existem motivos racionais para se iluminar um cantinho de onde venham barulhos estranhos, caso você esteja acampando a uma certa distância segura desse cantinho).

tulum

Ruínas de Tulum

Está tudo um pouco confuso, né? Deixe-me voltar ao começo: estou cursando meu mestrado em história social da arte na França. Fui aprovado de maneira repentina e, sem ter tempo hábil para me candidatar a uma bolsa de estudos, resolvi ir “na cara e na coragem” e trabalhei como guia de bares (sim, esse trabalho existe, e não é tão legal quanto parece) para me sustentar durante os estudos na Europa. No início do ano, mandei também minha candidatura para fazer um estágio em uma pequena instituição cultural na Cidade do México, que se chama R.A.T. (Residências Artísticas por Intercâmbio), na qual desenvolverei parte da minha dissertação acadêmica no formato de uma programação cultural aberta.

Foi após essa aprovação que encontrei um voo baratíssimo de Londres (com a renomada empresa Thomas Cook Airlines!) e saí de Paris de ônibus, iniciando aquilo que seria uma viagem capenga e cheia de surpresas (até agora todas inofensivas!) em direção à capital britânica, para dali pernoitar por algumas horas e tomar um avião que me deixou em Cancún (é incrível o que fazemos para economizar algumas centenas de reais, e como isso influencia todos os dias que se seguem a essa decisão).

Diante dos mais atentos e preocupados comentários de alguns amigos que já haviam visitado essa parte do território mexicano, fiz de tudo para evitar a cidade de Cancún, e vim diretamente do aeroporto para Tulum, praia de onde escrevo, diante de um mar verde esmeralda como nunca havia visto antes, e rodeado por algumas melancólicas ruínas maias.

Meu percurso de viagem, antes de chegar à Cidade do México, inclui sair daqui em direção a Chiapas, visitar outras tantas ruínas maias, rios e cachoeiras, bem como acampamentos indígenas e zapatistas para, enfim, chegar ao meu destino final, onde começo a trabalhar uma semana após minha chegada ao México.

Diante de todos esses planos e excitações, viagens e trabalhos, me vejo há três dias acampando sozinho, à beira-mar. Tal modo de viajar coloca questões de primeira ordem, entre elas: o que fazer depois de escurecer? (Se eu tivesse a lanterna, poderia ler o Tout-Monde, dificílimo livro do escritor martinicano Edouard Glissant que trago comigo, e que tem me ocupado durante o dia, mas nem isso).

Sem querer continuar este diário por esse caminho, termino o assunto dizendo que acampar sozinho à beira-mar te coloca de um modo muito singular em contato com você mesmo – de um modo como poucas vezes estive. Não dá para conversar com ninguém (há quatro dias que não tenho desenvolvido grandes diálogos, a não ser para pedir informações), não há filmes para assistir, pois meu mini HP está sem bateria (além do fato que todos os filmes que baixei recentemente para pensar uma pequena mostra de cinema são estilo “funny games”, do diretor Michael Haneke, o que talvez não seja exatamente o tipo de filme mais aconselhável para essa situação…), tampouco estou viajando com minha namorada (o que inclusive nos permitiria ver os filmes estilo “Haneke”, caso tivéssemos bateria no laptop…).

Ou seja, é uma rotina de dormir ao cair da noite, às 20h30, após traçar essas linhas em um pequeno caderno em meio ao breu, na esperança de que elas sejam legíveis para quando puder digitá-las (e estão!), e acordar às 5h, passando o dia lendo debaixo do toldo na praia e fugindo do sol. Um programa que muitos achariam ruim, mas que depois de um ano entre cidades europeias, frio, bibliotecas e meses de trabalhos em pubs, era nada mais nada menos tudo o que eu queria. Além de poder fazer um balanço desse primeiro ano de mestrado, de estar fora de casa e de São Paulo (cidade onde cresci e vivi a maior parte da minha vida), das perspectivas de trabalho que se aproximam e da relação amorosa que venho, com altos e baixos, mantendo a distância.

