O Velho Continente afogado em velhas ideias

por Fábio Zuker, de Roma*

Diante da ascensão da extrema direita em países centrais como França e Inglaterra, do sentimento de eurofobia e de xenobia promovido por movimentos nacionalistas, e inclusive da vitória de pequenos partidos neonazistas, as eleições para o Parlamento Europeu parecem mostrar uma mudança que há muito se anunciava na política europeia.

Vivi na Europa durante dois períodos diferentes. Na realidade, vivi um ano na França, entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2012, enquanto fazia um intercâmbio pela USP, e estou novamente vivendo por aqui, fazendo um mestrado em Paris desde setembro de 2013. Certamente, as minhas impressões da vida no Velho Continente mudaram substancialmente desde a primeira vez que pisei aqui, há mais ou menos três anos e meio. Mudou a minha posição social: de estudante de graduação com uma bolsa da universidade e auxílio moradia do governo para um estudante de mestrado sem bolsa, trabalhando a noite em bares. Mas acredito que mudou também a percepção social e política de jovens europeus, nos últimos três anos, diante da ascensão da direita e da ausência de perspectivas futuras, que se resume na frase tantas vezes proferida: ”minha vida não será melhor do que a da geração de meus pais”.

Minha análise do resultado dessas eleições europeias se concentra sobretudo no caso da França, com algumas pitadas sobre os contrastes e semelhanças com a Itália, países em que vivi por mais tempo, e de onde a maior parte dos amigos com os quais travei relações são provenientes – em ambas vezes que por aqui estive.

Talvez a melhor frase que encontrei, capaz de condensar as tensões vivenciadas na França, hoje tenha sido pronunciada por um amigo francês, cuja família é originária de outros países e que trabalha em uma instituição financeira em Londres: ”Tem um ambiente de fim de império, decadência. E também eu sinto como se eu fosse parte de um mundo que não existe mais. Por minhas origens e pelos valores cosmopolitas que tenho. E pra mim, a França é um caso grave, mas podia se fazer uma observação mais geral de toda Europa”.

 

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Para aqueles que ainda acreditavam que nacionalismos e questões étnicas eram problemas ultrapassados, próprios ao século XX, esse último domingo 25 representou um verdadeiro tapa na cara: a Europa viu, atônita, a ascensão de partidos neofascistas como o UKIP britânico e o Front Nationale fancês. Partidos nacionalistas de direita também receberam muitos votos em quase todos os países, e os neonazistas Auba Dourada grega e o Jobbik húngaro obtiveram, respectivamente, dois e três deputados no Parlamento Europeu. Em suma, são 20% das cadeiras do Parlamento Europeu que encontram-se repartidas entre deputados de extrema-direita, prevalecendo entre eles uma tendência generalizada de eurofobia (daqueles que veem com reticência o projeto de unificação europeia) e, de modo nada contraditório, de xenofobia (daqueles que querem impor leis anti-imigração).

Na Itália, porém, um cenário muito diverso, em que o atual governo de transição, cuja maioria é do Partido Democrático, a centro-esquerda de Matteo Renzi (equivalente ao Partido Socialista francês, do presidente François Hollande), obteve também a grande maioria dos votos (41%), e o popular Beppe Grillo, que se diz para além da esquerda e da direita e propõe uma cruzada contra a corrupção em seu país, obteve 21%. Apesar de ser considerado como inclassificável no espectro político, disse a a senadores de seu partido que pretendiam suprimir o delito de ”imigração ilegal” : ”Quantos imigrantes podemos acolher se um italiano a cada oito não tem meios para comer?”, . A Itália também viu serem eleitos membros do partido separatista de extrema-direita Lega Nord, entre eles verdadeiras aberrações como Borghezio, famoso por declarações antissemitas e por ter afirmado que as forças armadas italianas deveriam atirar para afundar os navios de imigrantes que chegavam a sua costa.

Vale também mencionar que na Espanha e em Portugal, países muito castigados pela crise e cujo governo são formados por uma ampla maioria de direita, foram eleitos mais parlamentares de esquerda do que de direita.

