Agora em tom de afirmação: Israel, um Estado violento por essência!

Por Veridiana Domingos *

Em “Israel, um Estado violento por essência?”, texto publicado no Gusmão no início deste mês, o argumento central defendido por Karina Stange Caladrin busca demonstrar que os objetivos e pretensões presentes no momento originário de formação do Estado de Israel não eram vinculados à violência e ao militarismo. Pois bem, este é o argumento trazido pela historiografia oficial; todavia, como já apontava o pensador alemão e judeu Walter Benjamin na iminência da Segunda Guerra Mundial, a história oficial, inclusive dentro da própria academia, termina sempre por ser a “história dos vencedores”. É justamente na parte da história que diz respeito à formação do Estado de Israel, que pode ser datada entre novembro de 1947 (votação pela Assembleia Geral da ONU da partilha da Palestina) e maio de 1948 (proclamação do Estado de Israel), que repousa uma construção histórica dos vencedores, omitindo certos fatos e salientando outros. Nesses seis meses, aconteceu o que os arautos ocidentais chamam de ”guerra de independência” – ideia que também é abordada no texto que estamos aqui nos contrapondo.

Foto tirada pela autora, em 2012, no Checkpoint próximo à Ramalah,na Palestina.

Foto tirada pela autora, em 2012, no Checkpoint próximo à Ramalah,na Palestina.

Na década de 1930, o Haganá, que era uma das forças militares de Yishuv (comunidades judaicas que surgiram na Palestina antes de 1948, fruto da imigração sionista), havia sido formado, treinado e fortemente armado, contando com mais de cem mil homens que já haviam exterminado a Revolta Árabe de 1936 (que se deu contra o domínio colonial britânico e a imigração judaica em massa).  À época, o assentamento na Palestina dos judeus imigrantes era cuidadosamente supervisionado pelo Haganá a fim de escolher as terras com melhores localizações estratégicas (à beira de estradas e recursos hídricos), para garantir melhor estrutura ofensiva e defensiva.

É então com esta perspectiva que o Haganá (e não apenas ele, mas outros grupos armados, como Lehi e Irgun) vai atuar nesses seis meses fundantes do Estado de Israel, também conhecidos como meses da “Guerra da Independência”. Muito me indigna o nome dado ao período em que os judeus ali estabelecidos, amparados pelo braço forte da Haganá, massacraram, expulsaram e dominaram o povo árabe ali estabelecido. Independência do quê? De quem? Afinal, quem sofria com a dominação otomana há décadas e posteriormente com a dominação inglesa eram os palestinos da região e não os judeus recém-chegados a partir do plano imigratório sionista.

Se em 1919 habitavam na Palestina cerca de 65.000 judeus (que representavam 10% da população total), em 1939, fruto da imigração sionista em massa, já havia 446.000 judeus (quase 25% da população local)[1]. A tal “Guerra de Independência” tem outro nome: guerra civil árabe-israelense e não teve como consequência a independência de Israel como gosta de contar a historiografia oficial. A consequência da guerra civil árabe-israelense teve como consequência a Nakba (catástrofe, em árabe), que resultou na expulsão de 750 mil palestinos de suas casas. É a Nakba o pontapé inicial do conflito que presenciamos hoje. É a Nakba a marca forte da violência propagada pelos judeus da região contra os palestinos. Para isso, foram necessários vários ataques e massacres das forças armadas judias contra o povo palestino.

Os massacres que ocorreram nesses seis meses tiveram como pano de fundo um plano que já vinha sendo delineado desde o começo de 1945 pelos dirigentes do Haganá (Ben Gurion, Galili, Yadin, Allon, Dotrovski, Lashov e Dayan). O chamado plano Dalet teve início em março de 1948 e se desenvolveu fora do território concedido ao Estado judeu pela resolução da ONU. A primeira ofensiva, denominada de “Operação Nachson” tinha por finalidade abrir um “corredor” entre Tel Aviv e Jerusalém e tomar a principal porção de terra atribuída pela ONU aos palestinos. Ben Gurion, líder do Haganá, que é tomado, muitas vezes, (inclusive no texto ao qual estamos nos contrapondo) como pacifista, é bastante explícito quanto às ações militares contra a Palestina. Em seu livro Rebirth and Destiny of Israel[2], ele diz: “tomemos a decisão de não nos contentarmos com uma tática defensiva, mas, no momento certo, atacar em todo o front e não só no interior do Estado de Israel ou nas fronteiras da Palestina, mas de procurar o inimigo e esmagá-lo onde quer que ele possa estar”

E foi assim que as forças militares judias ocuparam, a partir de expulsões violentas, grande parte do território que não lhe havia sido designado pela ONU. Ataques noturnos  surpresas, como aquele contra a aldeia de Deir Yassin, possibilitaram massacres em massa do povo palestino. Houve praticamente uma limpeza étnica da região (e por que não dizer genocídio?). Essa expulsão de um povo anterior da terra prometida era um sonho que habitava o imaginário sionista há muito tempo. E foi na esteira do genocídio nazista e da resolução da ONU que este sonho pôde ser realizado. Finalmente a velha frase poderia se fazer valer: “um país sem povo para um povo sem país”, embora os palestinos também sejam um povo. E hoje, um povo sem país. Grandes contradições da história.

*socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP e desenvolve pesquisa nas áreas de Teoria Social, Memória Coletiva e Violência.

[1] http://www.marxists.org.

[2] GURION, Ben. Rebirth and destiny of Israel. Nova York: Philosophical Library, 1954, p. 239

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