Políticas da vizinhança: Israel e Palestina

Por Fábio Zuker*

O ano de 2014 tinha tudo para ser único na história dos conflitos mundiais, não fosse o conflito israelo-palestino. Apenas cem anos após o início da Primeira Guerra Mundial, e cerca de setenta após o término da Segunda, França e Alemanha celebram juntas o ano da amizade franco-alemã. Dois países que confundem as suas histórias nacionais com a história militar, celebram uma convivência pacífica e sem quaisquer tipos de incidentes armados ou revanchismos – fato impensável há setenta anos, diante daquilo que alguns historiadores defendem como sendo uma única guerra que se inicia com as guerras franco-prussianas e se estende até o final da Segunda Guerra Mundial.

Neste contexto de rememorar a paz, no entanto, o conflito entre Israel e Palestina chama atenção por sua brutalidade e assimetria.

Mulheres palestinas e israelenses driblam fiscalizações para irem à praia

Mulheres palestinas e israelenses driblam fiscalizações para irem à praia

Tenho certeza de que meus comentários não agradarão a todos. Na realidade, tenho a impressão de que eles não agradarão a ninguém. A ideia que defendo como única solução viável para o conflito, a necessidade de se pensar para além de Estados nacionais, traz algo de incômodo para ambos os lados. Aqueles que acreditam no sionismo me acusarão de estar defendendo uma sentença de morte contra mim mesmo, uma vez que parte da mitologia fundacional do Estado de Israel se baseia no pressuposto de que todos os judeus no mundo estão em perigo e apenas um Estado nacional poderá salvaguardar a sua proteção – pressuposto esse que era amplamente defendido após o extermínio dos judeus da Europa, mas que merece ser repensado atualmente. Já aqueles que criticam Israel de maneira cega, muitas vezes ignorando a origem da imigração judaica no genocídio perpetrado pelos europeus e misturando cultura judaica com a nação israelense, me acusarão de praticar uma crítica não radical o bastante contra o projeto sionista e o lobby judaico mundial – este último tema, para mim, resquício de um antissemitismo medieval que foi reavivado na sua versão moderna pelo nazismo.

Meu interesse vai além de discutir os recentes acontecimentos políticos e militares, a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza e os foguetes lançados pelo Hamas contra o território israelense. Quero refletir sobre uma lógica de agressividade que subsiste como pressuposto ao conflito, e que pode nos ajudar a entender um pouco dos últimos acontecimentos: os usos políticos que são feitos de diferenças culturais por Estados nacionais, transformando vizinhos em diferentes, e daí na encarnação do mal, a ser eliminado.

Não posso deixar de condenar a ação militar de Israel em Gaza. Trata-se de um país cujo governo perdeu absolutamente qualquer senso de consideração pelo outro, que é imediatamente reconhecido como ameaça. Vale lembrar que estou criticando um Estado nação, uma abstração política, e não um povo: não se trata de uma crítica aos judeus nem mesmo à sociedade israelense como um todo (que é repleta de tensões como todas as outras, e plena de movimentos contestatórios à política oficial de seu governo). Israel converteu-se em um Estado colonial, que pratica uma guerra sangrenta contra um pequeno grupo terrorista, e infringe uma punição coletiva a toda uma população desarmada – vergonhosamente ignorando qualquer apelo internacional contrário a sua prática criminosa.

Sou reticente, no entanto, em aproximar sionismo e nazismo: o atual regime israelense tem muito mais pontos em comum com o apartheid sul-africano do que com seu algoz histórico germânico. Nazismo é, se seguirmos as reflexões de filósofos alemães como Hannah Arendt, Adorno e Horkheimer, uma organização estatal voltada ao extermínio de uma população específica. A lógica colonial, por sua vez, necessita do outro, embora o subjulgue. No atual panorama político, como tento argumentar abaixo, as ameaças do Hamas em Gaza são utilizadas para justificar as políticas de recrudescimento do governo israelense, bem como a própria necessidade de existência de um Estado judaico, diante de um mundo perigoso para os judeus. A colonização na Cisjordânia, por sua vez, tem grandes interesses econômicos e recebe o apoio de grupos religiosos judaicos dentro e fora de Israel. Uma peculiaridade desse tipo de colonialismo, e talvez esteja aí a aproximação com o apartheid, é que o outro (no caso, o palestino) vive em determinadas zonas do território e tem sido paulatinamente substituído como trabalhador de segunda mão por asiáticos que veem com contratos temporários.

