Sentir, Ser: Tão

Texto por Rodrigo Zalcberg e foto por Vinicius Nogueira

sentir (dl fb)

 

Sentir o Sertão

   é deixar qualquer lugar

                                  casa for.

 

É viver com partilhar

da força e da terra dos quilombolas

 

 

e dividir com as crianças a 

fruta doce da seriguela

 

 

com seus alvos sorrisos 

saltando em contraste.

 

 

É somar-se aos gritos e

gargalhas

           no ônibus lotado

           que 

                      balança 

         pela

                    estrada

 de terra.

 

 

  Para sentir o sertão,

é preciso montar cavalo em pêlo

                                            pela

                                     caatinga.

 

 

E habituar às comichações das muçocas.

 

 

Se faz preciso juntar-se àlegria do forró

E à tranquilidade cotidiana colhida pela comunidade

plantada com décadas da luta

que venceu o latifúndio, 

e, com este,

vestígios da escravidão,

 

 

sendo enfim governante de sua terra 

e força de trabalho.

 

 

Se torne membro da família

que abriga forasteiro como

quem revê velho amigo.

 

 

E faz cada dia

          vida inteira.

Junto aos causos do vô

 ao beijú da Sinhá

e a tuas irmãzinhas de 

           tranças negras.

 

 

Para sentir

             o sertão,

Se precisa comemorar a chuva

que abençoa a terra com

 a vin´da vida. 

 

 

E sentir-se mais em casa

do que no lugar donde se partiu.

 

 

 

Mas seguir

sempre é preciso

 

 

(que não chegue

a manhã

amanhã)

 

 

e a saudade que se pré sente chega pra acabar com a seca nos olhares

em despedidas que enterram tantas sementes no peito 

que chega a doer.

 

 

Porém

Eu lhes asseguro a todos, novos velhos amigos

que voltarei.

 

 

E vou revê-los, 

se não em vossas pessoas,

 

 

ao menos no carinho

e amor de seu povo.

 

 

E que a morte me acometesse

antes disso

 

 

nosso reencontro desde já selado está,

 

 

Pois que o amor que lhes tento retribuir

 

 

Faça destas palavras vento,

vento que volte com as chuvas no próximo dezembro.

 

 

Dedicando a vocês todos

meus companheiros,

 

 

este singelo

 

 

poema. 

 

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Categorias: Entremundos

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2 Comentários em “Sentir, Ser: Tão”

  1. Juka
    19/09 às 13:05 #

    Chorei com esse, mal consigo reagir. Incrível!

  2. Fernando Frederico
    01/09 às 07:27 #

    É muito lindo este poema e, para o meu gosto, ele é o melhor
    desta série, estando também acompanhado por uma imagem
    excelente, (colorida desta vez), com o ênfase num foco de luz
    que desenterra uma fachada da escuridão do seu isolamento.
    Mas o poema é um hino à terra e ao caboclo que a arroteia,
    contra ventos e marés, plantando a tranquilidade na leira em
    que foi escravo e quase escravo; e a sua voz melosa e meio
    nasalada ressuma nos versos “Junto aos causos do vô / ao
    beijú da Sinhá”.
    Até a colocação dos versos de cada estrofe nos transporta
    a esse meio rural, duro e calmo, belo e sensual, com cheiro
    de suor e de estrada esventrada, onde o ônibus balança como
    balançam as palavras da estrofe:
    no ônibus lotado
    que
    balança
    pela
    estrada
    de terra.

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