Machado: decifra-me e me devore

Por Fábio Zuker*

Pois é, Machado de Assis está de volta aos debates públicos, tanto nas grandes mídias como nas redes sociais. Desta vez, a questão gira em torno do projeto financiado pelo Ministério da Cultura destinado a ”facilitar” a compreensão das obras do escritor para um público não acostumado a ler livros ”difíceis”.

Pretendo discutir aqui o tema, defendendo um ponto de vista diametralmente oposto daqueles que consideram que as adaptações às obras clássicas da literatura brasileira estariam promovendo uma falsa abordagem às obras. Todo o meu argumento desenvolve-se a partir de duas reflexões: do ponto de vista conceitual, busco questionar a lógica que subjaz afirmações de que poderiam existir grandes obras de artes verdadeiras e outras falsas, que deturpariam o acesso à magnificência das primeiras (o que significa conceber que alguém pode promover um falso Machado de Assis?). Do ponto de vista das políticas culturais recentemente apresentadas pelo Ministério da Cultura (MinC), acredito que exista uma coerência em pensar novas versões de obras clássicas e a descentralização do conceito de cultura proposto por alguns projetos do Ministério.

Essa posição que defendo baseia-se em questionamentos aos tradicionais conceitos de cultura utilizados no século XX, e que certamente fazem-se presentes em muitos dos comentários daqueles contrários ao projeto de adaptação – que teve a infelicidade de estar vinculado a palavra ”facilitar”, com certeza indevida e que enfraquece o debate.

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Em palestra dedicada a Marcel Proust, o historiador italiano Carlo Ginzburg (filho da escritora Natalia Ginzburg – primeira tradutora de Proust para o italiano) afirma, em determinado momento da palestra: para ser historiador, é necessário ser proustiano. Para Carlo, essa aproximação de sua profissão com o estilo de Proust tem, além do lado familiar, uma afinidade de método: o paradigma indiciário (detetivesco) como método de pesquisa histórica, é um procedimento análogo a investigação do narrador Marcel em relação a seu passado, e o modo como o reimagina e recria no presente. No final de sua fala sobre Proust, chama atenção para uma constatação feita pelo próprio escritor francês. Ao terminar Em Busca do Tempo Perdido, havia entendido que a língua não qual escrevera esse livro não existia mais. O historiador, e ousaríamos aqui dizer todo aquele que se preocupa por uma reflexão no campo das humanidades e das artes, deve estar sempre consciente de que as formas que utiliza, o pensamento que constrói, a maneira como vê e encara o mundo estão irremediavelmente fadadas a se transformarem, a ganharem outros sentidos em outros contextos e a se falsificarem com o passar do tempo histórico.

Esse caráter de tradução de uma obra em um novo contexto geográfico e histórico pode também ser pensada em um plano sincrônico. Umberto Ecco, em A Obra Aberta, sublinha que todo ato de leitura individual envolve a recriação da obra. Poderíamos também citar reflexões similares presentes no crítico literário Maurice Blanchot, ou no historiador Michel de Certeau: todos preocupados com a multiplicidade de sentidos criados pelas adaptações feitas durante o ato de leitura.

É essa noção de falsear que se encontra na origem das atividades culturais, um constante processo de interpretações e montagens de referências em outros contextos. Pretendo, assim, pensar o termo falsificar como algo positivo para entender dinâmicas culturais e projetos artísticos.

Muitos poderiam argumentar que existe uma grande diferença entre uma obra que permanece a mesma, e é reinterpretada e recriada com o passar do tempo, e a atitude voluntária de falsificá-la. Meu ponto consiste precisamente em dizer que não existe diferença alguma entre as duas atitudes, e que apenas uma visão purista de cultura poderia defender tal divisão.

O interesse humanístico desenvolvido primeiramente no quattrocento florentino e que depois espalhou-se pela Europa talvez seja o mais conhecido exemplo de falsificação produtiva. É Aby Warburg que coloca a questão em seus justos termos: que sentido atribuíam os florentinos a toda essa cultura greco-romana sobre a qual começavam a se debruçar, imaginando-se e passando a existir como descendentes e herdeiros dela?

Esforços foram feitos no sentido de interpretar aquele mundo passado, ao qual a Europa queria se identificar. Estátuas gregas que foram em seu tempo coloridas, eram refeitas sem cores, pois a pesquisa histórica não lhes permitia saber que um dia elas tiveram cores. A leitura de obras gregas traduzidas e compiladas durante a Idade Média (que em nada tinha de obscura, como pretende a narrativa oficial do Século das Luzes) traziam elementos que as falsificavam: de Homero à Aristóteles, o acesso europeu à grande parte de obras clássicas era mediado por tradutores e compiladores árabes, que inseriram muito de sua cultura e concepções de mundo nessas obras ”originais”. A maneira como o Ocidente se imagina como tal, está irremediavelmente imiscuida de elementos árabes propostos pelos compiladores e tradutores.

A tal ponto que é impossível, como defende Jorge Luis Borges, distinguir o Marinheiro Simbad das As Mil e Umas Noites do Ulisses da Odisséia. As Mil e Umas Noites, justamente,seriam outro exemplo de falsificação: tradutores para o inglês e francês viam-se incumbidos não apenas de tornar as obras inteligíveis em termos da cultura e tempo no qual seriam lidos, como também sentiam-se livres para criar suas próprias histórias, inexistentes no texto ”original”.

