Glitch Art: o ruído digital e a arte

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Glitch

 *Por Viviane Letayf

A dominante e contínua busca por um meio sem ruído foi – e sempre será—nada mais que um lamentável dogma. (Rosa Menkman)[1]

 

A exploração dos sons causados pelo mau funcionamento ou simples interrupção do funcionamento de meios eletrônicos desempenhou um papel importante na cena da música experimental dos anos 1990[2]. Porém, ainda mais recente é a exploração desses erros no cenário das artes visuais, o que não impede, entretanto, que já receba o status de gênero artístico[3]: a glitch art.

A origem do termo em inglês glitch, que deu nome a esse gênero artístico, é controversa. Atribuem-no a um radical do yiddish, glitsh, ou ainda uma origem proveniente da língua alemã. Contribuindo para o imaginário sobre a origem do termo, é sugerido que o seu primeiro emprego foi dado pelo astronauta americano John Glenn ao identificar um pico ou troca na tensão de uma corrente elétrica durante o treinamento da equipe. Mais eloquente para a sua explicação do que necessariamente verossímil, tal episódio evidencia as circunstâncias pouco agradáveis do emprego do termo, ou seja, o homem frente ao erro inesperado, indesejado e incompreensível da máquina.

Desta forma, o glitch seria o termo utilizado para qualificar o momento da ruptura do fluxo de informação no interior dos sistemas de comunicação digitais, resultado da percepção de um incidente ou um erro. De fato, quando o glitch ocorre, por interromper o fluxo de informação de um meio, o utilizador o percebe recorrentemente de uma maneira negativa, pois este ao mesmo tempo em que ameaça a utilização usual do suporte, evidencia sua falsa transparência como meio, uma vez que a falha traz à tona tanto a vulnerabilidade do suporte tecnológico quanto sua materialidade.

glitch art, portanto, agrupa os artistas que utilizam o glitch como material artístico. Os trabalhos que são colocados sob essa denominação datam do começo dos anos 2000, o que torna sua teorização difícil e imprecisa devido justamente pelo fato de serem tão recentes. De maneira geral e com intenção meramente introdutória, pode-se diferenciar os trabalhos desses artistas por meio da forma pela qual eles se apropriam do glitch. Assim, tem-se identificado pelo menos duas utilizações distintas dos glitches pelos artistas: a partir da apropriação dos erros randômicos resultantes do  meio ou da estimulação intencional dos mesmos.

A utilização dos erros randômicos do computador como recurso estético para obra aproxima o trabalho do artista em questão de um trabalho de documentação do erro, pois seu papel é menos fundado em uma questão de causalidade, uma vez que seu objeto artístico é gerado pelo acaso, e mais uma questão de apropriação e reação em relação às condições que permitem a arte se produzir. Dessa forma, a incitação pelos artistas dos momentos de erro/glitch pode se dar tanto pela intervenção física nos aparelhos que lhe servem de suporte (câmeras digitais, computadores, televisões) quanto pela exploração da linguagem de programação das interfaces e dos softwares.

O artista holandês Gijs Gieskes, por exemplo, modifica as conexões eletrônicas dos dispositivos analógicos ou digitais de vídeo tais como consoles de videogame. Em Sega Megadrive 2.2 Circuitbending, o artista transformou o console de videogame Sega em um sintetizador de vídeo autônomo, modificando as conexões entre circuitos eletrônicos. As imagens produzidas na obra, mesmo que elas já existissem como possibilidade no console, não poderiam se tornar uma realidade sem a intervenção do artista.

A obra de Rosa Menkman, uma referência na glitch art, se destaca por trabalhar o momento do glitch por meio de diversas formas, propondo abordagens tanto conceituais como políticas. A artista é autora do livro-manifesto “The Glitch Art Moment(um)”, o qual, entre diversas proposições, critica a concepção  de diferenciação do gênero a partir  da produção ou não do momento do glitch. Para a autora, se valer dessa tipologia é não entender o que é o glitch, pois o glitch é a própria superação do binarismo.

Menkman considera que a glitch art pode ser mobilizada em direção a uma crítica e também a uma superação às normas impostas pelo mercado de tecnologia. No filme “Colapso da PAL” (2011) http://vimeo.com/12199201, Menkman conta a história do extermínio silencioso, mas brutal, do sinal PAL [4]de televisão após a introdução do sistema digital de alta definição e sua consequente adoção massiva nos anos 2010. Inspirado na referência benjaminiana do “Anjo da História”, esta obra pretende guardar o traço da tecnologia que foi levada à obsolescência pela emergência e implantação do sistema digital. O trabalho se mostra ainda mais relevante ao abordar com uma noção de memória do meio. Problematiza, assim, a noção sistemática de obsolescência, trabalhando em cima das ruínas de sinal superado.

A era digital trouxe consigo imagens hiper-retocadas. Efeitos de nitidez são utilizados para gerar uma falsa sensação de vigor, enquanto artifícios de correção de lente são empregados para neutralizar variações de ângulos de captura das máquinas digitais, gerando uma qualidade asséptica à fotografia. A era digital também trouxe filmes inteiramente criados a partir de imagens sintetizadas por computadores, com suas paisagens intocadas, movimentos de câmera extraordinárias e superfícies hiperdetalhadas. O glitch é o mais distante que se pode chegar de tais imagens, reinfectando aquilo que o avanço tecnológico havia tornado estéril. Fazê-lo uma vez seria um gritante gesto de provocação e também uma atitude facilmente esquecida ou deslocada por qualquer outra novidade. Fazê-lo ininterruptamente, durante mais de uma década, é outra coisa.

Notas

[1]Tradução livre da autora

[2]https://www.youtube.com/watch?v=h3zU6Afw5E4 Sonic Youth

[3]A palavra gênero que é utilizada no texto é a mera tradução da palavra “genre”, mobilizada constantemente pelos artistas de glitch art ao se referirem aos seus trabalhos partindo de uma abordagem que seja estética e/ou política.  O termo “gênero artístico” ganha no texto menos o sentido autoral ou político de quem escreve e mais o contorno de uma tradução que respeita as nomenclaturas adotadas pelos artistas que se reconhecem com a glitch art.

[4] Sinal PAL (Phase Alternating Line) é uma forma de codificação da cor usada pelos sistemas de televisão adotado por alguns países da América do Sul (incluindo o Brasil), África e Europa com a emergência da televisão a cores. No Brasil o sinal PAL começou a ser substituído pelo DTT (Digital Terrestrial Television) em 2007 apenas na grande São Paulo.

*Viviane Letayf é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP).

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Categorias: Cultura

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