Deixem Machado em paz!

Por Camilla Wootton Villela* 

Machado de Assis esteve em pauta nas últimas discussões sobre literatura brasileira devido a um projeto que visa a “facilitar” a leitura de grandes clássicos nacionais para democratizar o acesso à leitura num país que não lê. Mas a situação é tão complexa que merece uma avaliação mais cuidadosa, começando pela antipática palavra “facilitar”.

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(Foto: Exposição Machado de Assis no Museu da Língua Portuguesa | André Stolarski)

Foi anunciado no começo do mês passado o lançamento de um projeto idealizado pela escritora Patrícia Secco, com o apoio do Ministério da Cultura, que objetiva “descomplicar” clássicos da literatura brasileira para leitores que não estão acostumados a lê-los. A princípio, duas obras foram adaptadas, O Alienista, de Machado de Assis, e A Pata da Gazela, de José de Alencar[1], que juntos terão tiragem de 600 mil exemplares e serão distribuídos gratuitamente pelo Instituto Brasil Leitor neste mês de junho. A notícia, que não foi recebida bem por críticos e público, causou polêmica e gerou, até, um abaixo-assinado on-line contra o projeto. Mas, qual é o motivo de tanto alvoroço? Vamos tentar entender, antes, refletindo acerca de uma estranha disputa: purismo versus democratização da leitura.

O objetivo principal do projeto é doar livros para pessoas que não tiveram a oportunidade de estudar e que nunca puderam ter acesso a livros. A ideia, poderíamos pensar, vem a calhar se tivermos em vista a recente pesquisa sobre os hábitos culturais do brasileiro revelada pelo SESC[2]: de acordo com o levantamento, 58% das pessoas entrevistadas não leu nenhum livro nos últimos seis meses e os que leram (42%) possuem média de livros lidos neste mesmo período de apenas 1,2. No entanto, será que a adaptação de clássicos é a melhor maneira de fazer com que esses livros cheguem até os leitores mais necessitados? Afinal, que tipo de leitor o Brasil quer formar? Um leitor “facilitado”?

É claro que a prática de adaptações é bastante comum no mundo editorial. E muito aceita, claro, quando bem feita. Adaptar uma obra para outros gêneros, como um filme ou uma HQ (aliás, Machado é um dos campeões de adaptações para os quadrinhos), é natural e riquíssimo para estabelecer diálogos entre a obra original e essa releitura – não há nada mais válido do que um bom diretor adaptando um bom autor, por exemplo. No entanto, o problema do projeto de Secco é que não há alteração no formato, apenas uma ruptura com a linguagem. E a intenção de sua idealizadora de promover a cultura por meio da leitura de um Machado enlatado só aliena ainda mais nosso Alienista, pois não atua eficientemente na apropriação, por parte desses novos leitores, de um formato que não faz parte do seu cotidiano. Dessa forma, nada – ou quase nada – se amplia.

Vejamos alguns exemplos no conto O Alienista, que trabalha basicamente com o uso de sinônimos que empobrecem orações e inversões que rompem a cadência da obra: “sagacidade” virou “esperteza”; “mal composta de feições” virou “feiosa”; “condições” virou “características”; “meu emprego único” virou “meu único emprego”.

Além disso, a adaptação também modificou diversas pontuações que, em se tratando de Machado, é assassinar a própria obra. Como bem lembra a respeitável professora de literatura da PUC-SP, Maria Rosa Duarte[3]: “a pontuação machadiana tem um ritmo […]; o ritmo é a respiração do texto”.

O que ocorre, então, é que pretendem passar a esses leitores um falso Machado; um Machado que não é o Machado que conhecemos há mais de cem anos, o que vai totalmente contrário à proposta de um texto literário, pois perde o tom do discurso. Em literatura, afinal, não importa o que será dito, mas como será dito, e o estilo machadiano para abordar questões da sociedade do século XIX é indiscutível. Intocável.

Por isso, não se trata de um mero purismo da língua. Trata-se de um efeito de sentido, trata-se de arte, trata-se do maior nome da literatura brasileira. Assim, a autora, com essa adaptação lânguida de sua equipe, parece querer ser Machado. Sem, no entanto, nunca conseguir sê-lo. Pra cima do nosso Bruxo do Cosme Velho?

É evidente que não nos esquecemos do número, triste, de leitores no Brasil. Mas talvez exista um caminho mais eficaz à democratização do acesso à literatura do que o projeto de “facilitação” de autores clássicos. Porque ninguém precisa de leituras facilitadas. Afinal, o Brasil quer formar leitores críticos e aptos a lerem literatura, dos cânones do Romantismo e do Realismo aos movimentos de literatura marginal.