O projeto de pesquisa que desenvolverei aqui no México (sobre o qual irei escrevendo ao longo dos meses de trabalho) é o de minha dissertação de mestrado, como disse acima. De maneira breve, estou interessado nas consequências do debate levantado pelo antropólogo francês Bruno Latour em sua proposição de antropologia simétrica, ao afirmar que jamais fomos modernos. A modernidade como uma ficção, mas não por isso menos real em seus efeitos, teria sido o modo particular por meio do qual determinados grupos humanos julgaram-se distintos de outros, e com a prerrogativa de dominar-lhes em nome dessa pretensa modernidade, a ser buscada coletivamente pela humanidade, que então saía das trevas e se iluminava em direção a um futuro redentor. O ponto que me interessa nesse debate que questiona o grande discurso da modernidade por uma perspectiva muito diversa das defendidas pelo pós-modernismo é entender como alguns trabalhos de arte contemporânea hoje fazem referência a determinadas concepções temporais, tais como vislumbradas pela modernidade – como a crença no progresso.

Assim, parecia-me essencial que esse debate se deslocasse não apenas nas referências europeias (daí minha preferência por tentar desenvolvê-lo na América Latina, e foi no México que obtive o estágio), mas também para além de instituições acadêmicas e da escrita de um texto destinado a apodrecer nas prateleiras (daí minha preferência por desenvolvê-lo em centros culturais, no formato de uma programação aberta).

Essas ruínas maias que se encontram aqui a 500 metros de onde durmo, serviram de disparador para pensar muita coisa, nesses largos três dias sem muito que fazer. Elas se encontram no topo de uma colina e são muradas nos três lados (sendo o quarto lado o próprio mar do Caribe). Trata-se de um dos templos mais tardios construídos pelos maias (no período entre 1200 e 1550), que ainda viviam ali quando da chegada dos espanhóis. O nome maia atribuído ao sítio era Zamá, que significa manhã, devido ao posicionamento privilegiado onde se localizava a fortaleza, e de frente ao mar, onde apenas a elite maia local vivia. Foi também chamado de Tulum, ou seja, muralhas.

Essas ruínas, por seu aspecto ao mesmo tempo selvagem (estão no meio da natureza) e por parecerem mais antigas, nos trazem uma sensação definitivamente diferente das greco-romanas. E aí certa intuição: se as ruínas greco-romanas foram paulatinamente utilizadas durante a ascensão da modernidade para justificar o status de uma nova classe social ascendente (a burguesia urbana e comerciante), sua correspondente nova visão de ver o mundo, e suas dinâmicas (muito diversas da medieval), que lugar teria as ruínas dos outros no forjar da ficção moderna?

Para tentar exemplificar: o historiador da arte renascentista Aby Warburg chega a afirmar, em um breve e brilhante estudo sobre Durer e a renascença, que a “descoberta”, em 1506, da escultura de Laocoon seria menos uma descoberta do que o encontro de uma peça de arte que justificasse as pesquisas que os renascentistas vinham fazendo desde o Quattrocento. Ou seja, mais do que uma descoberta de algo que realmente teria existido enquanto tão no passado, a obra justificava as inovações formais em termos de sofrimento, patologia e movimento que a nova classe em ascensão buscaria, em contraposição ao imaginário medieval. Buscava-se no passado, em suma, uma justificava para o que se desenhava no futuro.

Mas o que dizer sobre as ruínas dos outros? Certamente, a sua grandiosidade espantou aos viajantes, colonizadores e comerciantes – e a literatura é repleta de relatos a esse respeito. Teriam elas apenas servido como marco distintivo para a modernidade, que então começava a se desenvolver? Ou essa modernidade apenas teria encontrado em um plano geográfico diverso algo frente ao qual deveria se diferenciar? Veja bem, tudo isso está ocorrendo na mesma época: a “descoberta” das Américas é contemporânea à descoberta de Laocoon e às influências greco-romanas na nova concepção de classe, de modernidade e de Europa que então surgia.

