Terrorismo, Militância e Solução Bi estatal: entrevista com Edward Said

Traduzido por Veridiana Domingos *

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Foto tirada por Veridiana Domingos, em Jericoh, Palestina, em 2012.

Edward W. Said foi um dos grandes pensadores do século XX, falecido em 2003. Ele nasceu em 1935, em Jerusalém, na Palestina, época em que a Palestina estava sob domínio britânico (que assim permaneceu entre 1922 a 1948). Said viveu sua infância na Palestina e na adolescência, em 1947, sua família migrou para o Egito. A data de sua migração coincide com uma resolução da Organização das Nações Unidas,  que dividiu o território palestino em áreas destinadas ao povo judeu e ao povo árabe. Com formação em Princeton e Harvard, Said foi professor de literatura comparada por  quarenta anos na Universidade de Columbia em Nova York. Por incrível que pareça, Said nunca deu aula ou ensinou coisa alguma sobre o Oriente Médio, embora grande parte de sua obra seja destinada a discutir o mundo árabe e sobretudo, a questão árabe-israelesense.

A entrevista abaixo foi realizada por Timothy Appleby, no final da década de 1986, pelo jornal The Globe and Mail, e publicada no livro Power, Politics and Culture: interviews with Edward W. Said. Nela, Said, em tom ousado e enfático discorre sobre sua militância como palestino (embora cidadão americano), sobre o terrorismo e a solução bi estatal.

Você acha que é possível um Estado árabe e um Estado judeu coexisitirem?

Said: Absolutamente sim.

Mas se os israelenses rejeitam a Resolução 242 das Nações Unidas (que também conclama o retorno das terras ocupadas por Israel em 1967 na troca pela paz com os vizinhos arábes), como eles poderiam aceitar um Estado palestino?

Said: Levará muito tempo. Nenhum palestino espera que nem os EUA e nem Israel desista de alguma coisa. Eles vão dar através do aumento do custo de manter refém toda uma população… Nós estamos lidando com uma história de sofrimento e opressão, então a dimensão ideológica é importante. E para muitos israelenses a questão é ou prolongada, um conflito interminável, ou uma tentativa de trazer algum tipo de acomodação. Senão, estamos ambos condenados.

Por que você não renuncia ao terror de uma vez por todas?

Said: Nós não estamos em uma posição de renuncir a nada que confirme nosso status de essencialmente terroristas, que é o que Israel está fazendo para convencer o mundo desde meados de 1970, convencendo de que todos os atos palestinos de resistência são atos de terror. É uma hipocresia flagrante, é uma mentira de um Estado que bombardeia campos de refugiados a 3.300 metros.

No entanto…

Said: No entanto, estou falando sobre uma imagem. Imagens são fomadas pela mídia e você sabe também que eu não estou interessado em proteger o Al Fajr [jornal árabe publicado em Jerusalém], mas os jornalistas combremcobre ultrajes aleatórios feitos por indivíduos que tentaram explodir um ônibus ou coisa assim em Israel. Você já fez realmente uma contagem de corpos? Já fez? Você tem alguma ideia da disparidade entre israelenses e palestinos mortos?

Por que você acha que você demorou tanto tempo convencendo as pessoas disso?

Said: Porque somos pessoas não ocidentais de uma civilização que sempre esteve em confito com o Ocidente. O mundo do Islã sempre foi um competidor histórico e nunca se rendeu. Então uma coisa que as pessoas não entendem é: por que vocês, palestinos, choramingam? Por que não vão embora? Esqueçam, nós não iremos.

Talvez seja hora de acabar com isso.

Said: Eles disseram isso há cinco anos. O fato é que todo israelense percebe que eles não têm opções militares contra nós. O que eles vão fazer? Matar todo mundo? Então, alguns de nós dizem: “nós vamos continuar lutando”. E nós continuamos dizendo: “nós vamos continuar junto de vocês”. E não importa o que eles fizerem, nós seremos a sombra.

E o terror é o meio de se fazer isso.

Said: Eu sou contra o terror – fortuitamente horrivel. Esse esquema de colocar uma bomba em um avião, eu sou totalmente contra. Eu estou falando de resistência na ocupação dos territórios da Faixa de Gaza e da Cisjordânia.

Muitos israelenses tem uma absoluta determinação de não desistir de sua terra.

Said: Eles não têm que desistir. Eles podem ficar. Há israelenses e palestinos em ambos os territórios. Esse não é o problema; o problema é a soberania.

E você aceita essa soberania israelense.

Said: Eu aceito porque considero que é a realidade. Eu também acho que é o reultado de uma trágica história particular do povo judeu. Mas sobretudo, eu não acredito em desapossar pessoas… vocês precisa encontrar um modo de partilhar.

Diga-me. Por que, quando os palestinos são entrevistados, tem sempre uma imagem contraditória?

Said: Porque a imagem que persiste é aquela de um povo que se utiliza da violência como tática principal. E você sabe que isso é um esteriótipo, é um clichê midiático. Então metade da nossa discussão é sobre terrorismo, que não é a questão.

Para muitos judeus a questão é: nunca mais de novo.

Said: E parte do nosso trabalho é de educá-los que nós não estamos falando da repetição de uma Segunda Guerra Mundial.

 

*socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda em Sociologia pela USP e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória Coletiva e Violência.

 

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Categorias: Mundo

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