Do you speak Portuguese? Breve cenário do atual ensino de Português para Estrangeiros

Por Camilla Wootton Villela*

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“Carnaval em Madureira” (1924), Tarsila do Amaral

O ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE) está em alta em razão da boa imagem do Brasil no exterior, que tem despertado o interesse a alunos que consideram vantajoso dominar o idioma; não a língua de Camões, mas a variação brasileira: o português com samba, como já ouvi e falei várias vezes. Um discurso favorável aos nacionalistas de plantão que dizem coisas como “Maravilha! Finalmente chegou a vez dos gringos aprenderem a mi-nha lín-gua!”. Mas calma, que não é bem assim. Como em toda área em crescimento, existem problemas, embora avistemos um amontoado de boas previsões para os próximos anos.

Se, antes, perguntássemos a um gringo o porquê de ele estar estudando português, certamente a resposta giraria em torno de algo como: relacionamento amoroso com algum brasileiro ou interesse cultural pelo Brasil, provavelmente, pela música. Hoje, as respostas se ampliaram e podemos falar em três grandes perfis mais recorrentes de interessados em aprender a língua falada em “terras tupiniquins”: o jovem que pensa na carreira e nas oportunidades no mundo dos negócios que o português pode trazer; o empresário (e sua família) expatriado; e o filho de brasileiros imigrantes que tem o português como língua de herança.

A “culpada” deste cenário não foi necessariamente a Copa ou a Olimpíada que virá em breve. O crescimento do ensino de PLE não é de hoje; acompanha a chegada de imigrantes ao Brasil e o desenvolvimento econômico deste país que é a maior economia da América Latina.

Parece clichê em qualquer abordagem que trate sobre a língua portuguesa, mas é pertinente sempre pontuar: o português é a quinta língua mais falada no mundo, estando presente em todos os continentes, um dado considerável para servir como introdução a qualquer reflexão sobre seu ensino. Mesmo não sendo um idioma internacional como o inglês e o espanhol, o português começa a ganhar destaque no cenário mundial por motivos econômicos e culturais, e novos grupos de interessados começam a surgir. Vamos a alguns dados:

Em Harvard, já se ensinava português desde 1831, mas na última década o idioma teve a sua melhor fase nos EUA: aumento de 60% no período entre 2011 e 2012, fora incentivos a professores de português como bolsas oferecidas pela Capes e Fullbright. No Reino Unido, o relatório “The Languages for the Future” identificou, entre outras línguas, o português como língua essencial para os próximos vinte anos, tendo em vista fatores econômicos, geopolíticos, culturais e educacionais. Na Europa, com a situação de crise na economia, em especial no período entre 2011 e 2012, a opção pelo português pode ser um diferencial no mercado de trabalho, principalmente aos filhos de famílias brasileiras expatriadas que precisam aperfeiçoar seu português para voltar ao Brasil; neste ano, ademais, saiu na mídia que a Galiza começa a apostar na introdução do português no ensino, com interesse para entrar no mundo lusófono, particularmente pela proximidade a Portugal. A China, que também tem o português como língua oficial (Macau), é o país onde mais se aprende português no mundo. Na Universidade de São Paulo, cresceu 31% de 2012 a 2013 o número de estrangeiros em programas de intercâmbio e no Rio a procura por cursos de português pensados na imersão cultural de certo “how to be a carioca” aumentou.

Os intercâmbios, aliás, fizeram com que o Brasil entrasse na rota dos estudantes estrangeiros: em oito anos, os vistos dados a estrangeiros que querem vir ao Brasil para estudar mais que dobraram; passou de 5.770 para 12.547 emissões. O governo brasileiro também investiu, em 2010, parte da verba em programas de cooperação internacional de incentivo à educação.

Além de estudantes, há também os expatriados, geralmente executivos que assumem cargos em que devem lidar com funcionários brasileiros. As aulas são na própria empresa, em grupos pequenos ou individuais, e muito direcionadas às necessidades dos alunos, o chamado “português para negócios”. Vale lembrar, ainda, o recente caso dos haitianos que já somam vinte mil no Brasil, uma alternativa de mão de obra às empresas brasileiras, que oferecem, além do salário, benefícios, hospedagem e aulas de português aos funcionários – para entender mais o caso dos haitianos, sugiro a leitura de Por que o Haiti está aqui?, excelente texto da Laís Azeredo publicado aqui no Gusmão.

Outro campo em crescimento dentro da área é o chamado Português como Língua de Herança (PLH), um fenômeno interessantíssimo que ganha atenção de professores e pesquisadores no como transmitir não apenas a língua, mas valores e a cultura brasileira para filhos de brasileiros nascidos no exterior, ou residindo no exterior desde pequenos. Trata-se de um processo de resgate e também procura pelas raízes nacionais daqueles filhos de sonhadores que no passado foram buscar por novos horizontes num país estrangeiro.