Vale lembrar que o projeto tem apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, a Lei Rouanet de isenção fiscal, e teve incentivo do governo de um milhão de reais. Será que não existiriam outras formas de aplicar esse dinheiro em projetos mais eficientes? Em projetos menores, como o Leitura Alimenta, que recebe doações de livros para incluí-los em cestas básicas e o Esqueça um Livro, que convida leitores a “esquecerem” livros pela cidade de São Paulo, por exemplo. Ou, também, projetos maiores, como o Movimento por um Brasil Literário, incentivado pelo saudoso Bartolomeu de Campos Queirós e até o PROLER – Programa Nacional de Incentivo à Leitura, projeto que valoriza a leitura e a escrita e está vinculado à Fundação Biblioteca Nacional e ao Ministério da Cultura.

Querem mais?

Patrícia Secco, em entrevista à Folha[4], disse entender o motivo dos jovens não gostarem de Machado de Assis, pois “os livros dele têm cinco ou seis palavras que [os jovens] não entendem por frase”. Acrescentou, ainda: “As construções são muito longas. Eu simplifico isso”. Simplifica? Mas quem disse que a obra de Machado está aí para ser simples? Cada palavra escolhida em literatura não está ali por acaso. Inclusive, nunca esteve, e essa é uma oportunidade incrível para o leitor, jovem ou mais experiente, enriquecer seu vocabulário e observar as diversas possibilidades da língua, que é viva e histórica. Ou vocês acham que é fácil ser Machado de Assis?

O poeta e professor de literatura da USP, Alcides Villaça foi certeiro ao publicar em seu Facebook:

Quando a barbárie e a burrice se aliam, dá em iniciativas como essa. É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento. Outro absurdo é imaginar que a arte possa ser traduzida em linguagens outras que não as duramente conquistadas pelos grandes artistas, e que por isso passaram a ser um tributo à nossa inteligência e ao nosso prazer.

Villaça também apontou, em entrevista ao Globo News[5], que se a questão for financeira, os textos de Machado estão disponíveis grátis na internet. Assim, para começar a ler Machado (o verdadeiro), o leitor pode consegui-lo em sites como o da Academia Brasileira de Letras[6] e do Domínio Público[7], originais, digitalizados e gratuitos.

Portanto, a grande missão de incentivar o brasileiro a entrar no fascinante mundo da leitura é dura, mas não impossível. Sem dúvidas, políticas mais pontuais que ajam ao lado da educação pública, partindo da educação básica, e a disseminação de bibliotecas principalmente para as periferias das cidades são necessárias, assim como o incentivo à leitura dentro de casa, desde os primeiros anos de vida, e o uso de dicionários em termos mais “complicados” (já que os idealizadores do projeto parecem gostar dessa palavra). Mas não com um projeto que quer adaptar grandes autores como Machado de Assis e José de Alencar de maneira imprópria e desnecessária.

Se o caro leitor teve curiosidade de consultar o dicionário, ou se já conhece a história de O Alienista, saberá que diz respeito a um especialista em doenças mentais. Nada mais adequado. Estão todos muito loucos. Mesmo.

[1] O Projeto Livro e Leitura para todos já disponibilizou on-line as duas obras citadas: http://www.reciclick.com.br/biblioteca-digital

[2] Ver em: http://www.sesc-se.com.br/noticias/752-pesquisa-inedita-revela-habitos-culturais-do-brasileiro

[3] Ver em: http://videos.r7.com/professora-comenta-polemica-sobre-simplificacao-de-obras-de-machado-de-assis/idmedia/537ab0410cf25d76f2482f3a.html

[4] Ver em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cidadona/2014/05/1445858-escritora-muda-obra-de-machado-de-assis-para-facilitar-a-leitura.shtml

[5] Ver em: http://g1.globo.com/globo-news/literatura/videos/t/todos-os-videos/v/escritora-fala-sobre-polemica-adaptacao-de-o-alienista/3351879/

[6] Ver em: http://www.machadodeassis.org.br/

[7] Ver em: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp

Camilla Wootton Villela é formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Desenvolve pesquisa na área de Jornalismo Literário e Português como Língua Estrangeira (PLE). É professora, revisora de textos, escritora e uma das idealizadoras do Projeto Vão.

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Categorias: Cultura, Opinião

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