Exposição artevida: um olhar marginal sobre a história da arte

Por Fábio Zuker*

Com curadoria de Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, organizada para ocorrer em quatro espaços da capital carioca, a exposição artevida abre, no próximo dia 27 de junho, na Casa França-Brasil, no Parque Lage e na Biblioteca Parque Estadual, e, no dia 19 de julho, no Museu de Arte Moderna do Rio (MAM). Trata-se de um projeto curatorial que questiona as narrativas oficiais da história da arte a partir de uma rede de relações que se constrói predominantemente por artistas originários de países considerados marginais, do Oriente Médio, África, Ásia, Leste Europeu e América Latina.

Detalhe da obra 'Permanente Demonstration, am 19.1.76, 1976', feita de seis fotografias em preto e branco da artista alemã Annegret Soltau

Detalhe da obra ‘Permanente Demonstration, am 19.1.76, 1976’, feita de seis fotografias em preto e branco da artista alemã Annegret Soltau

Ousar outras narrativas e perspectivar as oficiais/

Questionar a história da arte e indagar sobre como o ponto de vista eurocêntrico organiza todo um campo de saber e poder por meio de construções narrativas encontra-se na origem de propostas das mais interessantes no campo das práticas curatoriais.

Mas o que significa questionar as narrativas já estabelecidas da história da arte? Por quais motivos tal posicionamento merece atenção, dentro da grande diversidade de propostas reflexivas no campo das artes visuais? Trata-se de uma pergunta grande, e mais interessante do que respondê-la é convidar o leitor a visitar a exposição.

Perspectivar o conceito ocidental de história e indagar sobre suas consequências políticas, por olhares vistos como ”periféricos”, é uma crítica que se desenvolve no campo das humanidades a partir da década de 70. Por exemplo, muito influente para as reflexões culturais na América Latina foi a crítica pós-colonial do intelectual martinico Edouard Glissant. Para ele, a história seria ela mesma uma disciplina autoritária e eurocêntrica, que joga um papel fundamental na concepção de modernidade e na empreitada colonial.

Mais próximo a nós, é outro Eduardo, o antropólogo carioca Viveiros de Castro, que busca pensar um novo conceito de teoria a partir do ponto de vista ameríndio – detentores, inclusive, de outra concepção sobre o que é ponto de vista, uma vez que os seus mundos são múltiplos, e não um só, como pretende o mundo tal como concebido pela ciência ocidental moderna.

Assim, questionar a história da arte e seus fundamentos não é um despretensioso exercício intelectual, mas um engajamento numa reflexão extremamente relevante sobre o modo como discursos narrativos e simbólicos reiteram posições de poder. Como afirma Pedrosa para o jornal O Globo, ”as narrativas hegemônicas vêm se apropriando das narrativas periféricas”, o que faz com que o interesse sobre a arte brasileira seja interpretado a começar de referenciais eurocêntricos, nele sendo encaixadas.

A exposição parece, no meu ponto de vista, justamente, querer explorar as outras possíveis histórias da arte, deslocando a oficial. Como afirma Rodrigo Moura para O Globo, se minimalismo ou abstracionismo geométrico são usualmente entendidos como ”supressão da vida, assepsia e limpeza”, aqui eles serão abordados de outros pontos de vista, pela ótica do ”tecido, trama ou linhas orgânicas” – termos pelos quais se abordará a noção de vida.

O projeto não é apenas relevante e ambicioso do ponto de vista reflexivo, mas também em suas dimensões: serão mais de 300 obras, espalhadas por quatro diferentes espaços. 110 artistas, em sua maioria oriundos de regiões do planeta consideradas periféricas pela narrativa predominante (focada sobretudo na Europa e nos Estados Unidos). Artistas brasileiros e latino-americanos serão colocados lado a lado com artistas do Leste Europeu, do Sudeste Asiático, da Índia, da África e do Oriente Médio, na tentativa de criar outros olhares para a história da arte ao aproximar questões e propostas usualmente pensadas apenas com base em sua relação com o centro o que não quer dizer, obviamente, que não haverá artistas da Europa Central ou dos Estados Unidos.

Outras experiências diante da história da arte/

Como outros exemplos de questionamento da história da arte poderíamos citar a pioneira reestruturação do Museu Reina Sofía, em Madri, que repensou toda a instituição a partir de sua função pública, fomentando outras possíveis narrativas de sua coleção – por exemplo, pensar os conflitos entre uma modernidade dominantemente entendida como progresso e seus múltiplos descontentamentos. Na Argentina, a inauguração do MALBA (Museu de Arte Latino Americana de Buenos Aires), em 2001, promoveu uma inflexão ao propor repensar a história do ponto de vista latino-americano por meio de artistas e obras desses países. 

No contexto brasileiro, experiências importantes como a XXIV Bienal de São Paulo, de 1998, que ficou conhecida como a Bienal da Antropofagia, merece destaque. Com curadoria assinada por Paulo Herkenhoff, e da qual Adriano Pedrosa fora assistente, partiu de temas levantados pelo Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade (1928) para pensar pontos-chave no modernismo brasileiro, deslocando a predominância eurocêntrica do modo de pensar em curadoria

Outra experiência relevante é o Mamõyguara opá mamõ pupé (que em tupi antigo significa “estrangeiros em todo lugar”)o 31o Panorama da Arte Brasileira de 2009. Novamente com curadoria de Adriano Pedrosa, interrogava o conceito de arte brasileira ao convidar apenas artistas estrangeiros para a exposição. Assim, arte brasileira deixaria de ser aquela feita no país, ou por nascidos no Brasil, abrindo um grande campo sobre as possíveis temáticas a partir das quais pensar a arte brasileira.

A reorganização do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, que caminha em direção muito próxima a do Malba, é um outro modelo de repensar as estruturas oficiais da história da arte.

***

Infelizmente, não estarei no Rio para ver Artevida. Mas aguardo com ansiedade os comentários de visitantes e leituras de críticos a respeito da exposição.

Serviço/

artevida (corpo)
Abertura 27 de Junho

Casa França-Brasil
Rua Visconde de Itaboraí 78
Centro – RJ
Horário: segunda-domingo,10h-20h, entrada gratuita
Tel: +21-23325120
www.casafrancabrasil.rj.gov.br

artevida (arquivo)
Abertura 27 de junho e 19 de julho
Biblioteca Parque Estadual
Av. Presidente Vargas 1261
Centro – RJ

Horário: terça-domingo,10h-20h, entrada gratuita
Tel: +21-23327225
www.cultura.rj.gov.br

artevida (parque)
Abertura 27 de junho e 19 de julho
Escola de Artes Visuais do Parque Lage
Rua Jardim Botânico 414
Jardim Botânico – RJ
Horário: Palacete: segunda-quinta 9h–19h, sexta-domingo 9h–17h
Cavalariças: segunda–domingo 10h–17h
entrada gratuita
Tel: +21-32571800
www.eavparquelage.rj.gov.br

artevida (política)
Abertura 19 de julho
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro
Av. Infante Dom Henrique 85
Parque do Flamengo – RJ
Horário: terça–sexta, 12h–18h,
sábado–domingo e feriados, 11h–18h

Tel: +21-2240 4944
www.mamrio.com.br

Ps: Para a reportagem do Globo, mencionada diversas vezes ao longo do texto, clique aqui.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales.

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Categorias: Cultura

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