Ariano Suassuna e um certo purismo cultural

Ariano Suassuna

Ariano Suassuna

Por Fábio Zuker*

Nascido em 1927 na Paraíba e morto vítima de um AVC na última quarta-feira aos 87 anos, Ariano Suassuna figura entre os escritores e intelectuais brasileiros de maior repercussão nacional. A sua concepção de cultura popular traz, entretanto, uma série de contradições, que se tornaram claras em alguns momentos, como em debates com Caetano Veloso ou Chico Science.

O Auto da Compadecida, peça de teatro influenciada por gêneros literários medievais (sobretudo por Calderón de la Barca), é praticamente leitura obrigatória. A versão cinematográfica, com título homônimo, é um dos filmes brasileiros mais presentes em nosso imaginário. De acesso mais difícil é o romance A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue de Vai-eVolta, em que figuram sobretudo temas sebastianistas, crenças em beatos e aparições sobrenaturais. A história se desenvolve em torno do personagem Quaderna, preso por subversão no sertão da Paraíba e Pernambuco por acreditar-se o verdadeiro descendente dos reis do Brasil. Ganhou versão televisiva pela Globo em uma minissérie, e nos palcos, com Antunes Filho.

Entre tantas outras obras, aulas espetáculos (como Ariano chamava as suas apresentações públicas) e a criação do Movimento Armorial (uma busca por uma forma cultural erudita a partir da cultura sertaneja – oposição essa que considero, por si só, problemática), o escritor fez um mergulho na cultura nordestina, nas crenças populares, na literatura de cordel, nos duelos de repentistas com origens medievais, entre outros elementos que considerava tradicionais, a serem defendidos contra a influência da cultura pop – sobretudo em sua vertente norte-americana.

O reacionarismo de suas posições culturais se faz presente não apenas na maneira como abordava os seus temas de trabalho (a saber, a cultura popular vista como algo a ser preservada contra a invasão das referências pops), mas também em suas próprias declarações. Um bom indicativo é o obituário do jornal O Estado de São Paulo, que traz como subtítulo: ”Autor foi exemplo de resistência na defesa da genuína cultura nacional”.

Mas afinal, perguntaria uma alma cândida, o que seria uma ”genuína cultura nacional”? Seria a cultura que se forjou no nordeste a partir da confluência de crenças ibéricas com influências árabes, africanas, judaicas e indígenas, que teria ficado em cozimento lento durante séculos, gerando a tal cultura a ser preservada? Tal posicionamento do obituário do Estadão não me parece estar desarticulado das concepções do próprio Ariano, e que são problemáticas por dois motivos.

Em primeiro lugar, elegem um determinado corpo de referências culturais como genuínas: seria a cultura sertaneja mais genuína do que a do Candomblé? Ou mesmo mais genuína do que a indígena de regiões da Amazônia, das tradições alemãs de Santa Catarina, da reinvenção do samba ou da cultura urbana das grandes metrópoles brasileiras? Ou seja, uma obra como O Auto da Compadecida, seria ela mais ou menos original com relação a uma cultura brasileira do que um livro como Pornopopéia, de Reinaldo Moraes, sobre a vida de intelectuais falidos e boêmios de São Paulo? Em segundo lugar, as posições de Suassuna acabam formando uma concepção estanque, imutável de cultura, ao fechá-la à novas influências do século XX – em última instância, atitude contrária ao dinamismo que criou a cultura popular sertaneja que ele tanto admira.

Não é a toa que Suassuna foi alvo de críticas do grupo tropicalista, sobretudo de Caetano Veloso, detentor de uma concepção de cultura diametralmente oposta a do escritor paraibano. Segundo o músico baiano, as concepções culturais colocadas em jogo por Suassuna, e sua preocupação com a ”afirmação cultural do Brasil”, equivaleria a um ”programa algo kitsch de estilização bairrista da arte folclórica do Nordeste como forma de restauração do medievo ibérico”.

Obviamente, toda a volta a uma tradição envolve a sua re-elaboração através das referências de um outro momento. O que parece diferir o movimento armorial dos tropicalistas é que os primeiros tentavam voltar a essas tradições como maneiras de preservá-las, sem entender que o que faziam era sempre uma ”falsificação” do ”original” que queriam preservar. Já os tropicalistas, buscavam justamente explorar esse dinamismo, essa lógica da falsificação, fugindo de qualquer essencialismo da cultura brasileira ao incorporar as referências pop e rocks norte-americanas, que sempre amedrontaram Suassuna.

O seu desacordo com Chico Science, criador do Mangue Beat – movimento cultural que buscava mesclar as referências do maracatu rural com rock e hip hop – e de quem Ariano se considerava amigo pessoal, é ainda mais elucidativa. Comentando sobre o nome do amigo, afirmou: ”nos dois elementos do nome dele, eu estava ao lado do Chico e ao lado do maracatu rural, mas tava contra o Science, que queria misturar o maracatu com duas coisas tão feias, o rock e o hip-hop”.

Aí está a raiz de seu purismo cultural, que permeia toda a sua obra – em franca contradição, como dissemos acima, com o dinamismo que fundou a riqueza da cultura que tanto admira. Era antipático à arte massificada (algumas de suas posições me lembram os debates de Adorno e Horkheimer sobre a indústria cultural nos Estados Unidos). “(…) A imitação seria ainda pior no caso do rock, música na qual os jovens americanos brancos, liderados por um imbecil como Elvis Presley, falsificam uma raiz popular negra, enfraquecendo sua força original e achatando-a de acordo com o gosto médio e o mau gosto dos meios de comunicação de massa”, afirma Suassuna em artigo escrito para a Folha de São Paulo, em 2000, criticando assim os movimentos tropicalistas (que emergiam da diluição das fronteiras entre pop e erudito).

Esta frase de Suassuna torna-se ainda mais complicada quando sublinhamos a crença do escritor em uma certa cultura original – no caso a dos negros norte americanos a ser falsificada pelo rock. Ignorando não apenas o dinamismo ao qual fizemos referência, mas também o contexto escravocrata e de encontro de diferentes culturas africanas em que os cantos que deram origem ao blues, durante as longas jornadas de trabalho nos campos de algodão, surgiram.

No caso brasileiro, essa visão purista e estanque da ”cultura nacional” traz consequências controversas. A cultura popular sertaneja estaria, segundo Suassuna, em risco, sendo deturpada pelo pop, pelo rock, pela cultura de massa e, em última instância, pela cultura urbana que vem com tudo isso, a mesma cultura urbana que paulatinamente desmantelou a sociedade escravocrata e o sistema de capitanias hereditárias ou do coronelismo, no qual essa cultura que Ariano quer preservar de maneira purista foi se forjando.

Não se trata de criticá-lo do ponto de vista de processos de modernização unívocos e redentores, mas de ressaltar as contradições das obras de Suassuna, incapazes de reconhecer que o processo dinâmico e de misturas que forjou a cultura sertaneja continua ocorrendo.

Tudo se torna mais difícil por Suassuna ser Suassuna: um grande escritor, dotado de um estílo único e bem humorado. Uma narrativa fluída, repleta de cantos esquecidos, de versos populares de cordel costurados com uma escrita complexa e culta. Suas posições a respeito disso que chamamos de purismo cultural não impedem que reconheçamos em sua obra toda a riqueza de um mundo por ser redescoberto, além de um escritor imprescindível para qualquer leitor interessado em entender os debates culturais no Brasil.

Vá em paz, Quixote do sertão!

*Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Suas pesquisas se desenvolvem em diversos formatos, sobretudo em artigos e ensaios, projetos curatoriais e mostras de cinema.

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Categorias: Cultura

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