Seria a morte uma doença? O incrível otimismo científico

*Por Hugo Neri

Transcendence (Transcendência) filme estrelado por Johny Depp entrou em cartaz neste final de semana, trazendo cenas de um filme que, a primeira vista, nos parecem ficção científica (veja o trailer http://www.youtube.com/watch?v=yUSYCw1J2Eo). Will (Johny Depp), prestes a morrer envenenado aceita passar por uma experiência que ele e sua mulher, Evelyn (Rebecca Hall), que busca o que vêm perseguindo há anos: a imortalidade. Para tal, Evelyn faz um upload de sua consciência e Will permanece neste mundo, embora seu corpo já tenha falecido. Mais tarde, contudo, sua regeneração fisiobiológica é possível a partir da nanotecnologia. De ficção científica, contudo, por incrível que pareça, pouco tem o filme. Os avanços científicos atuais estão muito próximos a questões trazidas pelo filme, desafiando cada vez mais a questão da imortalidade.                                                                   Johny Depp em Transcendence

Se por um instante considerarmos a morte como uma doença, algo a ser curado, portanto, superado?

Esta incalável pergunta sobre a morte, parece nos visitar ao menos uma vez, em algum momento. Dentre tantas representações diferentes para a morte, aquela que parece melhor sintetizá-la é a assombrosa figura encapuzada de manto negro, que ninguém conhece a face, e que carrega sua enorme foice. Assim como as expectativas generalizadas, esta figura vem taciturna, sorrateira, imperceptível, imprevisível e inevitavelmente. Não tem rosto, por isso é impessoal. Vem para todos, sem fazer distinção social qualquer, exatamente como um ceifeiro cuja foice ceifa joio, trigo, altos e baixos. Por isso, a morte é também o símbolo da igualdade de todos, de nossa condição humana compartilhada.

Imaginemos o quanto de nossos julgamentos e decisões não são feitos tendo como fundamento esse dado, ou mesmo, esse destino. Tal destino, por um lado, desqualifica, no fundo, a maior parte de nossa busca de tudo aquilo que é desta vida mortal (dinheiro, poder, fama, aceitação social, luxúria), mas, por outro, impele-nos a aproveitar o máximo do nosso tempo, que escorre sem cessar. Como sintetiza bem o ditado popular: “para tudo tem-se um jeito, menos para a morte”.

Há alguns meses, venho acompanhado a intrigante figura de Ray Kuzweil, inventor, escritor, futurista, enfim, um dos mais destacados polímatas contemporâneos. Tem sido considerado por figuras importantes, como Bill Gates, como “o melhor homem para prever o futuro”. Não me restam dúvidas de que Ray seja uma das mais vivas e sinceras expressões da crença na ciência moderna, acreditando que, por meio da tecnologia, transcenderemos nossa condição biológica finita. Conheci Kuzweil por meio do documentário Transcedent Man (O Homem Transcendente, veja o filme http://www.youtube.com/watch?v=SjhB6J23Qjs), que retrata sua vida e uma de suas principais ideias. A coincidência acerca dos nomes do documentário e do filme hollywoodiano não são mera coincidência. A transcendência em questão é a transcendência de nossa condição biológica (sendo a morte o último desafio), que seria atingível pela tecnologia, principalmente após o fenômeno que ele chama atenção: a singularidade (conceito citado no filme Transcendence).

Medindo o progresso tecnológico pela capacidade de nossos computadores, que tem sua capacidade multiplicada por mil a cada década que passa, encontramos uma curva exponencial. A singularidade seria o momento em que a transformação tecnológica seria tão rápida e tão profunda que a única maneira de acompanharmos tal progresso seria incorporando a própria tecnologia em nossos corpos. Assim, para ele, os robôs que imaginamos no futuro serão, na verdade, nós mesmos, em um estado de hibridismo entre orgânico e o robótico. Por mais que este pareça mais um delírio de um futurista à là Júlio Verne, Kuzweil estipula uma data exata para esse acontecimento: 2029. Tamanha precisão é fruto das pesquisas sobre desenvolvimento tecnológico que uma de suas dez empresas realiza.