Não se trata de responder às perguntas, é claro, mas apenas de levantá-las, acreditando na sua possibilidade de nos dizer algo a respeito dessa grande narrativa moderna. E isso me leva a pensar no discurso que o poeta mexicano Octavio Paz pronunciou ao receber o Nobel de Literatura, um tanto quanto piegas (sinto um grande incômodo quando ele fala que o poeta é aquele apaixonado por um instante, e que faz de tudo para retê-lo, embora consiga a beleza da imagem. Sua fala toca em pontos que me parecem centrais para compreender o mundo pós-1989. Uma de suas frases que mais me marcou foi essa: “La modernidad es una palabra en busca de su significado: ¿es una idea, un espejismo o un momento de la historia? ¿Somos hijos de la modernidad o ella es nuestra creación? Nadie lo sabe a ciencia cierta. Poco importa: la seguimos, la perseguimos (…) la modernidad ha sido una pasión universal”.

Seu discurso consiste em uma análise muito singular e aguçada de seu tempo – foi pronunciado em 1990, entre a queda do Muro de Berlim e o fim da União Soviética. Sua análise salienta tanto o caráter fictício (mas não por isso irreal) da modernidade, quanto a sua falência enquanto projeto frente ao qual se estaria caminhando de maneira unívoca, seja pelas teses de uma direita crente que a liberdade econômica seria capaz de desarmar os grilhões do passado, seja pela esquerda segura de uma marcha inequívoca rumo ao socialismo.

Em suas impressões sobre as transformações do mundo que o cercam, Paz tem consciência de como as concepções sobre o passar do tempo são passageiras, e que a maneira específica como a articulação entre passado e futuro tal como se elaborou desde a Revolução Francesa encontrava-se em crise: ”Una tras otra esas ideas y creencias fueron abandonadas. Me parece que comienza a ocurrir lo mismo con la idea del Progreso y, en consecuencia, con nuestra visión del tiempo, de la historia y de nosotros mismos. Asistimos al crepúsculo del futuro.”

O passado e as incertezas e complexificações com relação a ele  são formuladas por Paz frente a essa indeterminação do futuro. O projeto moderno ocidentalizante que se queria unívoco teria, na realidade, se apresentado como uma grande rede pendendo para diferentes direções. Para tanto, bastaria olhar para a modernidade latino-americana e a maneira como soube complexificar as separações simplistas de um discurso que pretendia existir um nós, e os ”outros-eles”; um olhar para dentro se mostrou muitas vezes um caminho cheio de surpresas, para aqueles que criticaram a ideia de que a estrada se traçava apenas para fora.

***

Outras impressões mais prosaicas da região valem ser mencionadas. A organização urbanística é muito similar à brasileira – por exemplo, a Riviera Maia, estrada a alguns quilômetros da praia e que vai acompanhando-a (como a estrada Rio-Santos, em São Paulo).

Um menino mexicano muito jovem me falou, enquanto esperávamos no ponto de ônibus a chegada da van, que aqui apenas se estudava para ser delinquente. O turismo norte-americano é realmente muito forte, e meio nojento – vi um americano xingando os caixas de um banco local de “fucking stupid Mexicans”, pois eles não queriam lhe dar o dinheiro que seu pai enviava via Western Union.

A convivência com os garçons que trabalham no caríssimo bar ao qual o meu camping está acoplado está sendo divertidíssima: a cada vez que passo por ali em busca de informação, ou diante das inúmeras e frustradas tentativas de puxar papo (espero que não pelo meu portunhol, que considero de nível avançado), apenas sorriem e “tiram onda”…

Isso sem falar na comida, excelente, deliciosa e, obviamente, excessivamente picante – que me obrigou (com muito prazer, obrigado!) a dobrar a dose de pantoprazol diária.

PS: um acontecimento um tanto quanto engraçado foi que eu tentei seguir o mapa, que indicava a existência de um grande continuum de areia na praia, mas estava repleto de pedras difíceis de passar. Uma grande tempestade chegou, para piorar tudo. Fui pedir abrigo numa casa. Para minha surpresa era a da regente da orquestra de Chicago, que acabou me chamando para jantar em meio a uma conversa complexa sobre música, que tive dificuldade de seguir, obviamente.

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2 Comentários em “De volta às Américas ou mais um pantoprazol, por favor!”

  1. 12/09 às 18:43 #

    Cacete Fábio, queria estar ai com voce, te observando de dentro de uma câmera presa a um balão.

  2. Wally
    08/09 às 16:03 #

    Sucesso Fabio na sua caminhada!!
    Muito bom!!!

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