O fator grilo falante nas eleições 2014

Por Caetano Patta*

O grilo falante nas eleições 2014

O grilo falante nas eleições 2014

A eleição presidencial de 2014 já tem suas três grandes candidaturas: Dilma Rousseff (PT), Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB). Desta lista tríplice, o eleitorado escolherá quem presidirá o Brasil pelos próximos quatro anos. As três candidaturas pretendem representar e representam, respectivamente, uma esquerda, um centro e uma direita nas urnas.

Dilma representa não a grande opção à esquerda, mas a opção à esquerda entre as grandes. A atual presidenta defende uma política econômica que contraria o receituário ortodoxo. Isto significa não apenas a defesa do crescimento econômico induzido por um Estado forte e dentro de certas balizas, como a valorização do salário, mas também a garantia de manutenção e promessa de ampliação de ações sociais que estão longe de ser perfumaria no Brasil. Além disso, a Política Externa Independente, as relações históricas com organizações populares e políticas de direitos humanos e/ou voltadas para setores historicamente marginalizados da vida social e política brasileira completam o quadro que a presidenta levará à arena eleitoral.

Aécio vem prometendo “restaurar a economia” com base na receita implementada à risca por Fernando Henrique Cardoso. A bíblia tem seus demônios. O conjunto de promessas, dentre as quais o rígido controle da inflação, carrega em si “medidas impopulares”, onde pode-se ler redução do emprego e do salário, por exemplo. Somam-se a isso a carapuça de ordem policialesca que o PSDB veste melhor do que qualquer outro no Brasil atual. No campo e na cidade, do MST ao MTST, o PSDB chama para si a velha tradição brasileira da questão social como “caso de polícia”. Se aqui isto é defeito, na urna é virtude para um número considerável de “cidadãos de bem”. Ainda, no mapa-mundi de Aécio, América Latina, África e Ásia diminuem e Estados Unidos e União Europeia se agigantam.

Eduardo Campos e Marina Silva poderiam projetar o centro de dois diferentes modos. Um aparentemente mais seguro e um mais ousado. O centro seguro é o que diz ter aprendido com o passado: propõe fazer tudo de bom e eliminar tudo de ruim que já foi feito. Em outras palavras, numa eleição dominada por dois partidos que já governaram, propõe conciliar. O centro ousado poderia apostar em um debate que, embora eventualmente enfadonho pro eleitorado, plantaria curiosidades. Seria a já não tão nova novidade do “não existe mais esquerda e direita, existe o adiante”. Algo difícil de explicar, mas que deixa um campo aberto para experimentações e temas importantes que, mais do que nunca, estão na agenda esperando respostas, como o meio ambiente. Desta última opção, poderia sair um debate com propostas ousadas de participação política e economia criativa. Mas a candidatura de Eduardo Campos escolheu a primeira: quer ser o primeiro mandato de FHC e o segundo de Lula. Campos é como uma criança na festa que quer pular corda em meio a um disputado cabo de guerra. A recusa à ousadia, a busca por financiadores e o favoritismo de Dilma têm feito Campos se acotovelar com Aécio Neves à direita do seu vídeo.

Obviamente não há pretensão aqui de fazer um detalhado levantamento e análise dos programas dos três candidatos com maior influência. Trata-se apenas de um mapa de opções já realizadas e levadas a público; são as cores que cada candidato escolheu para pintar sua relação com o eleitorado nos próximos meses. Inclusive, vale dizer, o que aí está não exclui contradições que aparecerão em debates, propostas e alianças. A maior parte do que for apresentado pelas três grandes candidaturas respeitará os limites do pragmatismo, ou seja, dizendo o que se quer ouvir e adaptando o que se quer dizer.

A eleição presidencial de 2014 tem, no entanto, um outro andar, composto por Luciana Genro (PSOL), Eduardo Jorge (PV) e Pastor Evaraldo (PSC). Mais uma vez, podemos falar, grosso modo, em  esquerda, centro e direita. Comparando com as três primeiras, estas candidaturas perdem em pragmatismo e chances e ganham em radicalidade. Enquanto os “do andar de cima” entram na eleição buscando votos em todas as longitudes, estes entrarão para dar tudo que os seus eleitorados mais convictos querem ouvir. Essas três candidaturas menores colherão as pautas que serão largadas pelo caminho, na medida em que os constrangimentos da corrida até o primeiro turno forem golpeando Dilma, Campos e Aécio, chamando-os a falar para um eleitorado mais amplo e flexibilizar sua fidelidade com setores específicos. As grandes candidaturas falarão muito “veja bem”, enquanto Luciana Genro estiver defendendo a auditoria da dívida, Eduardo Jorge o fim do Senado e o Pastor Everaldo a família “como Deus a criou”, de acordo com o fundamentalismo que fundamenta sua candidatura, rechaçado por amplos setores da sociedade brasileira quando Marco Feliciano ocupou a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Engana a si mesmo ou aos outros quem argumenta que as eleições estão completamente abertas e que uma das três candidaturas menores pode sair vencedora ao fim do pleito. Excetuam-se os candidatos, que têm liberdade poética para falar que estarão no segundo turno, quando perguntados sobre quem apoiarão no segundo turno. Ninguém é obrigado a ser pragmático e, em alguns casos, não sê-lo é uma virtude; mas reconhecer a realidade é compulsório. Há uma disputa real – condicionada por estruturas políticas e econômicas que não podem ser ignoradas -, entre três candidaturas diferentes e que fariam governos diferentes. Por outro lado, está redondamente enganado também quem julga as candidaturas menores desimportantes.

Este pragmatismo de que estamos falando transforma, em certos momentos, os discursos dos grandes candidatos em água: sem cor, sem cheiro e sem forma. Nesses momentos, essas três candidaturas que estarão representadas nos debates de TV e nos meios de comunicação em geral, cumprirão um papel fundamental, de forma a impedir que pautas importantes para a população brasileira sejam sumariamente eliminadas do debate. Embora inúmeros parlamentares do PT o façam, a coordenação da campanha petista pode decidir, por razões pragmáticas, não defender a descriminalização da maconha. Mas Eduardo Jorge e Luciano Genro defenderão e o ganho para o debate político é imenso, uma vez que essa é uma questão com a qual o país terá de se ver no próximo período.

Sob a pressão de ser “presidente de todos os brasileiros”, as candidaturas competitivas entram em um jogo de concessões, que se remete às contradições presentes na sociedade brasileira. Vale pontuar que as condições de disputa entre os setores sociais que visam emplacar suas pautas e perspectivas no debate eleitoral são desiguais. Levadas a abraçar o mundo com as pernas neste primeiro turno, andar com más companhias e dizer algumas meias verdades, cada uma das três grandes candidaturas terá sua pequena, e por vezes inconveniente, consciência – um grilo falante. Esta constante provocação programática será positiva para a política, reforçando linhas importantes das polêmicas do debate público que a dinâmica eleitoral tantas vezes apaga ou confunde.

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*Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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Categorias: Opinião, Política, Sociedade

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