A ideia da possível imortalidade biológica é sustentada por diferentes perspectivas, começando por algo que já conhecemos bem, como implantes biônicos cada vez mais avançados que substituem membros perdidos. Ainda muito recentemente, vemos o fascinante uso de impressoras 3D produzindo membros humanos[1]. Kuzweil aposta também fortemente na nanotecnologia e seu uso medicinal. Sua ideia é que nano robôs coexistiriam com nossas células, intervindo de maneira precisa sempre que necessário. Além disso, novas atualizações seriam diretamente baixadas por esses nano robôs conectados na rede. Por mais que isso pareça ser muito utópico e distante, avanços da nano robótica e cibernética são anunciados em relação ao tratamento de doenças, sobretudo câncer [2]. Podemos acrescentar a esta lista o imenso programa de combate e reversão do envelhecimento, encabeçado pelo Dr. Aubrey de Grey e a fundação SENS [3]. O próprio Kuzweil tenta reverter seu envelhecimento, ingerindo mais de 250 pílulas por dia. Para terminar a lista, com o desenvolvimento da neurociência e da Inteligência Artificial, há ainda o ambicioso projeto de upload cerebral: basicamente a transformação de todo o conteúdo mental de um ser (e aí incluiríamos ainda a própria personalidade) em dados informacionais e sua transferência para outro dispositivo. No ano que vem, as universidades Sheffield e de Sussex  farão o upload da consciência de uma abelha para um robô em formato de abelha que agirá, reagirá e se movimentará de acordo com a consciência da abelha original uploadada.

A partir da perspectiva de Kuzweil e seus companheiros otimistas, a resolução de nosso principal problema, a morte, a decadência biológica, seria uma questão de tempo. Seguindo o tom religioso que esses cientistas manifestam, o que nos traria a promessa da vida eterna não seria a religião, mas a tecnologia. Se, por um momento, aceitarmos os prognósticos de Kuzweil e pensarmos em suas consequência, de imediato notaremos uma reviravolta em nossas ideias. Quantas questões existenciais não seriam solapadas, ou ao menos retiradas do palco principal. Ou mesmo que questões completamente novas não serão levantadas quando alguns poderão ter acesso a toda biotecnologia enquanto outros não. Seria até mesmo de se pensar que nesse futuro de Kuzweil, ao poder comprar esta tecnologia, o dinheiro solucionaria inclusive o problema da morte.

 Apesar do romantismo e ceticismo de muitos, há um grupo de pessoas que marcha otimistamente, tentando dar solução para “aquilo que não tem solução”. Devemos acompanhar as novas questões destes novos tempos.

é sociólogo formado pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre pelo departamento de Sociologia da USP. Iniciou suas pesquisas com Sociologia e Filosofia da Religião e hoje se interessa por temas de Linguagem, Cognição, Conhecimento e Ciência.

[1] http://interestingengineering.com/3d-printed-heart-saves-a-childs-life/

https://br.noticias.yahoo.com/impressora-3d-pode-ajudar-na-reconstru-o-membros-193000023.html

[2]http://news.yahoo.com/video/south-korea-develops-world-first-145938798.html

http://www.popsci.com/article/science/your-body-can-kill-cancer-it-just-needs-better-instructions

[3]http://sens.org

[4]http://www.kurzweilai.net/a-new-and-reversible-cause-of-aging?utm_source=KurzweilAI+Daily+Newsletter&utm_campaign=2aa099345b-UA-946742-1&utm_medium=email&utm_term=0_6de721fb33-2aa099345b-281917137

 

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Categorias: Ciência

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3 Comentários em “Seria a morte uma doença? O incrível otimismo científico”

  1. Karla Pe
    04/11 às 15:18 #

    Em Transcendence, A Revolução, Johnny Depp interpreta o doutor Will Caster, o mais notável pesquisador no campo da Inteligência Artificial. Este thriller de ficção científica mais de 100 minutos, eu gostei. Transcendence é um filme estranho e muito futurista que eleva a curto prazo um futuro muito sombrio para toda a humanidade. A coisa interessante sobre este filme é o debate e o dilema moral que surge quando se discute os limites da ciência e tecnologia. Transcendênce é o primeiro filme que fez Wally Pfister, diretor de fotografia de quase todos os filmes de Christopher Nolan.

  2. Hugo Neri
    01/07 às 13:22 #

    Obrigado Cláudio. Bom, uma reposta curta que eu daria seria: Sim, ela tem. Porém, pelo o que eu tenho estudado sobre o assunto, aí que está a mágica do negócio, pois não apenas os conteúdos da nossa mente, mas a própria estrutura cerebral depende da interação com outros cérebros – portanto, outras pessoas.

  3. Claudio Felisoni de Angelo
    30/06 às 12:38 #

    Muito interessante. Teria nossa mente todos os elementos que ditam nossas ações?

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