O que parece ser mais desconcertante é que existam setores tanto da sociedade israelense quanto da palestina que encarnam o outro como o diferente a ser exterminado. E isso para mim é o que deve ser combatido: palestinos não são terroristas e israelenses não são matadores de crianças. Toda guerra é condenável, não importa qual. Os israelenses não matam mais crianças do que os americanos no Iraque ou as tropas de Bashar Al Assad contra a população síria. Os terroristas do Hamas não são mais fundamentalistas do que judeus ortodoxos que clamam pelo extermínio dos palestinos e cuja influência política tem crescido assustadoramente.

Existe, por trás de toda a história do conflito israelo-palestino, um grande problema de utilização política das diferenças culturais: o momento em que o próximo passa a ser considerado como diferente, justificando a construção de Estados nacionais exclusivos para um determinado povo, e daí estamos a um passo de ver o diferente enquanto ameaça, e logo como a encarnação do mal. Trata-se de um problema, é claro, comum a todas as formações nacionais, mas que parece ter algumas singularidades na região, pois de diferentes maneiras se correlacionam tais Estados nacionais (o criá-los), com certas fés religiosas. Hoje parece mais do que claro que o Estado de Israel, o projeto sionista, que era um movimento político com forte influência de ideias socialistas, foi capitaneado por grupos religiosos. Movimento semelhante pode ser observado no crescimento do Hamas, tomando parte do poder que antes se encontrava majoritariamente com movimentos políticos laicos pela libertação da Palestina.

Tal ódio pelo outro, pelo diferente, é o que acaba colocando no mesmo nível os terroristas do Hamas e a direita israelense que domina o atual cenário político. Ambos os grupos compartilham um desinteresse crônico pela paz, ou seja, a guerra lhes é útil. O atual governo de Israel, com seu Iron Dome1e com o bloqueio a Gaza, tornou-se praticamente intocável pela guerra: os custos humanos de um conflito foram diminuídos enormemente (claro, desde que o exército israelense não invada a Palestina por terra, o que aumenta o número de baixas em seu exército). O Hamas, por sua vez, sabe que vai ganhar mais e mais força com os ataques israelenses. Seus interesses, enquanto grupo jihadista islâmico, parecem estar muito mais voltados para questões religiosas e de expansão de seu fanatismo, que para a criação de um Estado palestino – embora seja, majoritariamente, um movimento de resistência à ocupação israelense.

Ouso levantar uma hipótese, ignorando as negociações entre Fatah e Hamas: Mahmoud Abbas, líder do Fatah e da Autoridade Palestina, estava prestes a levar à votação na ONU um pedido de reconhecimento do Estado Palestino. Os principais opositores a esse ato seriam, obviamente, o Hamas, enquanto facção política concorrente ao Fatah, e o Estado de Israel, que se veria obrigado a deixar as lucrativas colônias da Cisjordânia, onde vivem grupos judaicos religiosos com importantes influências no plano político nacional.

Não sei qual seria a solução para o conflito, mas sei que ofensivas militares e resoluções macropolíticas não o são. Sei também que dificilmente se pode acreditar em uma resolução feita no plano macromilitar. Tanto o é que, como sugeri acima, Hamas e Israel parecem compartilhar o desejo de que o Fatah não consiga levar à votação na ONU uma resolução favorável à criação de um Estado palestino. Para o Hamas, embora as recentes negociações entre os dois grupos palestinos possam indicar o contrário, a proclamação de um Estado palestino laico seria incongruente com seus anseios. As possibilidades de sair do conflito encontram-se muito mais no plano da educação, dos questionamentos e da cultura do que no plano macropolítico ou militar.

Arrisco a dar um palpite: enquanto o outro seguir sendo o diferente, nenhuma solução política será efetiva. Questionar os usos políticos que são feitos de diferenças culturais, pensar novos formatos de educação voltados ao questionamento das histórias e narrativas oficiais, repensar o pressuposto básico que identifica uma nação com um povo, talvez sejam os únicos modos de garantir, a longo prazo, uma possibilidade de convivência. E o que seria mais interessante, justamente, desmantelando a febre nacionalista do século XIX que permanece na região, desamarrando o nó que articula Estado, nação e povos/cultura/língua. Um Estado único, sob o qual poderiam viver judeus e palestinos, não deve ser visto como um sonho, mas como um objetivo a ser alcançado.

