O ano em que o extremismo venceu

* Por Luciana Saab

  A situação atual do conflito entre Israel e Palestina torna necessária uma análise sobre mudanças que, lentamente, afastam os dois lados envolvidos do curso das negociações pacíficas e, com isso, as possibilidades de um desfecho positivo para a questão. A última “defensiva ofensiva” promovida por Israel desde junho deste ano sobre Gaza gerou grande mobilização internacional a favor tanto da população civil palestina como do direito do Estado de Israel em se defender dos foguetes lançados à exaustão pelo Hamas. Tal mobilização mostrou-se importante, pois revelou um profundo desconhecimento sobre as motivações políticas por trás do conflito, que já dura mais de sessenta anos. Trouxe também à tona a ausência de um debate lúcido sobre as reivindicações de cada parte e, acima de tudo, sobre a natureza humana daqueles envolvidos.

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   A ação do exército israelense chama a atenção, assim como feito nos ataques anteriores em 2008 (“Operação Chumbo Fundido”) e 2012 (“Operação Pilar Defensivo”), pela desproporcionalidade da força aplicada para conter e desestruturar a rede de operações do Hamas, partido político com braço armado, que se dedica a atacar Israel com o lançamento de foguetes cada vez mais modernos e de maior alcance. O argumento israelense de que é necessário se defender com toda força de um inimigo terrorista que ameaça o Estado diariamente perde força diante do massacre promovido em território minúsculo, sitiado e densamente povoado, de onde não há como fugir. Enquanto isso, as ações do Hamas pouco colaboram para a melhoria nas condições de vida do povo palestino e dificultam qualquer negociação para se chegar a um entendimento entre as partes ao pedir a destruição total do inimigo.

   Neste ano, a chamada “Operação Margem Protetora” causou grande repercussão nas redes sociais e evidenciou posicionamentos radicalmente opostos e mal elaborados de internautas indignados e pouco instruídos. Surgiram também textos de intelectuais e jornalistas bem conceituados mais confusos do que as versões amadoras dos raivosos comentaristas de internet. De modo geral, a imagem passada do conflito é superficial e maniqueísta, como uma longa luta do bem contra o mal, na qual palestinos e israelenses alternam os papeis de vilões e heróis. Relatos e imagens chocantes, como de crianças vitimadas por bombas ou israelenses moradores próximos de Gaza aplaudindo os bombardeios como em uma sessão de cinema a céu aberto, chocaram a opinião pública. Com tantas fontes e pontos de vista divergentes disponíveis nas redes, a tarefa de decidir quem está certo ou errado depende do que se está disposto a aceitar como verdade. E, ultimamente, as versões mais aceitas são aquelas simplistas e irracionais, que generalizam povos, governos e classificam populações inteiras, sem o mínimo comprometimento com o passado histórico da questão e sem o menor bom senso. Todos os palestinos são terroristas; todos os israelenses são assassinos. A terra sempre pertenceu aos judeus; a terra sempre pertenceu aos árabes. Israel apenas se defende contra o terror; Israel quer exterminar os palestinos. O resultado disso é uma verdadeira guerra virtual de propaganda entre ativistas e militantes que mais ajuda a perpetuar preconceito e desinformação sobre um conflito político demasiadamente complexo para ser discutido via redes sociais. Estereótipos são facilmente absorvidos, porém precisam ser quebrados para se compreender plenamente a questão.

   É preciso atentar a alguns fatos. A justificativa utilizada por Israel para iniciar nova ofensiva sobre Gaza foi a do sequestro de três jovens colonos na Cisjordânia, cuja autoria atribuiu imediatamente ao Hamas, sem preocupar-se em apresentar provas. O resultado afetou não apenas Gaza, de onde o grupo possui o controle político, mas também o território da Cisjordânia, onde cerca de sete palestinos foram mortos e centenas de casas invadidas e reviradas em uma série de desastrosas incursões promovidas pelo exército israelense. Nesse último processo, ativistas palestinos libertos como condições de negociações anteriores com o Hamas foram novamente encarcerados sem acusações formais. O problema com esse argumento é que recentemente foi revelado o conhecimento do governo israelense sobre a morte dos colonos sequestrados antes mesmo dessas “operações de busca”, fato que teria sido silenciado pelo primeiro-ministro Netanyahu para realizar as novas intervenções em solo palestino.

   Há, ainda, outro fato de extrema relevância pouquíssimo lembrado pela mídia e comentaristas de plantão. Em junho deste ano, Hamas e Fatah, partidos políticos rivais e até então inimigos, assinaram um acordo para o estabelecimento de um governo de união, medida extremamente necessária e positiva para a reestruturação das partes palestinas e para representar a totalidade do povo palestino. Israel, por sua vez, considerou a reunião uma afronta e se negou a negociar com o possível novo governo, alegando suspeita sobre o grupo Hamas. Com isso, perdeu a oportunidade de abrir diálogo com o partido que se predispôs a atuar somente no campo político, deixando de lado as armas. Considerando esse acontecimento, imediatamente anterior ao sequestro dos colonos, os ataques contra o Hamas no mês seguinte podem levantar suspeita sobre a real intenção de Israel de se defender ou apenas desestabilizar novamente as lideranças palestinas, reforçando sua divisão.

