O outro lado do machismo

Por Luisa Bertrami D’Angelo*

“Eu não posso me dar ao luxo de lutar contra uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular. E eu não posso tomar a liberdade de escolher entre os frontes nos quais devo batalhar contra essas forças de discriminação, onde quer que elas apareçam para me destruir. E quando elas aparecem para me destruir, não demorará muito a aparecerem para destruir você.”

(Audre Lorde)

(Foto: Brocco)

O que é “ser mulher”? Quando Simone de Beauvoir disse que “não se nasce mulher, torna-se mulher”¹, a autora se referia à construção histórica do papel de cada indivíduo. Os papeis sociais são, como o próprio termo sugere, socialmente esculpidos, de forma que, em cada sociedade e em cada época, estão sujeitos a mudanças de acordo com as normas estabelecidas. Com a inserção das discussões feministas na universidade, tem-se mais claro que não há um “tipo ideal” de mulher, um padrão que deve ser seguido por todas, e que tudo que há de normas sobre “como ser mulher” não passa de uma construção de uma representação social[a] do que seria uma mulher. Pensando, então, nesta perspectiva, pergunto-me: o que é ser homem?

Quando uma criança nasce, seus pais e toda a sociedade começam a ensiná-la o que é certo e o que é errado, o que ela pode e o que não pode fazer. Dessa forma, vai-se construindo uma identidade (que não é fixa, uma vez que estamos em constante transformação a partir das vivências e das relações que estabelecemos com o mundo e com os outros), um modo de ser, um conjunto de características que, durante toda a nossa a vida, nos ajudam a dizer quem somos. Desde que nascemos, então, diversas esferas da vida social nos influenciam, e uma das esferas que tem o papel de ditar o certo e o errado e que corta transversalmente nossa história é o que chamamos de gênero. O gênero diz respeito aos papeis sociais masculinos e femininos, e o termo surgiu entre as feministas americanas com o objetivo de superar a noção biológica de sexo e reafirmar o caráter intrinsecamente social dos papeis sexuais².

O feminismo, enquanto teoria e militância, busca repensar as relações de gênero, questionando a dominação da mulher pelo homem e discutindo o lugar da mulher na sociedade, sempre lutando pela igualdade e pelo fim da violência de gênero. Parece óbvio que o feminismo foque suas intervenções nas mulheres, porém correntes feministas baseadas na teoria queer[b] e nos estudos da dinâmica da sexualidade (muito influenciados por Michel Foucault e pelo pós-estruturalismo francês)³ vem buscando problematizar a questão do gênero para além da dicotomia opressor-oprimido que coloca as mulheres como vítimas e os homens como opressores.

É neste sentido que este texto tenta pensar o que é ser homem. Numa sociedade machista, marcada pelas diferenças de gênero que colocam mulheres e homens em posição de desigualdade, são claras as restrições que se aplicam às mulheres: sua sexualidade é reprimida, seus desejos são subjugados aos desejos dos homens, sua independência e capacidade são postas em questão frequentemente, seu corpo é objeto de desejo alheio e não pode ser vivenciado de qualquer maneira, tendo que seguir rígidos padrões de beleza para ser considerada bonita. Mas neste cenário, outro lado pouco explorado aparece, pois a vida não é um mero resultado de forças maniqueístas que separam os bons dos maus e a lógica “opressor versus oprimido” não dá conta da complexidade das relações humanas.

Ao mesmo tempo em que se restringem as possibilidades de ser das mulheres, restringem-se também as possibilidades de ser do homem.

Não chorar. Não amar. Não usar blusa cor de rosa. Não gostar de cuidar dos filhos. Não ser sensível. Não demonstrar afeto. Ser forte. Impor sua vontade. Ter músculos. Ser o chefe da casa. Ter um pênis enorme. Ser bom de cama. Não ter problemas pessoais. Não falhar. Gostar de futebol. Ser “macho”. Ser agressivo. Não ser carinhoso. Ter poder. Ter dinheiro. Ser bem sucedido. Não falhar nunca. Não demonstrar fraqueza. Assim como acontece com as mulheres, os homens são levados a seguir uma série de padrões e a terem uma série de valores baseados numa convenção social que dita o que é um homem e como ele deve se sentir e se comportar. A razão de toda esta restrição e de todo este patrulhamento dos modos de ser é aquele mesmo sistema de valores e crenças que nós, mulheres, sabemos muito bem ser violento: o machismo. Machismo: a ideia de que homens são melhores que as mulheres por serem homens e, portanto, têm a obrigação de perpetuar as características masculinas (naturalmente melhores) e garantir que seja efetivo o controle dos homens sobre as mulheres. O que acontece é que, ao postular tal valor, o que o machismo faz é obrigar homens e mulheres a seguirem padrões impostos de papeis sociais que impossibilitam uma vida plena e autêntica.

