Na área VIP | O grito melancólico de uma certa elite em extinção

Na área VIP. De Caetano Patta.

Na área VIP. De Caetano Patta.

O grito melancólico de uma certa elite em extinção

As vaias à Dilma são de melancolia. Elas trazem um pouco das vaias aos médicos cubanos negros, trazem um pouco do desrespeito de Rafinha Bastos com Wanessa e seu bebê, trazem um pouco do racismo de Danilo Gentili e sua falta de graça. As vaias à Dilma trazem um pouco da incomodada professora universitária vendo “seu” aeroporto virando uma rodoviária, trazem um pouco da segurança do shopping discriminando os funkeiros. As vaias à Dilma trazem um pouco do racismo de brasileiros com Marcelo e do racismo de espanhóis com brasileiros.

Dilma foi assombrada por um morto-vivo. Aquilo que vaiou Dilma ontem e chocou até mesmo quem torce o nariz para a presidenta é um retrato do passado que ainda está entre nós. Quem xingou Dilma foi um animal em extinção. E xingou aquela que, mesmo num processo contraditório, representa a devastação de seu habitat. A área VIP da FIFA não tem cotas. A área VIP da FIFA não tem ProUni. A área VIP da FIFA não tem crédito para ser acessada. A área VIP da FIFA não vê o Brasil como um país protagonista no mundo. A área VIP da FIFA é um cativeiro que abriga por um mês uma elite velha e moribunda, que rosna e xinga, desesperada com a perda de seus privilégios e de sua vitalidade.

Vale dizer: não estamos em vias de não ter mais altos e baixos, de não ter mais desigualdades. Mas o Brasil passa por um processo de modernização, que moderniza inclusive a sua desigualdade, reduzindo o espaço para os privilégios obscenos que marcaram os 500 anos de nossa história. A copa não representa o Brasil de hoje, representa o Brasil que nos vinhamos construindo há 10 anos atrás. O que explica, inclusive, alguns dos (muitos) desconfortos. Vivemos hoje com muitos problemas, mas o Brasil de hoje não é mais um país em que uns comem, enquanto uma multidão observa faminta. A copa ao vivo, com sua área VIP, por outro lado, nos lembra aquele país onde só entravam os brancos, ricos e onde as regras desciam de uma organização internacional, que tutela e saqueia, deixando migalhas à lambedores de botas.

Aquela área VIP deve ter lembrado bem aquela sala de embarque diferenciada que não existe mais. Aquela área VIP deve ter lembrado o gosto daquela universidade federal escandinava. Aquele “F” de “FIFA” deve ter remetido ao “F” do antigo FMI. E a vaia foi um grito sincero, rasgado e nostálgico de uma elite que vai perdendo seu lugar.

Eu quero mais é o Brasil das rodoviárias, o Brasil dos médicos que não têm cara de médico, o Brasil dos pobres diplomados. Esse Brasil está cheio de problemas para resolver, mas as vaias que apontam novas soluções vêm da rua e não da área VIP. Avançar, sim. Retroceder, jamais. Fora isso, o choro é livre.

*Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador.

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Categorias: Charges, Esporte, Política

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