   É importante, ainda, ressaltar que o conflito entre o Hamas e Israel se insere num contexto político e histórico muito maior. O que está havendo na Cisjordânia? O número de assentamentos israelenses cresce vertiginosamente, e já alcançou o ponto em que a continuidade territorial de um suposto Estado palestino já estaria totalmente comprometida. A população continua a ser submetida a restrições de movimentação dentro do território, a ter casas demolidas e permissão de construção negadas, impossibilitando sua permanência. Há relatos de casos de agressões de colonos contra moradores de vilas palestinas próximas, sob os olhos cerrados dos soldados enviados para proteger os agressores. A novidade recente é a repressão imposta pela própria Autoridade Nacional Palestina (ANP) sobre os protestos dos palestinos da Cisjordânia contra a violência em Gaza, facilitando o trabalho dos israelenses em controlar essa população.

   Diante da facilidade de convencimento da população com a escalada de violência em detrimento da busca por negociações, as lideranças envolvidas se fortalecem. O Hamas, considerado terrorista por Israel, Estados Unidos e União Europeia, ganha prestígio moral a cada ataque que Israel promove sobre seu território. Primeiramente, porque suas ofensivas são cada vez mais perigosas e desestabilizam Israel: a suspensão de voos de inúmeras companhias aéreas para Tel Aviv após a queda de um míssil perto do aeroporto internacional foi sua vitória mais recente. Em segundo lugar, porque é visto por alguns palestinos como a única fonte de resistência contra a política de ocupação israelense, diante da passividade e desmoralização da autoridade nacional, que aceita a negociação pacífica e atualmente não oferece nenhuma oposição efetiva contra Israel, dado o fracasso das conversas de paz. Por último, a virulência com que Israel ataca o território palestino levanta questionamentos sobre até onde se estende seu direito de retaliar os foguetes do Hamas, quando não há garantias de segurança à população civil palestina.

   Do lado israelense, a extrema-direita ganha força ao se colocar como protetora do “Estado judaico” diante do que afirma ser um povo árabe que vive do ódio aos judeus de forma irremediável. Cada vez mais, autoridades incentivam ataques a cidadãos árabes dentro de Israel, sobretudo após o sequestro dos colonos, e figuras políticas que se posicionam abertamente contra o Estado palestino e a favor da anexação total dos territórios ocupados ganham destaque na mídia nacional. Assim como Israel alega que o perigo do Hamas está em negar sua existência, os palestinos podem argumentar que na carta do partido de direita Likud, hoje na coalizão governante, também consta a negação de um Estado palestino. O novo presidente israelense, Reuven Rivlin, como bem lembrado pelo jornalista Janio de Freitas, também pertence ao Likud e defende a expansão de assentamentos sobre a Cisjordânia como forma de se estabelecer a “Grande Israel”, projeto que passa por cima de qualquer limitação territorial da Palestina e alcança o vale do Rio Jordão, na fronteira com a Jordânia. Sobre isso, vale também apontar que o próprio Netanyahu, em meados de julho, já afirmara que Israel nunca abrirá mão do controle de segurança da região a oeste do mesmo rio. Ou seja, nunca haverá soberania palestina.

   A situação representa um grave distanciamento das partes de posicionamentos favoráveis à paz que predominavam até poucos anos e uma perigosa inversão de valores. Quem se lembra de Oslo? Em 1993, sob mediação dos Estados Unidos, israelenses e palestinos assinaram uma série de primeiros acordos de paz entre as partes, chamados Acordos de Oslo. De acordo com eles, a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) é reconhecida como representante oficial do povo palestino, em troca da aceitação da existência de Israel e deposição da luta armada. Por sua vez, Israel se compromete com uma retirada gradual de partes da Cisjordânia e Gaza, e cooperação com a nova autoridade civil palestina nos campos econômico, de segurança, energético, entre outros. Em longo prazo, os acordos falharam, pois a retirada israelense não ocorreu e a autoridade palestina não foi capaz de coibir a violência de outros segmentos políticos palestinos ou a insatisfação da própria população, externada na Segunda Intifada no ano de 2000. Passados o assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin por um radical judeu e vinte anos de conflito, uma pesquisa encomendada em 2013 pelo Conselho Sionista de Israel revelou que hoje, 53% dos adolescentes israelenses não sabem do que os acordos se tratam. O esquecimento de tentativas anteriores de entendimento pela paz e dos compromissos assumidos, e a falta de iniciativa por parte das autoridades em relembrá-los ajudam a promover um discurso de violência e desumanização do inimigo, processo perigoso e presente nos discursos que ouvimos atualmente.

