Pela eroticidade da arte: sobre os diários de Susan Sontag

Por Fábio Zuker*

Publicado no Brasil em 2009 pela Companhia das Letras, Diários (1947-1963) – Reborn (Renascida), no título original em inglês –, de Susan Sontag, é um mergulho no universo mental de uma das mais influentes intelectuais norte-americanas do século XX. Nascida em 1933, foi uma escritora, cineasta, dramaturga, professora e ativista política. Seus trabalhos mais famosos são On Photography (Sobre a fotografia), Against Interpretation (Contra a Interpretação) e Ilness as a metaphor (A Doença como metafora). Faleceu em 2004.

sontag

Era como dormir e acordar ao seu lado. Sensação que, infelizmente, não durou muito; pouco menos de uma semana, para tentar buscar algum tipo de exatidão. As 234 páginas dos cadernos de anotações (eles são antes isso do que diários) de Susan foram vorazmente devoradas. Entre a escrita de uma dissertação de mestrado (atividade maior a qual me dedico cotidianamente), ler as suas anotações antes de dormir e ao acordar me davam essa impressão de haver passado a noite com ela.

Não por casualidade o livro me causou tamanho entusiasmo: uma intelectual que, entre outros conflitos, digladiava-se com as estruturas acadêmicas e de criação de conhecimento de seu tempo – que lhe pareciam tão desinteressantes em comparação a todo o universo que ela explorava por meio da literatura e outras práticas artísticas, mas também com a descoberta de sua sexualidade e sua atração por mulheres.

Estes trechos foram escritos nos anos de formação da surpreendentemente jovem Susan, em relação a sua maturidade. Foram compilados por seu filho, David Rieff, a quem ela faz diversas menções: uma criança ao mesmo tempo muito amada e querida, mas um empecilho ao tipo de liberdade que Susan buscava, entre o final da década de 1950 e início da década de 1960.

Ao contrário do que muitos dizem, tenho a sensação de que o livro não é um atalho para a compreensão da mente criadora de um gênio. Não se trata de um acesso privilegiado aquilo que seria o “making of” de um grande intelectual. É, isso sim, uma abertura para os questionamentos, anseios e frustrações mais íntimos daquela que os escreve.

Ademais, não me parece fortuito o interesse de Susan pela obra de Kafka – as cartas que escreve a F. (Felice, como mais tarde se tornaria conhecido) abundam em contradições, anseios e um sentimento de fraqueza, no caso de Kafka de pequenez, diante de um mundo assustadoramente grande e potente para ser conhecido.

As semelhanças, entretanto, parecem não ir muito longe, uma vez que o refúgio privilegiado de Kafka é a solidão em seu quarto, diante da janela que permanece aberta (mesmo no rigoroso inverno de Praga, enquanto escreve noite adentro); como se fosse uma forma de revigorar o seu corpo débil. Em última instância, Kafka sonha que escreveria de modo maravilhosamente especial caso se trancasse durante toda a sua vida num porão, recebendo apenas a comida estritamente necessária para viver, de alguém que não lhe dirigiria sequer a palavra, apenas deixando a refeição atrás da porta.

Para Susan, por outro lado, o seu sentimento de insegurança é o motor que lhe move de sua biblioteca e listas de livros para a ativa e excitante vida cultural norte-americana de sua época. Não estamos diante de mais um caso tão comum de intelectuais beatniks nos anos 1950 e 1960. Ou talvez estejamos. Na realidade, pouco importa: o que não me parece cabível é pensar Susan como uma simples transgressora do status quo de sua época.

Tudo é mais complexo, pois suas atitudes rumo a um novo modo de ser mais livre (o que poderia ser identificado como o seu primeiro renascimento, ao que se sucede um segundo, quando de seu divórcio) vêm acompanhadas de medos, desconfianças, repúdio por um passado recente do qual acabava de sair, entusiasmos pelo futuro próximo, desconforto com suas decisões, remorsos em tentar reconciliá-las, uma desconfiança com o seu corpo, uma aposta que, em certos termos, renuncia do sucesso proveniente de suas capacidades intelectuais.

O que estou tentando dizer é que o leitor não deve esperar o mesmo gênero de leitura de On the Road, pois existe algo de extremamente kafkaniano nas inseguranças e anseios de Sontag; na sua constante tensão de entregar-se a algo que parece ser sempre alheio a ela, distante, escapadiço.

Selecionei alguns dos trechos que mais me chamaram a atenção nos diários de Susan. Não pretendo fazer uma leitura exaustiva deles, nem sintetizá-los: eles têm uma fluidez única ao longo dos escritos, que não é da ordem da coerência. Certamente, os trechos abaixo selecionados são oriundos de uma identificação minha com as temáticas levantadas por Susan.

Ânsia por conhecimento/

A compulsividade por conhecimento, por uma acumulação quase infinita de referências literárias como modo de conhecer o mundo e a si mesma, se traduz pelas intermináveis listas seguidas de listas e mais listas de livros a serem lidos, comentados e relidos. Entre os seus prediletos, estariam alguns franceses, entre eles diversas obra de André Gide, e também Fausto, de Goethe, que não sem motivo lhe causa grande impressão.

Mas essa sua ânsia pelo saber conhece a sua talvez primeira decepção com a sua entrada na faculdade, em Berkeley, Califórnia. Diante do clima intelectual da cidade, as discussões, festas e pessoas que conhece, a vida acadêmica com que tanto sonhara já lhe parecia enfadonha, muito embora estivesse ainda dando os primeiros passos de algo que deveria prosseguir por anos. “Science as a form of alienation of sensibility”, escreve ela em seu diário; uma constatação precoce das temáticas que desenvolve em ensaios como Against interpretation, e a sua proposta de uma ”erotics of art”.

