O adeus ao professor de espantos

* Por Camilla Wootton Villela

Foto: Rubem Alves (site oficial)

Foto: Rubem Alves (site oficial)

É assim que construímos a nossa vida: com Sonhos e Inteligência.

É assim que se constrói um país melhor: com Sonhos e Inteligência.

Esse é o programa básico da educação.

 

(Rubem Alves)

 

Foi na Bienal do Livro do Rio, em 2011, que vi Rubem Alves ao lado do saudoso Bartolomeu de Campos Queirós em uma conversa descontraída dentro de um auditório lotado. Tão de pertinho! Consegui sentar numa cadeira muito próxima ao palco e ali fiquei escutando, fascinada, aqueles dois mineiros, um de Boa Esperança e o outro de Papagaios, falando sobre educação.

De tom efusivo como de costume, mas com voz de palavras pausadas, Rubem Alves lembrava da atual situação da educação no Brasil por meio de imagens que só ele é… era – vai ser difícil me acostumar com esse verbo no passado – capaz de fazer. Certa vez, escreveu que “poesia é […] frango com quiabo, deleite para quem gosta” e comparou a inteligência ao pênis[1]:

A inteligência é igual a um pênis. Um órgão excretor, flácido, ridículo, depressivo, está sempre olhando para o chão. Mas se for provocado ele sofre transformações hidráulicas extraordinárias, assume a forma de um foguete intercontinental porque dá vida e prazer. A inteligência é a mesma coisa. Não é que o aluno não seja inteligente. É que o professor que não fez o trabalho de estimular esse órgão que se chama inteligência.

O pedagogo gostava de provocar. E de despertar a curiosidade e a alegria de pensar, pois considerava que a escola nunca levava em consideração o desejo das crianças de aprender[2]. O ato de ensinar, inclusive, era uma alegria para Rubem. O professor acreditava que o objetivo da educação não é ensinar coisas, já que as coisas estão nos livros e na internet; o objetivo da educação é ensinar a pensar. E é por isso que ele propunha a criação de um novo tipo de professor: o professor de espantos. Aquele educador que não dá respostas prontas, mas aquele que faz parte de uma escola onde se desenvolve a inteligência das crianças por meio da dúvida e do questionamento.

Em entrevista ao programa Provocações (TV Cultura), Rubem Alves disse a Abujamra que a educação depende de duas coisas muito frágeis: sentimentos e inteligência dos professores. A grade curricular dos atuais programas, como o próprio nome diz, é completamente fechada. Rubem disse nesta mesma entrevista que o termo “grade” foi inventado por um carcereiro desempregado, criticando a atitude passiva dos professores de apenas dar os programas  sem qualquer questionamento; e, sem desvios, assegurou que nós precisamos muito mais de “para que serve isto” em nossas escolas.

O grande problema é que falta arte e paixão nas salas de aula. Nosso sistema brasileiro engessado de ensino não privilegia ou relaciona a realidade do aluno em seus programas, e não havendo identificação, não existe prazer. O prazer, aliás, era um assunto recorrente nas prosas de Rubem. Como despertá-lo em uma escola em que os programas seguem modelos de linha de montagem, no qual todos aprendem a mesma coisa ao mesmo tempo e velocidade? O prazer não é desenvolvido pela escola. Tudo é obrigação, nota, avaliação. Assim, a escola não desenvolve a sensibilidade do aluno de ler um poema, por exemplo. O prazer se transforma em prova de análise sintática e contagem de sílabas poéticas.

Saí da palestra no Rio durante os aplausos e não participei dos autógrafos, pois já tinha minha lembrança de Rubem Alves: a esperança. Uma das principais referências no pensamento contemporâneo sobre educação no Brasil, que também era poeta, cronista, ensaísta, teólogo, acadêmico e psicanalista, nos deixou neste mês de grandes perdas. “Eu não tenho medo de morrer… Só tenho pena. A vida é tão boa…”, escreveu um dia. A pena é para gente, que ficou com um vazio imenso e uma carência de intelectuais que discorram sobre educação com a sua valentia e bom humor. Queria ainda poder te ouvir falando sobre tanta coisa, Rubem; do universo à jabuticaba.

Vale assistir: Documentário Rubem Alves – O professor de espantos 

[1] Disponível em: http://oglobo.globo.com/cultura/rubem-alves-um-jardim-a-face-visivel-de-deus-essa-face-me-basta-13314642

[2] Ver mais em: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI48028-15223,00-APRENDER+PARA+QUE.html

___

Camilla Wootton Villela é formada em Letras e mestranda em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desenvolve pesquisa na área de Modernismo Brasileiro, Jornalismo Literário e Português como Língua Estrangeira (PLE). É professora, revisora de textos e escritora. 

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Categorias: Cultura

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