A Ucrânia além das cortinas de fumaça

Parte I – Mil anos de história: a Ucrânia em algumas páginas

Por Maurício Santo Matar*

O confronto no leste europeu é um evento extremamente relevante para a política internacional, porque se trata de um conflito complexo que opõe duas forças mundiais (Rússia e potências atlânticas) em um local estratégico. Cada lado acusa o outro das piores posições possíveis: fascismo e racismo. O mundo ocidental acusa Putin e a Rússia de um verdadeiro Anschluss (nome dado à anexação da Áustria por Hitler, que denota o tom usado pelo ocidente contra a Putin), a Rússia acusa o movimento de golpe de Estado. Num conflito tão drástico e polarizado, torna-se evidente que as versões que emergirão serão bastante extremadas, os apoiadores dos dois lados falam como se estivessem numa luta feroz contra o mal.

Considero esse um debate relevante porque o Brasil terá que tomar uma posição sobre a questão, ao menos sobre o que ocorreu na Crimeia, além de ser importante que nosso país se posicione de alguma forma, já que almeja uma posição de maior destaque na comunidade internacional. Para isso, é importante que os brasileiros conheçam o tema e o compreendam, para pensar em qual postura seria mais adequada.

Por esse motivo minha participação nesta e na próxima edição serão dedicadas a analisar a crise na Ucrânia, num artigo divido em duas partes. O que é publicado hoje trata da história geral do país até o triunfo da Revolução Laranja, antecedente direto da crise atual. O da próxima edição abordará desse ponto até os dias de hoje, após os quais farei breve análise e exporei minha opinião.

Entendo que para compreender a crise atual é fundamental entender como se formou aquele país, para entender as diferenças internas, que são o cerne do que ocorre nos dias atuais. Essa primeira parte buscará apresentar esse contexto.

O que se chama hoje de Ucrânia tem origem no Estado chamado Kievan Rus, uma federação de tribos eslavas formadas por cavaleiros russos que vieram de Novgorod no século IX depois de Cristo e se estabeleceram em Kiev. Esse império é reconhecido por ucranianos, russos e bielorrussos como a origem de suas nações, evidenciando a grande conexão histórica e cultural entre elas.

O Kievan Rus durou do século IX ao século XIII e foi uma era de ouro para o que hoje é a Ucrânia, se tornando um Estado culturalmente avançado e militarmente poderoso. Ele entrou em decadência a partir do século XIII, sendo conquistado pela Polônia-Lituânia no século XVI. A conquista, porém, durou pouco com a Revolta dos Cossacos (retratada na obra Taras Bulba, do ucraniano Nikolai Gogol) que se iniciou em 1648 e consolidou-se nove anos depois. Os cossacos se organizavam de forma democrática, tomando as decisões em assembleias – o nome “cossaco” significa “homens livres”.

Cossacos escrevem o ultimato ao Sultão do Império Otomano, 1676. ("Resposta dos Cossacos Zaporozianos", óleo sobre tela de Ilya Repin, 1891)

Cossacos escrevem o ultimato ao Sultão do Império Otomano, 1676. (“Resposta dos Cossacos Zaporozianos”, óleo sobre tela de Ilya Repin, 1891)

Após expulsarem os poloneses, os ucranianos formaram o Hetmanado (referência ao hetman, seu líder), um Estado que se chamava oficialmente Horda Zaporozhiana[2], uma das primeiras repúblicas da história moderna. Nesse período, o hetmanado se aliou inicialmente à Rússia, mas manteve sua autonomia.

Não obstante, foi um período difícil: de 1649 a 1764 os cossacos tiveram que enfrentar diversas invasões dos turcos, poloneses e austríacos. A perda da autonomia se deu no século XVIII, quando o hetman decidiu reverter as políticas de seus antecessores e se virar contra a Rússia, aliando-se à Polônia-Lituânia e à Suécia na Grande Guerra do Norte [3] (conflito entre 1700 e 1721 que opôs a Rússia e a Suécia na disputa pela hegemonia na região).

Foi um desastre. Os russos de Pedro, o Grande venceram o conflito e exilaram o hetman, marcando o fim da autonomia da Ucrânia e sua anexação ao Império Russo. Uma revolta dos cossacos foi tentada entre 1768 e 1769, mas sem sucesso. Em 1783, a Rússia anexou a Crimeia, que foi colonizada por russos e ucranianos. Na península, Catarina, a Grande fundou Sebastopol como sede da frota russa do Mar Negro.