A ideia de que o homem precisa ser viril, forte, violento e que ele exerce sua masculinidade através da agressividade e da imposição é, também, uma das causas do altíssimo número de casos de violência contra a mulher – um homem que não é ensinado a lidar com seus problemas e suas frustrações por meio da linguagem e do respeito mútuo não tem outra saída senão reagir violentamente. O feminismo, enquanto movimento que busca a igualdade e o fim da violência de gênero, precisa também se preocupar em problematizar as consequências da construção de um papel de homem nestes moldes. Tendo isto em mente, as políticas públicas voltadas para a erradicação da violência contra a mulher buscam contemplar o homem na relação violenta. A Lei 11.340/06, popularmente conhecida como Lei Maria da Penha, já prevê atendimento psicossocial aos homens agressores com o intuito de ressignificar e repensar as relações interpessoais e construir, com estes homens, uma visão crítica a respeito do que os leva a cometer atos violentos contra suas companheiras. Afinal, a incapacidade de lidar com suas questões de forma não-violenta é, também, geradora de conflitos e dificuldades para o próprio homem.

Pensando em como o machismo afeta o homem e numa possibilidade de quebra deste paradigma, surgiu o Movimento Homens, Libertem-se/Men Get Free[c], iniciativa que busca questionar o papel que é designado aos homens e criar uma relação de maior igualdade entre homens e mulheres, na qual todos possam ser genuinamente livres. A ideia é fazer surgirem espaços para a produção de discursos e sentidos sobre o masculino, pondo em xeque sua naturalidade, aceitando seu caráter histórico e social – o que resultará, também, numa crítica ao feminino como condição. O movimento acredita que, desta forma, pensando o gênero não como condição biológica mas sim como construção social, será possível garantir espaços de autenticidade e liberdade para que as pessoas sejam o que quiserem, para que suas experiências aconteçam dentro da lógica do sentido e não mais da reprodução de valores e papeis impostos.

Este é um tema que deveria interessar o movimento feminista. Não acredito em um feminismo que deixe de fora os homens por pensar que eles são os opressores e que se agarra à noções ultrapassadas de uma opressão vertical em que homens são maus e mulheres são meras vítimas – e que é, inclusive, responsável por garantir às mulheres em situação de violência o papel de coitadas, incapazes de superar a situação violenta e reestruturar sua vida e sua história. O machismo é um fato social e está presente nos discursos e nas práticas de homens e mulheres, pois homens e mulheres fazem parte de uma mesma sociedade machista. A superação desta lógica de desigualdade é benéfica a todos, homens e mulheres, e falar sobre os homens e sobre como estes são também oprimidos pelos modelos machistas que regem as relações humanas não significa deixar de lado a luta das mulheres; pelo contrário, é dar voz ao outro lado da equação e caminhar, cada vez mais, rumo à igualdade.

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*Cursa Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Trabalha no serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos – PAEFI Mulher, prestando atendimento psicológico a mulheres em situação de violência no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) em Poços de Caldas (MG).

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Referências

¹BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo: vol. 1 – Fatos e mitos. 4ª ed. Tradução de Sergio Milliet. Difusão Europeia do Livro, São Paulo, 1970.

²SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. Porto Alegre, vol. 20, nº 2, jul./dez., 1995, pp. 71-99.

³MISKOLCI, R. Teoria queer e a questão da diferença: por uma analítica da normalização.

Notas

[a] O termo representação social é utilizado na Psicologia Social para falar sobre a construção de discursos e sentidos acerca do mundo e dos fenômenos sociais. As representações sociais dizem respeito tanto ao modo como o sujeito apreende a realidade concreta quanto à construção de sentidos para esta realidade concreta que lhe é apresentada.

[b] A Teoria Queer é uma teoria sobre gênero e busca reafirmar o caráter social da construção de papeis de gênero. Sendo assim, é uma crítica à naturalização do gênero e busca subverter os conceitos sobre identidade de gênero, buscando a superação da dicotomia hetero/homossexual e pensando a sexualidade humana sob a perspectiva foucaultiana de dispositivo de poder, pensando a relação da sexualidade com a regulação dos corpos.

[c] O site Catraca Livre publicou uma matéria sobre o Movimento Homens, Libertem-se e disponibilizou um vídeo sobre o movimento bem como o Manifesto Homens Libertem-se, que podem ser conferidos no site.

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Categorias: Sociedade

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