Pelo corpo: o erotismo como uma descoberta de si/

E o primeiro descentramento de seu mundo vem exatamente desse meio intelectual de São Francisco, onde também conhece o ambiente gay da cidade e suas primeiras experiências sexuais. “I know now the capability of experiencing the greatest pleasure on a purely physical basis, sans ‘mental companionship’, etc., although, of course, that is to be desired too”

Este seria o seu primeiro renascimento, a sua primeira descoberta de si para além de uma vida puramente intelectual. Entretanto, como tentei salientar acima, não estamos diante de um rompimento completo e certeiro, não se trata de uma trajetória unívoca que então começava a se delinear, sem dúvidas e tropeços. Susan olha para o seu passado recente como se nunca tivesse existido, diante daquilo que ela sempre teria sido: “Yet the past is no more past because it was delimited within a particular geographic area from which one is now irrevocably departed, than if it were all lived in the same place. But still, this miserable emptiness – as if I had never been away, as if these past five months had never existed, as if I had never known Irene and been in love with her, as if I had never discovered sex because of Harriet, as if I had never discovered myself (did I?) – as if it had never been…”

É neste momento que as figuras de Irene e Harriet entram em sua vida, e passam a percorrer as diversas páginas de seu diário.

Não é tampouco um mero sentimento de culpa diante da descoberta de seus desejos sexuais e de sua homo ou bissexualidade. Mas de autodescobrimento, ou melhor, de uma invenção de si, como Susan sempre mencionava quando pensava em seus diários.

E o faz precisamente apostando na exploração de seu ser e do mundo ao seu redor pelo sexual; aquilo que um dia vislumbrara como um potencial redentor, peça chave no seu processo de liberalização era, ao mesmo tempo, um de seus maiores tormentos: “I see myself as ‘someone who tries’. I try to please, but of course, I never succeed (…) From this, a will to failure that often – except in sex – my talents frustrate. So then I devalue my successes (fellowships, the novel, jobs). These become unreal to me. I feel I am masquerading, pretending”.

Religião, judaísmo e nazismo/

Os diários começam quando Susan tinha 14 ou 15 anos, dois anos após o final da Segunda Guerra Mundial. Como se sabe, os anos que seguiram o término da guerra são também os anos de descobrimento do que exatamente ocorria por baixo das muralhas dos campos de concentração.

Essa passagem de 1957 apresenta os medos coletivos frente ao futuro, a partir daquilo que o passado iniciava a revelar: “Who among us would lift a finger if our university were threatened, or the synagogues of America were expropriated by Gen. Eisenhower; who would [crossed out “lay down his life”’] defend the nation state if he were not conscripted?”. Curiosamente, Philip Roth escreveu um livro em que desenvolve essa temática, Complô contra a América.

Os seus questionamentos sobre o seu judaísmo percorrem o livro inteiro. Não apenas em seu interesse pela Shoá**, mas simultaneamente de maneira extremamente personalizada, alinhada a um interesse que se desenvolve ao redor de reflexões intelectuais sobre sociologia da religião – Philip, o seu primeiro marido, sendo um especialista nesse campo. O seu desconforto consigo mesma, o seu não estar no mundo, ecoa o tema tradicional do judeu errante, inapto em todas as terras para a qual se dirige. Suas pesquisas de sociologia da religião não ocupam grande parte dos seus escritos, muito embora a elas sempre faça referências: as listas de textos sobre o assunto, a colaboração com Philip na escrita de um livro (que jamais teria o seu nome quando publicado) e a assiduidade com que frequentava cursos a respeito do assunto.

Prisioneira das imagens/

Seus cadernos são, sobretudo, um modo como Susan reflete sobre si mesma, diante de sentimentos de desarticulação entre aquilo que ela deseja no fundo de seu âmago ser, e aquilo que ela imagina ser. Ela descreve esse sentimento em belas passagens, como aquela em que afirma ter organizado a sua vida em três momentos destinados a outros: na infância para a sua mãe, na juventude para o casamento com Philip, e na idade adulta ao seu filho David.

Um dos pontos fortes desses escritos é imaginar-se como aquilo que ela não é; não uma escrita que inventasse aquilo que ela desejasse ser, frente às impossibilidades de fazê-lo na vida real, mas precisamente o inverso: “to write you have to allow yourself to be the person you don’t want to be (of all the people you are)”.

Seria, afinal, como uma alternativa a sua vida cotidiana, em que ela pode criar-se, criar uma imagem de si para si, em contraposição às imagens de si que lhes eram atribuídas por outros: “Superficial to understand the journal as just a receptacle for one’s private, secret thoughts (…) In the journal I do not just express myself more openly than I could do to any person; I creat myself”. Mas, novamente aqui não acredito ser possível entender tais concepções de sua escrita como algo leve, que de certa forma lhe proporcionaria um potencial de liberdade e alívio. “The reason I rarely succeed in comforting her when she is depressed, and never succeed in placating her when she is angry with me, is that I always assume she must be right. And being right, she must be stronger”

***

Esses são apenas trechos da primeira metade de seus diários. O segundo volume aborda sua relação com a mãe, seus medos diante da morte, o modo como desenvolve suas concepções sobre corporalidade, sexualidade e doenças. Espero poder trazer em breve uma seleção de trechos e comentários sobre a segunda parte de seus diários.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales.

** O termo Shoá (tragédia em yidish) é preferencial ao termo holocausto, que denota uma atitude religiosa em que algo ou alguém se sacrifica em nome de outrem.

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Categorias: Cultura

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