Apesar de dominados militarmente e da revolta suprimida, o Império Russo prometeu – e apenas prometeu – autonomia aos cossacos. Dessa forma, foram acumulando-se ressentimentos no país, reforçados pelo fato de que a Ucrânia foi largamente ignorada pela Rússia no século XIX, com exceção da Crimeia, onde foram construídas diversas estruturas para apoiar a frota do Mar Negro, fundamental às aspirações imperialistas da Rússia.

Por outro lado, uma porção do território ucraniano, a chamada Galícia, situada no oeste do território atual, fora anexada ao Império Austro-Húngaro [4] com a derrota dos ucranianos e poloneses na Grande Guerra do Norte. O território, por ser economicamente pouco interessante, foi deixado relativamente livre pelos austríacos, sendo governado pelos próprios locais e se tornando um centro da cultura tradicional ucraniana. Isso explica bastante as diferenças culturais atualmente existentes no país, tal como o fato dos habitantes do oeste falarem a língua ucraniana e os do leste e do sul falarem russo, também a identificação dos habitantes ocidentais se identificarem geopoliticamente com a Europa e os orientais com a Rússia.

O século XIX viu o surgimento do nacionalismo ucraniano. A partir das cidades de Lviv e Ivano-Frankivsk, situadas na porção do território sob domínio da Áustria, a elite intelectual ucraniana organizou um movimento de renascimento nacional, com o surgimento de partidos nacionalistas e socialistas nessas regiões. O Império Austro-Húngaro não se preocupou em conter esse movimento, que se espalhou pelo território sob domínio russo.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial e o colapso dos impérios austro-húngaro e russo, o nacionalismo cultivado no período anterior floresceu e foi criada a República Popular da Ucrânia [5], abrangendo os territórios anteriormente de domínio russo e austríaco. Esses últimos conquistaram sua própria independência em um levante de um regimento ucraniano do exército imperial, optando por entrar na República Popular em 1918.

Porém, a república teve vida curta em meio aos conturbados acontecimentos. Com a tomada do poder pelos bolcheviques e a subsequente guerra civil, a República Popular lutou a revolução, enquanto duas forças rivais, concentradas no leste e no sul, apoiaram o governo revolucionário: os bolcheviques e os anarquistas.

É relevante pontuar que a região da bacia do rio Don, chamada de Donbass, foi um dos únicos exemplos de território organizado de forma horizontal, de acordo com o pensamento anarquista. O “Território Livre” durou de 1918 a 1921, tendo combatido a República Popular e os invasores poloneses e alemães da intervenção multinacional contra a Revolução Russa. Os bolcheviques proclamaram uma república soviética em 1919 e inicialmente lutaram ao lado dos anarquistas contra a república.

Em 1921, os bolcheviques conquistaram a totalidade da Ucrânia, suprimindo a República Popular e o Território Livre. Surgia assim a República Socialista Soviética da Ucrânia.

Durante as décadas de 1920 e 1930, sob domínio soviético, a Ucrânia viveu uma catástrofe humana de grandes proporções: a fome, que matou entre 2,4 a 7,5 milhões de ucranianos. Muitos no país afirmam que essa fome, chamada de Holodomor, foi provocada intencionalmente por Stalin [6], a fim de enfraquecer os camponeses que eram um poderoso foco de resistência contra os soviéticos. A agência de notícias ucraniana Interfax apurou que dois terços da população acreditam que a fome foi provocada.

A Segunda Guerra Mundial trouxe mais miséria e destruição para a Ucrânia [5], invadida pelo rolo compressor nazista em 1941 – apesar de que, inicialmente, muitos ucranianos tenham pensado que o exército alemão fosse libertá-los. É dessa época um dos personagens mais polêmicos lembrados na atualidade: Stepan Bandera. Originário da região oeste da Ucrânia, Bandera criou uma milícia anticomunista, chamada Exército Insurgente Ucraniano (UPA), cujo objetivo era recriar a Ucrânia independente. Essa força foi acusada de ter colaborado com a invasão nazista e de ter massacrado civis judeus, poloneses e russos, não obstante seus seguidores negarem e afirmarem que as acusações eram fruto da propaganda soviética.

Depois de assumirem o controle da Ucrânia, em julho de 1941, os nazistas submeteram o povo ucraniano ao mesmo terror que submeteram outros povos conquistados: humilhação pública, assassinato em massa, torturas e deportações (nem mesmo os membros do UPA foram poupados). Seguiram-se duras batalhas no país para expulsar os nazistas, com ucranianos do oeste e do leste lutando lado a lado contra o invasor.