   Correntes políticas opostas à assinatura dos acordos de paz em 1993 estão hoje no poder, e o que se observa é um enorme retrocesso na questão do conflito de forma geral. Outra pesquisa realizada nesse ano pelo Instituto Democracia de Israel sobre o atual embate em Gaza revela que mais de 90% dos israelenses não condenam o uso da força excessiva pelo exército como forma de erradicar o Hamas. A cobertura jornalística internacional se mostra tendenciosa e confusa, ora escondendo o número assombroso de mortos palestinos, ora deixando de questionar os métodos do Hamas. A opinião pública se radicaliza em meio à guerra de imagens da mídia. Os maiores expoentes políticos de ambos os lados pendem para o extremismo ultranacionalista e a negação total do outro, quando sua aceitação foi um difícil passo já superado em Oslo. Ou será que não?

   Concessões mais dolorosas devem ser feitas. Hoje, após mais de um século de tensões entre judeus e árabes palestinos na região e mais de seis décadas da criação de Israel, é necessário admitirmos que a realização do projeto sionista é impossível. Não apenas por sua teoria, mas por sua inaplicabilidade prática. Explico-me com questões: como justificar, em plena era da globalização e crescente multipluralidade das sociedades nacionais, um Estado que reivindique algum tipo de supremacia étnica? Como, ainda, associar essa premissa com a democracia? Que outra nação no mundo hoje promove por meio de incentivos financeiros a imigração de membros de sua comunidade de todo o mundo a fim de manter uma maioria demográfica e, ainda, envia seus cidadãos para residir em áreas ilegalmente ocupadas como forma de garantir a posse das terras? Com isso, podemos ainda questionar como o presidente dos EUA, uma nação notoriamente diversa e a mais poderosa do planeta, corrobora o direito de Israel existir como um “Estado judaico e democrático”?

   A premissa básica da democracia está justamente na igualdade entre os cidadãos, independentemente de suas origens, e esse deve ser um mandamento não apenas teórico que embeleze discursos de políticos e diplomatas, mas prático, vivido por cada indivíduo por igual. Além disso, o caráter democrático presume que um Estado não promova o descumprimento da lei internacional e não viole direitos humanos básicos, práticas recorrentes por parte de Israel na ocupação da Cisjordânia e na punição coletiva em Gaza.

   O projeto sionista de criação de um lar nacional para o povo judeu na Palestina mostrou-se impraticável desde sua origem, expressa na máxima “um povo sem terra para uma terra sem povo”. A aplicação desse projeto em uma terra – obviamente – ocupada por um grupo de centenas de milhares de indivíduos que possuíam suas próprias aspirações nacionais já se presumia desastrosa. O lar nacional se consolidou porém, não pode se tratar de uma etnocracia, como reivindicado pelo sionismo conservador do governo atual. Mesmo se a premissa de supremacia judaica sobre a terra fosse admitida pela representação palestina como exigido por Israel, os residentes de Gaza e Cisjordânia e os cerca de cinco milhões de refugiados palestinos deslocados para outros países desde a criação de Israel em 1948, em uma situação de marginalidade existencial – desprovidos de cidadania e identidade –, continuariam a reivindicar o retorno para sua terra de origem. Sob qualquer hipótese a disputa teria fim.

 Não cabe questionarmos o direito de existência ou segurança de nenhuma parte, pois estes são inegáveis a toda e qualquer comunidade política mundo afora. O fato de o Hamas rechaçar a convivência com Israel é ilusório, pois nenhuma situação justificaria a expulsão dos milhões de cidadãos israelenses estabelecidos em um Estado internacionalmente reconhecido e bem estruturado. Já o direito de existência do Estado palestino é garantido por inúmeras resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas e previsto – assim como o de Israel – desde 1947, no Plano de Partilha da mesma organização. A questão é, justamente, que os palestinos não constituem uma comunidade política em si, daí a necessidade de se atuar em favor da segurança de centenas de milhares de palestinos presos em Gaza, sob a mira de jatos e drones israelenses que não poupam munição na hora de proteger seus interesses nacionais. Muito se critica sobre a atuação terrorista do Hamas, porém poucos se perguntam do por quê. Enquanto Israel reivindicar apenas o direito de defesa de uns, não estará garantindo a segurança de ninguém. O que se deve fazer é desconstruir a mitificação de uma nação eternamente ameaçada pela intransigência irracional de outro povo e manter o foco na origem de suas reivindicações nacionais.

   Atenhamo-nos aos fatos, não às imagens. Não podemos ignorar que o Hamas não é representativo da totalidade da população palestina, focando na truculência da escolha de alguns pela resistência armada e colocando de lado a luta de longa data pela autodeterminação nacional de todo um povo. Não podemos deixar de ouvir setores da sociedade civil israelense que protestam por paz e se recusam a servir no exército por questionar a estrutura militarista de seu Estado. Não podemos esquecer Oslo, o reconhecimento mútuo assinado, as negociações de paz e as poucas conquistas já realizadas. Se fizermos isso, admitiremos que o extremismo das duas partes tome conta do jogo, deixando o conflito fora de controle ou solução, em que não há espaço para a palavra e a razão, apenas para o ódio.

 

* Luciana Saab é historiadora pela Universidade de São Paulo e mestranda em Relações Internacionais no programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP), onde pesquisa o processo de paz entre Israel e Palestina

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