A certificação fica por conta do Celpe-Bras, o exame de Certificação de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros, desenvolvido pelo Ministério da Educação. A segunda edição deste ano teve 5.117 inscrições homologadas por meio do sistema eletrônico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O certificado de proficiência em PLE é o único reconhecido oficialmente pelo governo brasileiro e “é aceito internacionalmente em empresas e instituições de ensino como comprovação de competência na língua portuguesa, e no Brasil é exigido pelas universidades para ingresso em cursos de graduação e em programas de pós-graduação, bem como para validação de diplomas de profissionais estrangeiros que pretendem trabalhar no país”, conforme informa o site do Inep.

E é claro que se cresce a procura, também aumenta a necessidade por profissionais qualificados, um grande problema para a área de ensino de idiomas, por sinal. No PLE não é diferente e acontecem situações intoleráveis e infelizmente comuns de falantes maternos da língua portuguesa que pensam, erroneamente, que só por falar a língua sabem ensiná-la. Este fato é observado em situações recorrentes como a de brasileiros que vão estudar no exterior ou se mudam por razões de trabalho de algum membro da família. Ou seja, para conseguir algum dinheiro extra, a pessoa torna-se professor de português por mera necessidade e facilidades legais (trabalhos temporários sem necessidade de visto de trabalho), sem especialização ou formação em letras, um erro que gera, como sabemos, a desvalorização do professor da área. Ensinar uma língua não pode, nunca, ser visto como um “bico”.

Minha experiência com alunos estrangeiros me tem feito entender que para ensinar PLE não é preciso apenas dominar a gramática, mas atentar-se a detalhes, pensar a língua de maneira diferente e, assim, até conhecer mais o seu país e, por que não, conhecer-se.  Fora todas as questões de metodologia, é preciso que o profissional tenha grande bagagem cultural, pois é essencial ambientar o aluno na cultura da língua da qual se está ensinando.

Lecionar aulas a estrangeiros é uma troca de experiência séria e valiosíssima. É explicar que a expressão “pois não” significa sim e que brasileiro, no fim das contas, quase nunca fala não, na lata (a gente até evita o uso do imperativo, substituindo-o pelo presente do indicativo). É debater que o tal “jeitinho brasileiro” nem sempre significa corrupção e que em algumas regiões do Brasil se fala tu e em outras você, mas que não existe uma maneira taxada como certa de se falar. É apontar que o português obedece a uma sintaxe na gramática, isto é, a ordem das palavras em uma oração (dificuldade especial dos asiáticos), e que estamos, sim, cheios de problemas políticos no país, para tentar desenvolver alguma criticidade no aluno – e língua alguma vez esteve longe de política?

É mostrar, afinal, que o Brasil é o país da diversidade e que aqui existem incontáveis sotaques, mas que nós, todos os duzentos milhões, nos entendemos e nos comunicamos, majoritariamente, na mesma língua, o português do Brasil, que tem ritmo e poesia diferente do português de Portugal, de Angola, do Timor Leste. É mesmo o português… com samba.

___

* Camilla Wootton Villela é formada em Letras e mestranda em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desenvolve pesquisa na área de Modernismo Brasileiro, Jornalismo Literário e Português como Língua Estrangeira (PLE). É professora, revisora de textos e escritora.

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Categorias: Educação

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4 Comentários em “Do you speak Portuguese? Breve cenário do atual ensino de Português para Estrangeiros”

  1. Anônimo
    14/10 às 19:56 #

    maravilhoso o seu texto!

  2. Anônimo
    11/09 às 19:53 #

    Gostaria que vc me explicasse com exemplos essa parte do texto: “e que brasileiro, no fim das contas, quase nunca fala não, na lata (a gente até evita o uso do imperativo, substituindo-o pelo presente do indicativo)”.

    • Camilla Wootton Villela
      14/09 às 21:30 #

      Olá! Obrigada pelo comentário!
      O tema do imperativo no português do Brasil é bastante curioso. Por uma questão cultural, diversas vezes evitamos o seu uso e acabamos substituindo pelo presente do indicativo, numa impressão de que a ordem será “amenizada” ou “suavizada”. Por exemplo (pensando nas conjugações em “você”): faça sua tarefa! x faz sua tarefa; não se atrase x não se atrasa; venha para casa x vem para casa; fique aqui comigo x fica aqui comigo etc.
      Um abraço,
      Camilla

  3. Anônimo
    11/09 às 19:52 #

    Adorei o texto

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