Por que (não) ser monogâmico?

(Foto: Thomás)

(Foto: Thomás)

Por Luisa Bertrami D’Angelo*

Julguei que seria resolvido com muita facilidade: é possível conciliar fidelidade e liberdade? E se for, a que preço? (…) Se os dois aliados permitem-se apenas ligações sexuais passageiras, não há dificuldade, mas isso também significa que a liberdade que se permitem não merece o nome que tem. Sartre e eu fomos ambiciosos; foi nosso desejo experimentar amores contingentes. Mas, há uma pergunta que evitamos deliberadamente: como a terceira pessoa se sentiria em relação ao acerto?

(Simone de Beauvoir)

Por que será que, quando falamos em relacionamentos, pensamos automaticamente no modelo monogâmico e heterossexual? Para o pensamento ocidental, as questões sobre o amor e o casamento sempre acompanharam a sociedade – o que muda, com o tempo, é a forma como as pessoas vivenciam amor e casamento. Apesar de estudiosos como Ariès, Béjin1 e Rougement2 buscarem, por meio de uma historiografia da sexualidade e do casamento, afirmar o caráter histórico e humano destas instituições, é comum a compreensão de que o modelo monogâmico de casamento indissolúvel é o modelo “correto”.

Tem-se, hoje em dia, a compreensão de que casamento e amor são dois lados de uma mesma moeda. Estudos sobre o amor no casamento, entretanto, trazem alguns exemplos das culturas grega e judaica nos quais se vê, claramente, uma oposição entre o amor dentro do casamento. Havia, de um lado, o amor pela esposa fértil, responsável por levar adiante o nome do homem – um amor velado, reservado. Por outro, havia o amor fora do casamento, amor pela amante que, apesar de carecer do reconhecimento da mulher-fecunda-dona-de-casa, ocupava status de bem-amada, não tendo a obrigação de manter tão velados seus desejos e podendo, assim, vivenciar mais livremente as experiências de amor.

A religião tem papel importante na fixação do modelo de casamento monogâmico e indissolúvel como norma. Porém, diferentemente do que se pensa, não foi o cristianismo o responsável pela implantação deste modelo social; ele somente se apropriou do discurso do Antigo Regime que considerava o casamento indissolúvel como um costume e o transformou em um código moral, assim como se utilizou da monogamia como justificativa para um de seus principais dogmas, a relação sexual com finalidade de reprodução apenas3. Com a ascensão dos ideais da Igreja e seu crescente controle sobre a sociedade4 e o surgimento, no século XVIII, do conceito de amor-paixão, no qual o erotismo é introduzido ao casamento, a separação entre amor e casamento começa a ser entendida como empecilho para o “verdadeiro amor”, dando início à construção de um modelo de relacionamento que tem sido, aos poucos, questionado por uma parcela da sociedade.

Apesar de, até hoje, ser uma instituição tida como “normal”, a ideia de amor romântico vem, aos poucos, perdendo espaço. Até a Disney – que em todos os seus clássicos reforçou a ideia machista de que a princesa, pobre e indefesa, precisa de um príncipe forte e bonitão que a salve dos perigos da vida – tem produzido animações, como Frozen, que buscam sair dessa obsessão que acomete especialmente as mulheres (que foram ensinadas que devem ser submissas e necessitam de um homem que lhes salve, já que são indefesas e inferiores) e que as faz crer que a vida e a felicidade dependem da sorte de encontrar um grande amor.

Numa tentativa de questionar o casamento monogâmico, fortemente relacionado à ascensão da família burguesa e da propriedade privada5 já que, neste contexto, é importante que haja uma união monogâmica para que seja perpetuado o nome da família e para que cresçam, assim, suas terras, correntes como o Poliamor e o Amor Livre vêm se estabelecendo enquanto possibilidade de relacionamento, mas muitos não compreendem, realmente, do que se trata esse tal de amor livre. Todo mundo ama todo mundo? Ninguém ama ninguém? Relacionar-se para além da ideia pré-estabelecida de que relacionamentos são monogâmicos e heterossexuais é sinônimo de enfrentar uma resistência da sociedade em aceitar um modo de ser que põe em xeque os valores vigentes e a moral cristã profundamente enraizada na sociedade ocidental pós-moderna.