Unidos os franceses são invencíveis”/

Com este logo, o Front National, partido neofascista, chega à liderança da representação francesa no Parlamento Europeu. Que possíveis interpretações podem ser feitas de um partido que se elege com a grande maioria dos votos nacionais (com 25% do total de votantes) promovendo a saída da França da União Européia e da Zona Euro?

A resposta a essa pergunta, que talvez sirva de atalho para pensar o que acontece na França hoje, implica numa dupla análise: por um lado, as mudanças ocorridas dentro do próprio Front National. De outro, a desconfiança generalizada da população diante da possibilidade da centro-esquerda, representada no cenário político francês pela frágil figura do presidente François Hollande, propor uma solução factível ao problema da crise econômica.

Em primeiro lugar, Marine Le Pen não é Jean-Marie Le Pen. Filha e pai compartilham crenças nacionalistas, como a maior autonomia da França diante da União Européia, a restrição imigração, entre outros temas cuja solução proposta sempre vem de um ponto de vista conservador. Se Jean-Marie assustava os eleitores com um discurso radical, abertamente fascista e antissemita (foi condenado diversas vezes a pagar indenizações por suas declarações antissemita e chegou a afirmar,quando detinha um mandato de deputado no Parlamento Europeu, que as câmaras de gás eram apenas um pequeno detalhe na história da Segunda Guerra Mundial), sua filha, Marine, defende causas conservadoras embora faça de tudo para se desvincular da postura agressiva. Nesse ano de 2014, por exemplo, Marine entrou em um processo legal de difamação contra Jean Luc Melenchon, presidente do Front de Gauche, por havê-la chamado de fascista.

Sem nenhuma dúvida, a imagem mais palatável de Marine é um atrativo para eleitores que antes nunca pensaram em votar no Front National, como por exemplo imigrantes que obtiveram a cidadania francesa e que veem os postos de trabalho que possuem ameaçados pela nova onda de imigrações ilegais. Mas esse fenômeno de mascarar o radicalismo de direita do partido não é em nada consistente: tão logo foram eleitos prefeitos do Front National, anunciaram que nas escolas municipais sob a jurisdição do partido a única carne a ser preparada na cantina seria a de porco, excluindo crianças judias e muçulmanas do refeitório – tal decisão administrativa em nada se difere das Leis de Nuremberg, no que diz respeito à intervenção corporal por parte da administração estatal com finalidades de excluir um grupo religioso.

A cruzada nacionalista de Le Pen, sob a égide do discurso ”unidos os franceses são invencíveis”, obteve resultados inéditos e assustadores. Mas nem todos os partidos políticos de direita estão preocupados na esterilização da sua imagem, como os neonazistas gregos e húngaros. Essa heterogeneidade da nova direita europeia em ascensão é também um impeditivo para as possíveis alianças. O UKIP britânico e a direita nórdica receiam uma aliança com o Front National, devido à imagem racista e antissemita cultivada por anos pelo partido. Por outro lado, o próprio Front National se recusa a fazer alianças com os neonazistas, visto que quer se distanciar dessa imagem.

Entretanto, essa é apenas parte da hipótese: as mudanças nas expectativas gerais da população francesa com relação a seu futuro parecem ter criado todo o ambiente para a ascensão do Front National; apenas a pedra de toque de uma situação muito mais enraizada na história do que se imagina.

As cruzadas moralizantes/

Enquanto fazia meu mestrado em Paris, os últimos três domingos seguidos em que estava na cidade foram marcados por grandes manifestações de direita: contra a aprovação do casamento gay, contra aquilo que no debate nacional ficou estupidamente marcado pelo nome de ”teoria do gênero”, a favor da revogação da lei do aborto, entre outras pautas conservadora. Uma verdadeira cruzada moral, organizada e reinvindicada sobretudo por jovens, e que abriam espaço para todos os tipos de manifestações antissemitas, anti-imigrantes e antiesquerda.

Foi na semana imediatamente posterior a essa série de manifestações que moviam a cidade toda, que terminei minhas matérias obrigatórias e resolvi ir embora: o clima de tensão era muito pesado, e a sensação de que se estava afundando, de que se adentrava cada vez mais em uma espécie de beco sem saída, era muito angustiante.