Ora, tudo isso faz muito sentido quando falamos de obras de um passado remoto, de uma cultura longínqua e desconhecida, mas não de um autor cuja toda obra está documentada, impressa e escrita na mesma língua dos leitores – argumentariam defensores dos textos intocados de Machado de Assis.

Seguramente, a palavra ”facilitar”, tal como foi veiculada pelos defensores e críticos do projeto, é extremamente infeliz. Não se trata de facilitar a obra para um público ignorante, mas de tornar acessível hoje uma linguagem que com relação ao contexto em que foi escrita era extremamente fluída. Obviamente, não se trata tampouco, como muitos acusaram a decisão do Ministério da Cultura, de substituir as palavras de todas as edições de Machado – o que seria um projeto absurdo – mas de realizar edições paralelas, com expressões atualizadas. Tal projeto, vale dizer, não é uma aberração do governo brasileiro, e é uma prática editorial recorrente em muitos outros países, como França, Inglaterra e EUA (países com um percentual de leitores muito maior que o Brasil).

Passemos assim para o ponto que diz respeito à política cultural do MinC a partir da gestão de Gilberto Gil. Acredito que o projeto de realização de versões atualizadas das obras de clássicos da literatura brasileira deva ser entendido no contexto de outras medidas adotadas recentemente pelo ministério, todas tentando questionar a identificação do conceito de cultura com o de ”alta cultura” (restrito a uma elite cultural). Tal preocupação levou a realocação de maiores incentivos financeiros e de status a práticas artísticas e culturais de origem afrobrasileira e indígena, por exemplo, que sempre receberam menos investimento e reconhecimento que aquelas de origem europeia – o que não significa uma melhoria na política de demarcação de terras indígenas (talvez muito pelo contrário…)

O questionamento da noção de cultura como atividade restrita a uma elite, fruto de uma árdua tarefa de labor intelectual, tem como correlata a atenção desenvolvida no campo intelectual as práticas culturais cotidianas, e não apenas grandes obras frutos do esforço de um artista. Interrogar esse lugar quase sagrado reservado ao grande artista é também a força motora da reorganização de muitas coleções de museus, como a do Reina Sofia, que tenta reduzir a importância de grandes obras como Guernica de Picasso, ao colocá-lo num contexto histórico preciso, lado a lado com esboços e notícias de jornais da época. Tirar de foco a obra do artista e a sua pretensa genialidade é uma chave interpretativa poderosa para questionar as narrativas oficiais da história da arte, que muitas vezes cometem o erro de hipostasiar a sacralidade da obra, impedindo uma compreensão crítica dos processos históricos e culturais mais gerais.

Assim, faço uma leitura completamente inversa a da minha colega de Gusmão a respeito do comentário do poeta e professor de literatura da USP, Alcides Villaça – que me parece condensar dois pontos fundamentais a serem rebatidos: a ideia de uma obra de arte como objeto sagrado (fruto de um esforço extraordinário) e sua intocabilidade1:

Quando a barbárie e a burrice se aliam, dá em iniciativas como essa. É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento. Outro absurdo é imaginar que a arte possa ser traduzida em linguagens outras que não as duramente conquistadas pelos grandes artistas, e que por isso passaram a ser um tributo à nossa inteligência e ao nosso prazer.

Adaptar Machado a uma linguagem atual pode ser um ótimo caminho para despertar o interesse de potenciais leitores para outros livros. O prazer de ler Machado perdeu-se diante de um vocabulário que muitas vezes caiu em desuso. Seguramente, versões paralelas as originais abrirão caminhos para outros leitores poderem ler o original.

A petição que circulou na internet é um cúmulo de contradições (vale a pena ler o texto proposto aqui). Com a demanda dirigida ao Ministério da Cultura para que ”impeça a alteração das palavras originais nas obras da língua portuguesa”, o texto se contradiz de tal modo que acaba defendendo o projeto do governo, quando afirma (lá no final) o MinC deixe claro que se tratam de obras com o texto alterado. Seguramente, a indicação de fazerem mil notas-de-rodapé não pode ser entendida como um convite aos não-habituados a leitura. Se clássica é a obra capaz de fazer-se presente em diferentes contextos históricos culturais, as adaptações dos clássicos são procedimentos ativos nessa constante reatualização. Trata-se, sim, de assassinar Machado de Assis, no sentido de que, toda leitura, toda atividade cultural, envolve uma modificação ativa daquilo que se queria estável: uma série de referências incessantemente atualizadas e remontadas em outros contextos. Adaptar Machado com uma linguagem atual é reconhecer o seu estatuto de clássico, a sua relevância hoje, e a abertura de novos caminhos para sua obra. Decifrá-lo hoje é poder devorá-lo.

1 Adoraria ter tempo e conhecimento suficiente para poder explorar o que acredito que seja a persistência de uma relação religiosa com o texto. Parece que o debate aqui mencionado atualiza em termos seculares uma problemática fundacional da experiência religiosa do Ocidente: o conflito entre grupos defensores da atualização do texto religioso em seus diferentes contextos e aqueles que propõem uma uma leitura minuciosa do texto a ser interpretado em seus próprios termos.

* Fábio Zuker é pesquisador e crítico cultural. Formado em Ciências Sociais pela FFLCH-USP faz seu mestrado em Arts et Langages pela École des Hautes Études en Sciences Sociales.

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Categorias: Cultura

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