Sobre macacos e bananas

Por Pedro Jatene*

Torcedora imita macaco em frente a Koné, do Racing Santander (Foto: Cristina Busquets / Esport3)

Torcedora imita macaco em frente a Koné, na Espanha (Foto: Cristina Busquets / Esport3)

Daniel Alves precisava ter colocado um pouco mais de rock no ato da banana para transformá-lo num protesto contra o racismo sem a ajuda de ninguém. O jogador simplesmente pegou a banana e dela comeu metade, com pressa, para cobrar quanto antes o escanteio a favor do Barcelona, que perdia de 2 a 1 do Villarreal. Tudo o que faltou na performance do lateral da Seleção foi exatamente o espetáculo que  sobrou na ação de marketing promovida pelo seu colega de time e dos mais valiosos garotos propagandas do planeta. Foi sendo mal assessorado por renomados profissionais da publicidade brasileira que o atacante prodígio, de apenas vinte e dois anos, disparou, com seus superpoderes de mídia, uma mensagem toda sorridente contra o racismo, dizendo, no fundo, que negros são mesmo macacos. Nem a mesma equipe publicitária consegue explicar como é que ofender um negro de macaco transformou brancos e negros em macacos se, em primeiro lugar, já era absolutamente proibida a entrada de macacos nessa história antes mesmo de ela começar.

Naquele final de semana, o basquete profissional dos Estados Unidos também foi boicotado por uma manifestação racista enquanto iniciava sua fase mais decisiva. Em questão de horas, todos os noticiários do país reproduziam uma conversa telefônica tida entre o dono do Los Angeles Clippers e sua namorada, na qual o milionário de oitenta anos a proibia de aparecer publicamente ao lado de negros. “Não tem problema dormir com negros, só não pode tirar foto ao lado de negros e nem trazer o Magic Johnson (um dos maiores de todos os tempos) para assistir aos jogos do Clippers”, disse Donald Sterling. Da noite para o dia, logo na primeira fase de playoffs, a liga cujos atletas negros representam mais de 80% estava assumidamente lidando com um dono de time notoriamente racista. E o Los Angeles Clippers, treinado e liderado por jogadores negros, se preparava para encarar a rivalidade californiana com o Golden State Warriors dormindo com esse barulho.

Desordenadamente e sem parar, todas as grandes estrelas do basquete se manifestaram sobre o assunto nos mais diversos veículos de comunicação tão logo a notícia havia se espalhado. Kobe Bryant twittou curto e grosso que jamais jogaria no time do Sr. Sterling. LeBron James respondeu ao vivo, no fim de um jogo do Miami Heat, que não existe lugar para pessoas como o Sr. Sterling na NBA. Até Michael Jordan, hoje dono do Charlotte Bobcats e especialista em se esquivar da imprensa, fez questão de soltar o verbo. Ex-jogadores e comentaristas pediam em massa no horário nobre americano que a liga aplicasse uma pena severa, honrando seu extenso estatuto que, dentre tantas infrações, prevê até multa aos atletas que dirigem comentários homofóbicos à árbitros e adversários.

Enquanto a internet se enchia de fotos de atletas e artistas brasileiros comendo bananas em protesto ao racismo cada vez mais frequente nos campos de futebol mundo afora, a associação dos jogadores profissionais da NBA, presidida justamente pelo armador negro do Los Angeles Clippers, Chris Paul, exigia publicamente das autoridades da NBA a apuração imediata do assunto. Ao mesmo tempo, quando perguntado, no Fantástico, sobre racismo no futebol mundial, o técnico branco da Seleção Brasileira dizia ser favorável à medidas “contra essas atitudes”, mas que “não se deve dar muita ênfase ao tema”. Como se fosse possível tomar qualquer medida contra o racismo ignorando que ele existe. E como se encobertar racismo não fosse racismo por si só.

Se a Presidente Dilma apareceu no Twitter para defender a igualdade entre os homens e dizer que comer banana é uma resposta ousada para o racismo, o Presidente Obama fez de Michael Jordan o coadjuvante que este nunca tinha sido, quando intimou a NBA, em rede nacional, a tomar uma atitude radical diante do problema. Naquele mesmo dia, em que a página do Clippers na internet substituía as cores tradicionais do time pelo preto, os jogadores entraram em quadra vestindo seus uniformes do avesso. No dia seguinte, o pronunciamento oficial da NBA: Donald Sterling fora banido da liga e deverá pagar multa de U$ 2,5 milhões.

Claro que a NBA só pôde expulsar o dono do Clippers porque sua própria regulamentação, muito bem desenvolvida entre atletas, dirigentes e especialistas variados, previa a hipótese de banimento para atitudes consideradas extremamente prejudiciais ao esporte – o que a FIFA não tem, nem de longe. Todavia, o Clippers é uma propriedade privada como outra qualquer e, protegida constitucionalmente, não pode ser tomada de assalto. Expulsar o Sr. Sterling da liga significa obrigá-lo a vender o time que adquiriu há mais de trinta anos e já está avaliado em U$ 575 milhões – o que não é nada mal para um castigo.

Mas a NBA não está preocupada se o Sr. Sterling vai continuar milionário ou se vai desperdiçar todo o seu dinheiro sofrendo pela venda do Clippers. A NBA está preocupada com ela própria, com sua posição de referência em profissionalismo e excelência, onde os únicos atletas que não cursaram ensino superior são estrangeiros ou, então, em raríssimas exceções, norte-americanos que já eram bons demais na adolescência para aguardarem até a faculdade. Foi pelo que a NBA representa que Kobe Bryant foi multado em U$ 100 mil quando uma câmera o flagrou chamando de gay o árbitro com o qual reclamava de um lance. Pelo que a NBA não deseja representar é que Donald Sterling foi obrigado a vender o Clippers e pagar uma multa. Por já ter assumido algumas responsabilidades perante a sociedade é que a NBA, muito bem organizada, não admite que absolutamente ninguém trate de racismo com macacos e bananas.

*Advogado formado pela PUC/SP e pós-graduando em Infraestrutura pela FGV/SP, com breve passagem pela FFLCH/USP durante a graduação. Foi atleta amador nas categorias de base do Esporte Clube Pinheiros e da Sociedade Esportiva Palmeiras.

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Categorias: Esporte, Opinião, Sociedade

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3 Comentários em “Sobre macacos e bananas”

  1. fabio
    26/05 às 13:58 #

    Pura verdade, muito bem escrito..
    Abraço

    Fábio Boturão

  2. Anônimo
    25/05 às 21:34 #

    O anonimo acima sou eu, leleh!

  3. Anônimo
    25/05 às 21:33 #

    Homens brancos nao sabem enterrar e o mundo do futebol nao sabe se posicionar. Muito bom, peter tony parker!l

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