O Poliamor é “um nome dado à possibilidade de se estabelecer mais de uma relação amorosa ao mesmo tempo com a concordância de todos os envolvidos”6, podendo haver, ainda que não seja o usual, períodos em que se prefira estabelecer relação com apenas uma pessoa. O Amor Livre, por sua vez, é um termo utilizado para um movimento que rejeita os estereótipos de amor e qualquer forma de controle, posse ou nomenclatura. Trata-se mais de uma negação de algumas normais do que uma afirmação de novas normas: é uma rejeição às noções de heteronormatividade, que marginaliza as práticas sexuais diferentes das práticas heterossexuais, monogamia e indissolubilidade das relações conjugais; uma fuga dos padrões que restringem as possibilidades do relacionar-se humano, talvez. Isso, porém, não significa uma rejeição sistemática à monogamia – o amor livre é livre até mesmo para ser monogâmico, desde que a escolha pela monogamia parta de uma reflexão e de um desejo autêntico, e não seja apenas resultado de comportamentos sexuais/afetivos previstos por normais sociais introjetadas acriticamente.

São duas correntes que se aproximam, numa perspectiva de crítica à heteronormatividade e à monogamia, porém cada uma mantém suas peculiaridades. Enquanto o Poliamor é um movimento que estabelece, em geral, a necessidade de haver mais de um relacionamento (embora um sujeito possa ser poliamoroso e o outro, monogâmico), o Amor Livre caracteriza-se mais como uma filosofia de vida que busca a quebra de qualquer tipo de normatização sobre como relacionar-se. Conforme relata uma pesquisa de Pilão e Goldenberg, é comum que, dentre os adeptos de relações não monogâmicas, sejam recriminados aqueles que postulam um “falso amor livre” para ter acesso facilmente ao envolvimento sexual com outras pessoas. É comum, também, uma espécie de competição e hierarquia, na qual a monogamia é um modo de se relacionar menos evoluído que o Poliamor, o que colocaria os adeptos desta modalidade acima dos da primeira.

O fato é que, em se tratando de relacionamentos, há tanta diversidade e complexidade que, muitas vezes, rotular uma relação como “amor isso” ou “amor aquilo” faz perder de vista a beleza que envolve uma relação humana. Como exemplo de tal complexidade e beleza, pode-se pensar a relação entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, famosos filósofos existencialistas franceses. Os dois se conheceram na Universidade de Sorbonne, sendo ambos professores de filosofia. Logo criaram uma parceria e, assim, passaram a se relacionar afetiva e sexualmente. Os dois, porém, estabeleceram um pacto em que não manteriam uma relação monogâmica, pois buscavam vivenciar experiências sexuais diversas e queriam se opor à família burguesa que, para eles, representava uma violação à liberdade e à autenticidade, já que ditava padrões e excluía tudo que deles fugisse. Juraram jamais mentir um para o outro e, também, que compartilhariam todas as suas experiências amorosas para que a experiência de um fosse a experiência do outro7.

O filme Os amantes do Café Flore (2006) conta a história de Simone e Jean-Paul e mostra as alegrias e as dificuldades de seu relacionamento. Além, claro, de terem decidido por esse tipo de relacionamento devido à própria filosofia existencialista e às ideias que tinham sobre o que é ser livre, relacionar-se dessa forma era, também, um gesto político que mostrava o descontentamento de ambos com a moral da época. O que acontece, porém, quando se pensa no casal Beauvoir-Sartre, é uma idealização de tal relação, como se os dois, por se relacionarem livremente, tivessem sido capazes de ultrapassar todos os tipos de dificuldades e angústias do relacionar-se humano. O filme desconstrói essa ideia e mostra-os como eram: entre eles havia brigas, ciúmes, intrigas e carências, pois os dois eram, acima de tudo, humanos. O que foi essencial para a relação dos dois ter funcionado nas bases que eles acordaram era que o ciúme e o sentimento de pertencimento foram menores do que a vontade de viver experiências amorosas com mais de uma pessoa.

Simone de Beauvoir, que mudou radicalmente a visão da mulher de si e do mundo depois de publicar “O Segundo Sexo”, em 1949, é retratada no filme como a mulher que era – não como um ser que conseguiu se desvincular por completo das ideias machistas e dos sentimentos de posse do outro, mas como alguém que buscou, durante toda a sua vida, descontruir essas ideias e perseguir aquilo que achava correto. Essa busca, todavia, não foi uma busca fácil. Simone abdicou de desejos e vontade, enquanto ser humano e mulher, para continuar fazendo da sua vida a prática que ela pregava em seu discurso. Por esse motivo ela foi autêntica: abriu mão do casamento e da maternidade, mesmo que em certo momento tenha pensado que poderia gostar de ser esposa e mãe, pois acreditava profundamente na crítica que fazia ao relacionamento monogâmico e na necessidade de ser livre. Buscando diminuir a distância entre seu discurso e sua prática, Beauvoir renunciou alguns desejos que, vez ou outra, surgiam da demanda da sociedade frente a ela enquanto mulher. Mas há também espaço para contradição no relacionamento pouco convencional de Sartre e Beauvoir: o pacto que firmaram fez com que ambos vivessem uma vida repleta de ambiguidades. Na tentativa de viverem uma liberdade plena, acabaram prisioneiros da ideia de liberdade que tanto buscavam experienciar.