As críticas a esse pensamento que tento defender são claras: “isso são utopias!”; “é preciso atentar para o fato de Israel ser um Estado e os palestinos não o terem!”.

França e Alemanha reinventaram a sua maneira de ver o próximo e são duas nações soberanas que vivem em paz. O que está colocado para o Oriente Médio é mais complexo, e talvez por isso mais desafiador: o exercício de imaginação política necessário para se sair do conflito demanda um questionamento total da ideia de Estado nação. Israel e Palestina nunca encontrarão a paz enquanto continuarem a reivindicar a categoria da nação – e não qualquer categoria de nação, mas aquela que pressupõe a aniquilação do outro. Foi esta a lógica nacional que uma vez levou ao extermínio dos judeus da Europa, e que hoje subsiste como base de um projeto neocolonial perpetrador de um massacre de Israel contra os palestinos.

Um Estado único, não nacional nem binacional, mas que questione a própria relação entre nação e Estado parece ser um único caminho possível para uma saída ao conflito.

1 O Iron Dome é um sistema antimíssil de alta tecnologia desenvolvido pelo exército israelense. Capaz de interceptar os mísseis enviados pelo Hamas, a máquina calcula o local onde o míssel vai cair. Caso seja um local desabitado, o sistema não destrói o míssil. Caso seja uma zona povoada, o míssil é destruído.

*Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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2 Comentários em “Políticas da vizinhança: Israel e Palestina”

  1. 20/08 às 09:56 #

    O que os palestinos odeiam é a Ocupação, não os judeus como tais, nem o diferente. Isso é uma lenda urbana. É bom passar um tempo na Palestina para entender os sentimentos desse povo nobre e sofrido desde antes de 1948.

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  1. Políticas da vizinhança: Israel e Palestina , Fórum 18 - 19/08

    […] O ano de 2014 tinha tudo para ser único na história dos conflitos mundiais, não fosse o conflito israelo-palestino. Apenas cem anos após o início da Primeira Guerra Mundial, e cerca de setenta após o término da Segunda, França e Alemanha celebram juntas o ano da amizade franco-alemã. Dois países que confundem as suas histórias nacionais com a história militar, celebram uma convivência pacífica e sem quaisquer tipos de incidentes armados ou revanchismos – fato impensável há setenta anos, diante daquilo que alguns historiadores defendem como sendo uma única guerra que se inicia com as guerras franco-prussianas e se estende até o final da Segunda Guerra Mundial. Neste contexto de rememorar a paz, no entanto, o conflito entre Israel e Palestina chama atenção por sua brutalidade e assimetria. Tenho certeza de que meus comentários não agradarão a todos. Na realidade, tenho a impressão de que eles não agradarão a ninguém. A ideia que defendo como única solução viável para o conflito, a necessidade de se pensar para além de Estados nacionais, traz algo de incômodo para ambos os lados. Aqueles que acreditam no sionismo me acusarão de estar defendendo uma sentença de morte contra mim mesmo, uma vez que parte da mitologia fundacional do Estado de Israel se baseia no pressuposto de que todos os judeus no mundo estão em perigo e apenas um Estado nacional poderá salvaguardar a sua proteção – pressuposto esse que era amplamente defendido após o extermínio dos judeus da Europa, mas que merece ser repensado atualmente. Já aqueles que criticam Israel de maneira cega, muitas vezes ignorando a origem da imigração judaica no genocídio perpetrado pelos europeus e misturando cultura judaica com a nação israelense, me acusarão de praticar uma crítica não radical o bastante contra o projeto sionista e o lobby judaico mundial – este último tema, para mim, resquício de um antissemitismo medieval que foi reavivado na sua versão moderna pelo nazismo. Meu interesse vai além de discutir os recentes acontecimentos políticos e militares, a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza e os foguetes lançados pelo Hamas contra o território israelense. Quero refletir sobre uma lógica de agressividade que subsiste como pressuposto ao conflito, e que pode nos ajudar a entender um pouco dos últimos acontecimentos: os usos políticos que são feitos de diferenças culturais por Estados nacionais, transformando vizinhos em diferentes, e daí na encarnação do mal, a ser eliminado. _________________________ Leia o texto na íntegra no site Gusmão, onde o texto foi originalmente publicado. […]

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