Com o fim da guerra e a morte de Stalin, em 1953, houve uma significativa mudança na política soviética [5]. O novo líder, Nikita Kruschev, ucraniano, buscou relaxar a repressão de Moscou contra seu país natal, o idioma ucraniano foi incentivado e os prisioneiros políticos foram libertados. É dessa época, também, a transferência da Crimeia para controle ucraniano.

Esse foi um período de relativa prosperidade da Ucrânia. Os soviéticos investiram significativamente no país, que se transformou num grande centro industrial e científico. Diversos membros do alto escalão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), inclusive Kruschev e seu sucessor Brezhnev, vieram da Ucrânia.

Porém, em 1986, o acidente em Chernobyl reacenderia as tensões. A demora do governo de Moscou em tomar medidas para evitar contaminação radioativa e mesmo para avisar a população sobre o desastre fez com que os antigos ressentimentos contra a Rússia ressurgissem [5].

Em 1990, no contexto da desintegração da União Soviética, cujos diversos fatores não cabem aqui expor, a Ucrânia adota uma “Declaração de Soberania”, afirmando a democracia e a superioridade das leis ucranianas em relação às soviéticas. Em 1991, a tentativa de golpe da linha dura do PCUS contra Gorbatchov serve de gota d’água e leva a Ucrânia a declarar independência [2][5].

O presidente do parlamento, Leonid Kravchuk, foi eleito presidente e permaneceu no poder até 1994. Seu mandato foi marcado pelo caos econômico e corrupção política, características do período de transição dos países da ex-URSS para o capitalismo. Em 1994 foi eleito presidente Leonid Kuchma, um burocrata de carreira do PCUS [2][5].

Kuchma restaurou relações com a Rússia, estagnadas sob Kravchuk e realizou diversas reformas econômicas que contiveram a inflação e fizeram o país crescer. Porém, foi acusado de corrupção sistemática e de ter formado um grupo de oligarcas ao seu redor, empresários que passaram a controlar as empresas privatizadas, sendo ele próprio um desses oligarcas. Diversos jornais que criticavam o regime foram fechados e alguns jornalistas morreram em circunstâncias suspeitas [7]. Kuchma foi reeleito em 1999 para um mandato até 2005. Como não poderia concorrer à reeleição em 2004, Kuchma indicou seu primeiro-ministro, Viktor Yanukovich, para concorrer.

A “Revolução Laranja” [2][5]

A eleição de 2004 foi extremamente polarizada. De um lado, Yanukovich representava o establishment; do outro, o candidato Viktor Yushchenko unia uma oposição ampla que atravessava todos os espectros políticos. Yushchenko fora primeiro-ministro de Kuchma antes de Yanukovich e havia sido demitido após desafiar os interesses dos oligarcas, por meio das ações de sua ministra da energia, Yulia Tymoshenko.

A polarização chegou aos limites da radicalidade. Em setembro, Yushchenko foi atingido por uma violenta reação cutânea, que mais tarde comprovou-se que teria sido causada por envenenamento.

Ambos foram para o segundo turno e, após a votação, Yanukovich foi declarado vencedor. Protestos irromperam pelo país, na capital Kiev e nas regiões central e ocidental da Ucrânia (foco do nacionalismo ucraniano), principal apoiadora da oposição. Por outro lado as regiões sul e oeste levantaram-se em defesa de Yanukovich e chegaram a ameaçar secessão ou federalização caso seus candidatos eleitos não fossem empossados.

Diante dessas ameaças, o Parlamento, formado por aliados de Yanukovich, demitiu o governo e condenou o separatismo em 1º de dezembro. Em 4 de dezembro, a Suprema Corte se posicionou e declarou os resultados inválidos. Diante desse cenário, Yushchenko e Kuchma entraram num acordo: haveria uma nova votação, a Constituição seria reformada e Kuchma receberia anistia. Foi realizada uma terceira votação, da qual Yushchenko saiu vitorioso, e Yanukovich cedeu à derrota, muito embora nunca a tenha reconhecido oficialmente.

O novo presidente foi empossado com festa em 23 de janeiro de 2005 e nomeou como primeira-ministra sua aliada, Yulia Tymoshenko. Porém, nem tudo seriam flores em seu governo…

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*Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, cursa Especialização em Gestão Pública na Fundação Getúlio Vargas. Advogado público, atua em empresa pública na área de controle.

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