Conhecer a história de Sartre e Simone de Beauvoir faz, inclusive, com que compreendamos de forma bem mais clara o que foi que levou Simone a escrever sua obra prima. E ela, em sua genialidade, foi capaz de perceber que mesmo sendo parte da relação livre que mantinha com Sartre, era menos livre que ele, por ser mulher, pois a sociedade aceita muito mais facilmente um homem não monogâmico do que uma mulher não monogâmica. Admitir isso foi o impulso inicial para que pudesse concluir “O Segundo Sexo” e começasse a questionar sistematicamente tudo que se diz sobre ser mulher.

O Amor Livre vivido por Simone e Jean-Paul ou os relacionamentos poliamorosos vivenciados por muitas pessoas acabam por serem vistos como uma espécie de prática messiânica, resposta para todas as dores das relações humanas. Esquecemo-nos, porém, que se relacionar é demasiadamente complexo e não há fórmulas para a vida nem para o amor. Simone e Sartre encontraram um modo de viver que fez sentido para eles. Ficaram anos sem se relacionar sexualmente. Sartre teve romances sérios com outras mulheres, Beauvoir teve também outros amores, como com o americano Nelson Algren. Nunca se separaram, porém, e terminaram enterrados lado a lado. Talvez porque, mais importante do que gritar para os quatro cantos do mundo que se é dono de alguém, é criar uma relação de cumplicidade e bem querer mútuo que possibilite que cada um seja livre e autêntico para que o amor, que tanto buscamos, apareça e permaneça. O que Sartre e Beauvoir ensinaram foi que é possível, sim, fazer coexistir amor e liberdade, mas que há limitações e dificuldades nessa forma de relacionamento assim como em qualquer outro, pois o ser-no-mundo-com-os-outros é, sempre, cheio de dificuldades.

O casal não representa, enfim, o fim do amor romântico, pois este só terá seu fim se forem reformulados todos os valores que regem a sociedade ocidental pós-moderna, mas deixaram como legado a ideia de que é necessário atentarmos para o controle que exercemos sobre os corpos uns dos outros e que devemos, sempre, buscar a autenticidade em todas as nossas relações. Representam, por fim, aquela pontinha de esperança por um relacionar-se baseado não no controle, no ciúme e no sentimento de posse, mas na real vontade de estar junto de outros.

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*Cursa Psicologia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Trabalha no serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos – PAEFI Mulher, prestando atendimento psicológico a mulheres em situação de violência no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) em Poços de Caldas (MG).

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Referências

1 ARIÈS, P.; BÉJIN, A. (Orgs) Sexualidades ocidentais: Contribuições para a história e para a sociologia da sexualidade. São Paulo, Brasiliense, 1985.

2 ROUGEMENT, D.(2003) História do amor no ocidente. (P. Brandi, E. B. Cachapuz, Trad.). São Paulo: Ediouro.

3 ARIÈS, P. O amor no casamento. In.: ARIÈS, P.; BÉJIN, A. (Orgs) Sexualidades ocidentais: Contribuições para a história e para a sociologia da sexualidade. São Paulo, Brasiliense, 1985.

4 ARIÈS, P. O casamento indissolúvel. In.: ARIÈS, P.; BÉJIN, A. (Orgs) Sexualidades ocidentais: Contribuições para a história e para a sociologia da sexualidade. São Paulo, Brasiliense, 1985.

5 ENGELS, F. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Rio de Janeiro, Vitória, 1978.

6 PILÃO, A. C.; GOLDENBERG, M. Poliamor e monogamia: construindo diferenças e hierarquias. Revista Ártemis, Edição V. 13; jan-jul, 2012, pp. 62-71.

7 SEYMOUR-JONES, C. Uma relação perigosa: uma biografia reveladora de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2014.

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Categorias: Sociedade

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