Todo Estado é violento por essência

 

– sobre algumas particularidades do conflito israelo palestino

Por Fábio Zuker*

Recentemente, alguns textos foram publicados no Gusmão a respeito do conflito entre israelenses e palestinos. Alguns destes artigos focalizavam o atual ataque israelense à Faixa de Gaza, fazendo certa história do militarismo e da política de Israel, como o de minha colega Veridiana Domingos (clique aqui para lê-lo) e o de Karina Stange Caladrin (aqui); outros, como o meu (aqui), mais centralizados em pensar as contradições envolvidas no conflito a partir das tentativas de formação de Estados nacionais na região.

 

Não vou me alongar na descrição dos dois excelentes artigos publicados por Veridiana e Karina – embora me sinta claramente mais identificado com o primeiro. Entretanto, gostaria de propor uma pequena inflexão no debate instaurado pelos artigos das pesquisadoras: Israel só pode ser um Estado violento por essência na medida em que todos os Estados são violentos por essência.

 

Vou tentar embasar o meu ponto em algumas reflexões teóricas que podem parecer um pouco desconexas do contexto específico do conflito Israel-Palestina, mas que me parecem ser mais do que pertinentes para entender o conflito de um ponto de vista pouco afeito a ver criações estatais como solução. Inicio com uma pequena menção ao texto do antropólogo francês Pierre Clastres Do Etnocídio. Em seguida, tento levantar algumas particularidades do conflito no Oriente Médio, e termino, seguindo o caminho aberto por Veridiana em seu texto, quando menciona a crítica de Walter Benjamin à escritura da história pelos vencedores, propondo a já canônica expressão de escrever a história a contra-pelo; ou seja, uma atenção especial aos fragmentos que subsidiam nas narrativas vitoriosas e atestam que o processo histórico antes de ser uma caminhada rumo à liberdade (ponto de vista compartilhado tanto pela esquerda quanto pela direita), seria uma sequência de catástrofes.

 

Uma observação: minha argumentação não vem no sentido de justificar o Estado israelense em qualquer que seja as suas ações ou princípios ideológicos – minha crítica a essa formação estatal específica está mais do que clara no artigo anterior (novamente o link, aqui). Reitero: acredito que expandir o ponto de vista sobre o conflito para a lógica inerente à formação de Estados nacionais possa abrir outra perspectiva para entender as suas particularidades.

 

Pois bem, então, todo Estado é violento por essência. Para justificar tal afirmação proponho um pequeno desvio do conflito israelo-palestino para traçar alguns breves comentários sobre o pensamento de Pierre Clastres – antropólogo interessado por fenômenos políticos, e autor de livros como Arqueologia da Violência e A Sociedade Contra o Estado. Um pensamento que une pessimismo e crítica (como o é também, vale dizer, o de Walter Benjamin), e que se desenvolve de maneira singular em um texto muito mais especulativo que propriamente etnográfico, intitulado Do Etnocídio.

 

Etnocídio é, segundo Clastres, diferente do genocídio, uma destruição sistemática dos modos de vida e pensamento de pessoas diferentes daqueles que perpetram a destruição. O mais perturbador é que o etnocídio é visto por seus agentes como uma tarefa necessária, exigida por certo humanismo. Toda cultura é etnocêntrica, ou seja, vê as outras culturas a partir de um ponto de vista específico, vendo a si mesma como a encarnação do humano. Mas apenas a sociedade ocidental seria etnocida, devido à formação estatal-nacional, cuja possibilidade de surgimento é precisamente minada por outras formações sociais, como a dos ameríndios que Clastres estudava.

 

O ponto defendido pelo antropólogo francês caminha em duas direções: a primeira, que é a que mais nos interesse aqui, afirma a existência de um etnocídio no interior da própria sociedade ocidental, jogando um papel determinante na formação dos Estados nacionais; a segunda, apenas para mencioná-la, consiste em um argumento econômico: frente a necessidade de expansão ilimitada do regime capitalista, nada nem ninguém pode ser indiferente, tudo se torna útil e utilizável no processo produtivo e de lucro, sendo um dos motores do colonialismo e do etnocídio, quando não do genocídio – diante daqueles que se recusam a participar do jogo econômico.

 

Deste modo, a sociedade ocidental é etnocida com relação ao outro não ocidental. Mas ela é etnocida com relação a ela mesma, pois o processo de formação dos Estados nacionais encontra no etnocídio uma de suas forças motores: os Estados nacionais europeus se constituem inspirados em uma força centrípeta, em que o diferente é congregado sob a lógica do igual (ou seja, do múltiplo ao uno). Pensamos na formação (o termo making of em inglês me parece insubstituível, por salientar a artificialidade) da ideia de que existam franceses, espanhóis ou mesmo italianos e alemães (países de unificação mais tardia).