De um certo modo, a frase pronunciada pelo meu amigo continha algo daquilo que eu sentia. Se a França havia conseguido criar o mito para si mesma de um Império, de uma potência mundial sobretudo no campo cultural, a sua decadência no plano econômico significa também o desaparecimento daqueles que sempre se opuseram de maneira radical a esse projeto. A impressão hoje é diametralmente oposta daquela do início do século passado: a Paris que atraia intelectuais e artistas devido ao ambiente rico em ideias liberais deixou espaço para uma França retrógrada, em que qualquer medida de atualização de legislação vem acompanhada de uma reação violenta daqueles que sentem ter perdido algo definitivamente.

Um país que se confronta hoje com as realidades que subsistiam à ilusão que criara de si e para si. Historicamente, a França nunca reconheceu a existência de um governo fascista como o de Pétain, e muito pouco se fala da colaboração. O espaço público faz questão de assegurar o lugar de De Gaulle (um general que sequer participou do Dia D e manteve sua esfera de poder por duas décadas) e dos mártires e vítimas, esquecendo-se dos colaboradores e tratando o nazismo como um problema exclusivo do invasor alemão. A capacidade de mascarar erros históricos está, na minha opinião, na origem da sensação de desespero que se vive no país: é evidente o descompasso de um passado construído apenas a partir de adjetivos qualificativos chocando-se com o desespero de um presente e futuro que se veem perdidos. Quanto maior a imagem do passado que se cria, maior a vertigem diante da queda.

A ineficácia das propostas políticas, e falta de entusiasmo e expectativa da população com relação a possíveis mudanças é também um traço em nada negligenciável. A sensação que tenho é a de uma fotografia que por muito tempo manteve-se em vigor, e que começa a destroçar-se de modo irremediável. Diante dessa queda, diversas linhas políticas do século XX tentam rejuntar os pedaços desse quebra-cabeças, tentando recompô-lo, sem espaço para nenhuma nova composição. Essa, talvez seja uma imagem que tem pontos que podem ser expandidos para outros países da Europa Central e Ocidental: a socialdemocracia (os chamados partidos de centroesquerda) tentam lutar pelo reestabelecimento do Estado de bem estar social, colocado em cheque desde os anos 80 (Reagan e Thatcher); a centrodireita (ou neoliberais), continuam defendendo o modelo de reformas imposto desde a década de 80, em que a redução da intervenção estatal se reatualiza diante a pretensa necessidade da política de austeridade; extremadireita e extremaesquerda reencenam conflitos ideológicos tradicionais do pré-Segunda Guerra Mundial.

Nesse cenário parecem existir poucas ideias novas, pouco espaço para uma política que fuja das mesmas cartas marcadas permanecem em jogo há pelo menos 30. A figura de Melenchon,do Front de Gauche parece-me ainda a mais atraente, pelo menos do ponto de vista da coerência de suas posições e declarações – vale sempre deixar claro.

A chamada centroesquerda (o Partido Socialista do presidente Hollande) tem ganhado antipatia crescente da população, diante de medidas de inovação tímidas (como a ampliação da categoria de família, a implementação de cartilhas de orientação sexual que fujam do modelo heteronormativo e a dinamização da economia), mas que recuam diante dos menores protestos.

O único outro partido que apresenta uma proposta coerente entre os termos que propõe é o Front National e daí o seu apelo e perigo. Centrado em um conservadorismo exacerbado, ganha peso na representação a nível europeu, e junto com o UKIP britânico são os mais assustadores, por promoverem um tipo de nacionalismo e chauvinismo que há muito se imaginou extirpado do continente.

Angela Merkel disse, em determinado momento, quando rebatia críticas céticas ao processo de ”modernização” neoliberal proposto por ela, que essas eram questões pertinentes na velha Europa, e que hoje estaríamos diante da nova Europa. Ao contrário do que preconizou a premiê alemã, velhas ideias continuam protelando o antigo.

* formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP). Atualmente é mestrando em Artes e Linguagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e gestor cultural na área de arte contemporânea.

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2 Comentários em “O Velho Continente afogado em velhas ideias”

  1. 02/06 às 17:15 #

    Adorei o texto, Fabio.
    Você escreve de uma maneira muito gostosa.
    Me trouxe um resumo da situação europeia que muitos jornais não conseguiram me alcançar.
    Parabéns!

  2. 01/06 às 10:45 #

    Republicou isso em reblogador.

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