Por que a Copa é aqui?

Por Pedro Jatene* 

(Clive Burnskill/Getty Images)

(Clive Burnskill/Getty Images)

Embora a Brahma diga que o futebol está voltando para casa, isso não passa de cópia literal da música tema utilizada pela Eurocopa da Inglaterra, em 1996, que repetia football is coming home no refrão. A Coca Cola faz a sua parte e usa índios sorridentes para anunciar “a Copa de todo mundo”, mesmo quando toda a participação indígena na Copa se resume àqueles que foram removidos de suas terras para que pudéssemos decorar nosso salão. E se, por um lado, pouco importa qual é o lugar do mundo que deixa o futebol mais à vontade, o mesmo já não é verdade com as mentiras que ele tem contado. Ainda é difícil encontrar uma explicação razoável para a Copa ser aqui. Não é razoável que seja. Afinal de contas, o que fez com que um país com tantas deficiências pretendesse promover o maior evento esportivo do mundo? E, pior, o que fez com que a organizadora do evento topasse?

Do lado brasileiro, numa certa onda de megalomania do governo federal, parecia oportuno criar um pretexto de grande apelo popular que exigisse a construção de tudo o que já devia ter sido construído mesmo sem Copa, dentro de um prazo inadiável. Uma oportunidade para reconstruir o Brasil que usou o “tem que ficar pronto até a Copa!” para justificar a reforma da legislação federal sobre contratações públicas… por meio de Medida Provisória, instrumento utilizado pelo governo quando pouco importa o que os outros pensam de suas vontades. Com a MP, inaugurou-se um regime providencialmente chamado de Diferenciado para que o governo pudesse contratar, supostamente, melhor e mais rápido. Só um ano depois de criada para a Copa é que a lei incluiu no benefício as obras do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que, coincidentemente, também pretende reconstruir o Brasil. Naturalmente, quase três anos após sua criação, tanto o argumento da celeridade quanto da economia se perderam em meio aos superfaturamentos e atrasos de entrega generalizados. Ou seja, embora a estratégia tenha funcionado, a medida implementada, claramente, não atingiu seus objetivos – e já se mostra frágil para o futuro.

Do lado da FIFA, há sugestões do que pode ter motivado a sua escolha. Um documentário recente da BBC inglesa apresenta vários indícios de subornos para conselheiros da FIFA exatamente na época em que a Inglaterra, pronta para qualquer evento, perdia a sede de 2018 para a Rússia, hoje em fase de construção. Existe, também, alguma bibliografia que trate dos problemas dos outros mundiais e de outros casos de corrupção  nos quais a entidade se envolveu. E esse parece ter sido um fator determinante nas suas quatro últimas escolhas. O que há de comum entre África do Sul, Brasil, Rússia e Qatar – em oposição aos derrotados Austrália, Inglaterra, Holanda/Bélgica/Luxemburgo e Espanha/Portugal – é uma infraestrutura subdesenvolvida e um regime político corrupto. A escolha da FIFA, necessariamente, passa por um Legislativo flexível o suficiente para aprovar algo como a Lei Geral da Copa, que cria exclusividades para estrangeiros, restrições a nativos e isenção tributária para a organizadora – que não coloca um centavo na festa. Cria, durante um mês, o cidadão FIFA, aquele que é credenciado e está acima de qualquer precariedade tupiniquim.

Sob as desculpas esfarrapadas do desenvolvimento regional e da integração nacional foram escolhidas 12 sedes de Norte à Sul, criando a Copa das maiores distâncias, quando até a FIFA recomenda que a Copa esteja em, no máximo, oito cidades. Questão de bom senso. É inacreditável mas, quando senadora, até Marina Silva pediu pela Copa em Rio Branco/AC. Supostamente, por todo o Brasil, a Copa promoveria o crescimento local e reduziria as desigualdades regionais. Pura hipocrisia. Senão, o mesmo empenho em distribuir a Copa teria sido visto na hora de discutir a repartição igualitária dos royalties do pré-sal, por exemplo, que representa muito mais recursos e já abrangeria todos os estados da federação de uma só vez.

