O destino da Palestina – Entrevista com Noam Chomsky

Traduzido por Veridiana Domingos *

Esta entrevista, conduzida por Frank Barat, com o filósofo americano Noam Chomsky, debate temas sobre a situação do conflito árabe-israelense, sobretudo a situação de Gaza.

Realizada em 2007 e publicada em 2010 no livro Gaza in Crisis, a entrevista ainda se mostra muito atual e elucida problemas que ainda estão no cerne do conflito atual, a partir da faceta política de um dos grandes pensadores da atualidade. Algumas previsões de Chomsky se confirmaram no atual conflito, muitas de suas questões colocadas, ainda permanecem em aberto e seus dados e argumentos nos são úteis para compreender o que acontece hoje. Além disso, Chomsky comenta a ideia de um estado único, nos possibilitando ampliar a discussão que iniciamos com o texto “Políticas da Vizinhança: Israel e Palestina”, de Fabio Zuker.

 Qual é sua visão sobre a situação de Gaza hoje? É possível marcar o começo do fim da Autoridade Palestina?

Chromsky: Vamos começar com janeiro de 2006, quando os palestinos votaram em uma eleição cuidadosamente monitorada, marcada por ser livre de observadores internos, embora tenha havido esforços dos EUA de enveredar estas eleições em direção aos seu favorito: Mahmoud Abbas e seu partido, Fatah. No entanto, os palestino cometeram um grave crime, do ponto de vista dos padrões ocidentais. Eles votaram de “maneira errada”. Os EUA instanteneamente se compuseram com Israel para punir os palestinos por sua “má conduta”, com a Europa cambaleando logo atrás, como de costume. Os EUA apoia a democracia se, e apenas se, ela se conforma com seus interesses estratégico e políticos. A punição dos palestinos pelo crime de votar para o “lado errado” foi severa. Com suporte constante dos EUA, Israel aumentou sua violência contra Gaza, reteve fundos que eram legalmente obrigados a serem transmitidos para a Autoridade Palestina, estreitou sua saga e, em um ato de crueldade gratuita, cortou o forncimento de água para a árida Faixa de Gaza. Os ataques israelenses se tornaram cada vez mais cruéis depois da captura do soldado isralesense Gilad Shalit, em 25 de junho de 2006, que foi retratado pelo ocidente como um crime terrível. Puro cinismo. Um dia antes, Israel raptou dois civis em Gaza – um crime muito mais terrível do que a captura de um militar – e os transportou para Israel (violando as leis internacionais, embora seja uma rotina praticada por Israel), onde eles presumidamente se juntaram a cerca de mil prisioneiros sequestrados e mantidos por Israel sem mairores responsabilidades. Nada disso mereceu mais do que um bocejo do ocidente.

Foto tirada por Veridiana Domingos em Ramalah, Palestina, 2012.

Foto tirada por Veridiana Domingos em Ramalah, Palestina, 2012.

Não é necessário aqui entrar em detalhes sórdidos, mas os EUA e Israel se certificaram de que o Hamas não teria chance de governar. E, é claro, houve uma rejeição ao chamado do Hamas de cessar fogo a fim de permitir negociações nos termos de um consenso internacional para o estabelecimento de dois estados. Enquanto isso, Israel intensificou seus programas de anexação e desmembramento, emprisionamento e encolhimento das regiões palestinas da Cisjordânia, sempre com um suporte financeiro americano que é decisivo.

Há um padrão que opera os procedimentos para derrubar um governo indesejado: armar os militares para prepará-los para uma jogada militar. Os EUA e Israel adotaram seu plano convencional, armando e treinando o Fatah para ganhar pela força aquilo que haviam perdido nas urnas. Os EUA também encorajou Mahmoud Abbas a centralizar o poder em suas mãos. A estratégia falhou. Apesar da ajuda militar, as forças do Fatah foram derrotadas em um conflito bruto e vicioso. Contudo, os EUA e Israel rapidamente transformaram esse resultado como benéfico para eles. Agora eles têm o pretexto para estrangular o povo de Gaza, empregando políticas que Richerd Folk, importante acadêmica de política internacional, descreve como um prelúdio do genocídio que “deve lembrar ao mundo o famoso pós nazista jargão do ‘nunca mais novamente’”.

Os EUA e Israel podem prosseguir com o projeto, com suporte internacional, a não ser que o Hamas se submta às três condições impostas pela “comunidade internacional” – um termo técnico para se referir aos EUA e quem quer que o siga. Para os palestinos serem permitidos de  espiarem para fora dos muros do calabouço de Gaza, o Hamas deve: (1) reconhecer Israel, ou de uma maneira mais extrema, o direito de Israel existir, isto é, legitimar a expulsão de palestinos de suas casas; (2) renunciar à violência; (3) aceitar acordos passados, especiamente o Road Map[1].