 

Tomemos a França como exemplo: o território hexagonal que hoje se reconhece como sendo o Estado francês continental (sem contar os territórios além-mar) era habitado por bascos (povo não latino de origem desconhecida), bretões (povo de origem céltica vindos do sul da Grã Bretanha), normandos (originários de vikings da Escandinávia), entre tantos outros grupos linguísticos como os que habitavam a parte sul do país (catalão, língua occitana, provençal, língua niçarda) ou na fronteira com a Alemanha, para ficar apenas com alguns exemplos. Ao longo do processo de unificação nacional, todos passaram a ser franceses, a falar a língua francesa, e se identificar com um Estado nacional unificador, cujas forças centrípetas foram impulsionadas pela escola laica, universal e obrigatória em língua francesa.

 

Em paralelo a essa violência simbólica que consiste as tentativas de homogeneização das diferenças sob a lógica do uno, tais unificações fazem uso também de violências físicas, para com o diferente que está além de seu território, mas também para aqueles que resistem em ser diferentes, não se integrando à lógica nacional – vide o caso espanhol de repressão aos grupos separatistas. Assim, todo Estado é violento por essência.

 

Mas afinal, o que tudo isso tem a ver com o conflito israelo-palestino? Para mim, parece óbvio que Israel é mais um entre tantos outros projetos de construção nacional ocidental. Um entre tantos outros, mas repleto de particularidades. Entre elas, talvez as duas principais sejam um projeto nacional que procura reunir povos de diferentes origens, como fizeram os Estados nacionais europeus, mas com a grande diferença da promoção da imigração desses povos para outro território, e em detrimento da população que lá vivia – como acabou ocorrendo com o projeto sionista, muito embora existissem vertentes que pensavam justamente a construção de um Estado que não fosse uma nação exclusivamente hebreia. Em segundo lugar, trata-se de uma tentativa de instaurar um Estado nação no momento imediatamente posterior às maiores catástrofes jamais existentes por conta do nacionalismo, que foi o nazismo e o consequente extermínio dos judeus do velho continente.

 

Somado a essas particularidades, temos que entender também a influência de grupos religiosos judaicos que foram ganhando força dentro desta organização estatal – e que é muito diferente dos casos europeus, em que predomina a laicidade. Não acredito deter nenhum tipo de resposta ou solução para o conflito, mas creio que olhar a formação do Estado de Israel a partir do ponto de vista de uma formação nacional tardia, e com a particularidade das imigrações extraterritoriais, da exclusão dos palestinos, povo autóctone desse território1, da crescente influência religiosa e das guerras com os Estados árabes já estabelecidos, possam nos permitir olhar para o conflito de um ponto de vista mais crítico e menos viciado em disputas factuais.

 

Para terminar, volto à bela imagem levantada pelo filósofo alemão de origem judaica, Walter Benjamin, sobre escrever a história a contra-pelo, como ato de resistência frente a escritura dos vencedores. Tal proposta surge em um de seus textos mais conhecidos e enigmáticos, as famosas Teses sobre o conceito de história, escritas em meio à catástrofe que se anunciava com a expansão do nazifascismo pelo continente europeu, da qual o próprio Benjamin seria vítima.

 

Benjamin desconstrói o grande discurso moderno do progresso que domina o mundo ocidental a partir do Iluminismo para afirmar que a humanidade, tal como um trem em direção a um muro, aproximava-se inevitavelmente da tragédia. A história não seria uma sucessão de fatos em direção a um mundo melhor, afastando-se de antigas formas de dominação, mas uma sucessão de vitórias dos dominantes sobre os dominados. O freio de mão emergencial não foi acionado e a tragédia ocorreu, tanto no espectro político representado pela direita (nazifascismo) como pela esquerda (ascensão do stalinismo).

 

Nada mais entristecedor do que pensar que uma ideologia de construção nacional (o sionismo) que ganha ainda mais força após a maior tragédia produzida pelo nacionalismo – e sendo defendida pelas suas vítimas imediatamente depois do nazismo. Um movimento que ainda acredita na possibilidade de construção de uma nação como redenção.

 

Como afirmaria Wilhelm Reich a propósito do mundo do trabalho – e fazendo referências constantes ao nacional-socialismo – um dos aspectos mais desconcertantes da sociedade moderna é quando as pessoas lutam por suas próprias categorias de dominação. No caso, a nação: na origem dos maiores infortúnios do século XX, e que continuou (e continua) a ser reivindicada como solução política.

 

*Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP, faz seu mestrado em História Social da Arte pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

 

1 Embora sempre tenha havido uma minoria judaica que ali vivia em paz, antes da febre nacional

 

 

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Categorias: Mundo

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