Por outro lado, é verdade que as promessas da Copa realmente faltavam às 12 sedes e precisavam ser construídas. Ainda que também seja verdade que não faltavam menos hospitais e escolas no país inteiro. Mas, justiça seja feita, a segunda verdade não anula a primeira e, de fato, as cidades-sede tiveram ou terão ganhos, mesmo que a Copa chegue cedo demais para poder tirar proveito deles. Como disse o Ministro Aldo Rebelo em momento de confusão, a noiva sempre se atrasa para o casamento e mesmo assim ele é realizado. Comparação infeliz e mal feita, embora tenha razão em parte. Realmente, a noiva pode se atrasar. A questão é, justamente, que nessa Copa ela tem que esperar pela igreja com seus convidados.

Disparates públicos à parte, o dinheiro que foi deslocado para a Copa não compete com o de educação ou saúde, por exemplo, representando apenas 9% do que as três esferas de governo gastam com a primeira e 13% do que gastam com a segunda, segundo a Folha de S. Paulo. Não é como se os R$ 25 bilhões gastos com a Copa não pudessem fazer alguma diferença se fossem alocados de outra forma, sobretudo quando boa parte deles foram para estádios inúteis ou que não precisavam, de fato, das obras que receberam. O dinheiro da Copa faria diferença, mas também não é suficiente para quebrar a banca. Provocando o contribuinte, um estudo realizado pelo Sindicato dos Procuradores da Fazenda Nacional revela que o país deixa de arrecadar mais de R$ 500 bilhões ao ano com tributos sonegados, o suficiente para triplicar o investimento em Saúde, por exemplo, sobrando troco para quadruplicar o Bolsa Família.

A Copa não fez tanto estrago assim, muito embora tenha feito algum e deva ser escrutinada pela atuação dos tribunais de contas, ministérios públicos e quem mais quiser se intrometer, quando já não for, por natureza, caso de polícia. É certo, porém, que nenhum jogador da Seleção vai ser réu em nenhum processo. Então não há razão para confundir um time de garotos bacanas com o ranço por lideranças políticas decadentes. Inclusive, a experiência democrática desmente que conquistar a taça possa funcionar comprando votos, fazendo propaganda do regime, lavando cérebros etc. Torcer pelo Brasil é recomendável, sobretudo, ao maior oposicionista, já que tanto nas eleições pós-Tetra quanto nas eleições pós-Penta o resultado foi de mudança. E Lula foi capaz de vencer em 2002 mesmo com FHC presente na imagem mais marcante daquela comemoração, que é das cambalhotas do Vampeta, assumidamente bêbado, na rampa do Palácio do Planalto.

Sem moral e bons costumes, vaias e xingamentos estão liberados tanto quanto cachaça, para encarar qualquer alvo, mesmo sem critério ou coerência. Porque traiu a pátria, porque é corrupto, porque simulou um pênalti, tem cabelo engraçado, joga no rival ou no seu próprio time e é ruim. Qualquer motivo, verdadeiro ou não, basta tanto quanto a falta de motivos. Só o futebol pode oferecer esse nível de liberdade e falta de compromisso ao mesmo tempo. Afinal, o estádio é o único país que toda população abandona depois das eleições.

*Advogado formado pela PUC/SP e pós-graduando em Infraestrutura pela FGV/SP, com breve passagem pela FFLCH/USP durante a graduação. Foi atleta amador nas categorias de base do Esporte Clube Pinheiros e da Sociedade Esportiva Palmeiras.

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Categorias: Esporte, Opinião, Política

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3 Comentários em “Por que a Copa é aqui?”

  1. Pedro Jatene
    15/10 às 16:49 #

    obrigado, Anônimo!

  2. Anônimo
    22/06 às 17:23 #

    Resumindo, podemos sorrir ou soh quando tivermos todos os dentes da boca?

  3. Anônimo
    22/06 às 13:32 #

    Excelente texto. Sou um copista. Poderia perguntar, por que nao fazer a copa? Ou, devemos deixar de fazer carnaval ate que tenhamos um bom idh? Quem nao tem casa propria deve deixar de comemorar a vida ate que a tenha? Podemos investir recurso em pesquisa medica ou soh quando tivermos 100% de saneamento basico? Podemos ter universidade publica de ponta antes de acabar com o analfabetismo?
    A copa eh a copa, e que copa tem sido! O Grande erro das criticas sistematicas bem ou mal intencionadas foi achar q em oito anos por decreto ou com padrao estabelecido pela fifa nos tornariamos um pais desenvolvido…

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