A hipocrisia é deslumbrante. (1) Israel não reconhece a Palestina, na verdade está dedicando amplos esforços para garantir a não existência da Palestina, sempre com o auxílio e suporte dos EUA; (2) Israel não renuncia à violência, bem como os EUA também não; (3) Israel rejeita firmemente acordos passados. Os dois primeiros pontos são óbvios. O terceiro é correto, mas assustadoramente conhecido. Enquanto Israel formalmente aceitou o plano Road Map, ele anexou catorze reservas que evisceraram o plano. Apenas para citar um dos muitos exemplos, Israel exigiu que para que o processo de implementação do plano começasse e continuasse posteriormente, os palestinos deveriam garantir total silêncio e educação para a paz, o desmantelamento do Hamas e outras organizações e outras condições. E mesmo que os palestinos satisfizessem essa demanda inviável, o governo isralense proclamou que “o Road Map não afirmava que Israel teria que cessar a violência e o incitamento contra os palestinos”[2]. A não aceitação israelense do Road Map é inaceitável para a auto-imagem do ocidente, então ela é suprimida.

Para responder, finalmente, à questão, o fim da Autoridade Palestina não seria má ideia para os palestinos, já que os programas americanos-israelenses a tornariam nada mais do que um regime colaboracionista que supervisionaria seus projetos extremistas.

Você acha que há alguma condição sob a qual os EUA mudaria sua política de apoio incondicional a Israel?

Chomsky: Uma grande maioria dos americanos se opõe à política do governo americano e apóia um consenso internacional de estabelecimento de dois estados – em pesquisas recentes, se denomina “Plano Saudita” para se referir à posição da Liga Árabe, apoiada vituralmente pelo mundo inteiro, com exceção dos EUA e Israel. Além disso, uma grande maioria pensa que os EUA deve negar ajuda a qualquer das partes em conflito (Israel e palestinos) se eles não negociarem de boa fé em prol deste acordo. Deve ser adicionado a isso o fato de que algumas pessoas provavelmente conscientes de suas preferências deveriam cortar qualquer ajuda a Israel. Para isso, temos que entender que é necessário escapar das garras do poderoso sistema doutrinário, que trabalha para projetar uma imagem de benevolência dos Estados Unidos, de justiça israelense e do terror palestino, quaisquer que sejam os fatos.

Para responder à questão, a política americana poderia mudar se os EUA se tornasse uma sociedade democrática que realmente funciona, na qual um público desinformado tem uma voz significativa na formação da política. Essa é a tarefa de ativistas e organizadores, não apenas para essa questão que estamos debatendo aqui. Alguém pode pensar em outras condições possíveis que levariam a uma mudança na política americana, mas nenhuma é tão possível quanto esta.

 Para o velho/tardio Edward W. Said, a solução para o conflito seria um estado único onde todos os cidadãos (árabes, judeus, cristãos e etc.) teriam os mesmos direitos democráticos. Você acha que por conta da situação de Gaza e do constantes assentamentos que têm se espalhado, o pêndulo tem pendido para uma solução uniestatal como sendo o único ponto final possível para o conflito?

Chomsky: Dois pontos devem ser aqui clarificado. Primeiro, é crucial diferenciar uma solução uniestatal e uma soluação biestatal. Em geral, estados-nação têm sido impostos com substanciais violência e repressão por uma razão: eles enquadram forçosamente populações variadas e complexas a um só molde. Um dos mais saudáveis desenvolvimentos na Europa atual é o renascimento de graus de autonomia e identidade cultural regionais, refletindo, de alguma maneira, mais fielmente a natureza dessas populações. No caso israelense-palestino, uma solução uniestatal surge apenas a partir de um modelo americano: com a exterminação ou expulsào da população nativa. Uma aproximação sensível deve advogar em prol de uma solução binacional, reconhecendo que o território inclui duas sociedades distintas.

O segundo ponto é que Edward Said – um grande e velho amigo – foi um dos primeiros e maiores apoiadores da solução bi estatal. Nos anos 1990, ele sentiu que a oportunidade havia sido perdida e então propôs, sem muitas especificações, um estado unitário, o qual eu tenho certeza que significava, na verdade, um estado binacional. No caso de uma solução de estado único, entretanto binacional, a única proposta que eu conheço passa por uma série de etapas: primeiro, o estabelecimento de dois estados nos termos de um consenso internacional (do qual os EUA e Israel sempre buscaram se prevenir), deveria se seguir de um movimento rumo a uma federação binacional para depois chegar-se a uma integração, que talvez alcançaria um estado democrático  binacional. Por conta de alguns interesses, quando a proposta de uma federação binacional, abrindo caminho para uma integração mais próxima, foi viável (entre 1967 e meados de 1970), houve grande histeria. Hoje, que a proposta é completamente inviável, ela é tratada com algum respeito pela mídia mainstream (New York Times, New York Review of Books etc.). A razão para isso, suspeito eu, que seja o fato de que o estabelecimento de um único estado pareça um presente para os direitos jingoístas, que poderia se lamentar por “eles estarem tentando nos destruir, então nós temos que os destruir para nos defender”. Mas a defesa de um estado binacional me parece tão apropriado como sempre foi. Essa tem sido minha opinião imutável desde os anos 1940.

Olhando para o futuro, o que você consideraria como o melhor e o pior cenário para a situação das fronteiras e o controle da ocupação que vem sendo feita na Palestina?

Chomsky: O pior cenário seria a destruição da Palestina. O melhor cenário, a curto prazo, seria o estabelecimento de dois estados nos termos do consenso internacional. Isso não é impossível e nem inviável. Isso é apoiado por todo o mundo, incluindo a maioria da população americana. Isso se tornou mais viável durante o último mês da presidência de Clinton. Os EUA emprestaram seu apoio às negociações de Taba, Egito (em janeiro de 2001), chegando muito perto de um acordo nos termos do consenso internacional, antes deles serem prematuramente chamados pelo primeiro ministro Ehud Barack. Na sua conferência final, as negociações entre eles expressaram alguma esperança e se eles tivessem se permitido a continuar um trabalho conjunto, o acordo teria sido alcançado. Apesar dos horrores que presenciamos nos anos posteriores, a possibilidade ainda permanece.

Você concorda com Edward Said quando ele diz que “o aspecto mais desmoralizante do conflito zionista-palestino é a quase total oposição entre os pontos de vista predominantes entre israelenses e palestinos…Não faria sentido que um grupo universalmente respeitado de historiadores e intelectuais, composto igualmente de palestinos e israelenses, pudesse, em uma série de encontros, tentar chegar a um acordo sobre  a verdade dos conflitos atuais… para que eles pudessem chegar a concordar acerca de alguns fatos… quem tomou algo de quem, quem fez o que para quem… algo como um Comitê da Justiça Política e da Verdade Histórica”?

Chomsky: Quem seriam os “historiadores e intelectuais respeitados?” Edward tem muito mais fé na importância e na integridade dos “intelectuais respeitados” do que eu. Além disso, eu não penso que há muito disputa acerca dos fatos escancarados, exceto para mentirosos marginais. Disputas devem ser feitas com seleção e interpretação.

 *socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda no departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisa nas áreas de Teoria Social, Memória Coletiva e Violência.

[1] Road Map era um plano para resolver o conflito israelense-palestino proposto pelo Quarteto para o Oriente Médio: os Estados Unidos, a União Europeia, a Rússia e as Nações Unidas. Os princípios do plano, originalmente elaborado por pela diretor americano de Serviços Estrangeiros, Donald Blome, foram delineadas pela primeira vez pelo presidente dos EUA, George W. Bush, em um discurso em 24 de junho de 2002, no qual ele pediu um Estado palestino independente ao lado com Israel. A versão preliminar do governo Bush foi publicada já em 14 de novembro de 2002 o texto final foi lançado em 30 de abril de 2003, mas  o processo chegou a um impasse no início da fase I e o plano nunca foi implementado.

[2] “Israel’s Road Map Reservations”, Haaretz, May 27, 2003, www.haaretz.com/hasen/pages/ShArt.jhtml?itemNo=297230

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um comentário em “O destino da Palestina – Entrevista com Noam Chomsky”

  1. Yara
    17/08 às 21:28 #

    Muito oportuna a reedição desta entrevista: continua atual em suas interpretações e conclusões, embora as posições do saudoso Edward Said, talvez mais românticas em aparência, também devam ser consideradas com isenção, por sua humanidade e idealismo intensos, como foi a inteira vida do grande intelectual palestino. Enfim, quanto à situação no Oriente Médio, impede nossa sensibilidade de falar em uma “comédia de erros”, embora o grotesco da situação e dos defensores incondicionais da política de Israel em relação aos territórios ocupados só nos faça lamentar e antever dias cada vez mais difíceis para a população de Gaza.
    Com a devida licença, sugiro um pouco mais de atenção à correção gramatical dos textos apresentados, para que a forma acompanhe em pé de igualdade a excelência de conteúdo dos mesmos.

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