Memórias de leituras: Gabriel García Márquez

Por Fábio Zuker *

Talvez poderia dizer, com o devido perigo do exagero, que o prazer que desenvolvi por obras pequenas parece sempre surgir em contraposição à leitura de grandes projetos literários. São, sem sombra de dúvidas, experiências diversas e muito difíceis de serem comparadas. Se os livros longos nos proporcionam um mergulho lento e duradouro em todo um universo de referências, outro modo de experimentar e atribuir um significado ao mundo, pequenos romances, por sua vez, parecem proporcionar uma experiência intensamente perturbadora, em que enquanto ainda estamos tentando nos acostumar com essa outra construção de mundo iniciada pela narrativa, somos surpreendidos pela sua efemeridade – abreviada por um final muitas vezes apenas previsto pelo volume das páginas. Nesse sentido, poderíamos opor, por exemplo, as diferentes experiências que são as leituras de Memórias do Subterrâneo e Crime e Castigo, ambos romances de Dostoiévski, em que o tamanho da obra tem efeito não negligenciável sobre os leitores – ou pelo menos, assim o foi comigo.

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Circunscrevo, assim, minha pequena homenagem em forma de comentário pessoal àquele que foi conhecido como um dos gigantes da literatura latino-americana por meio de dois de seus livros pequenos, Memórias de minhas putas tristes e Doze contos peregrinos – que certamente são considerados como menores, não apenas em tamanho, mas talvez em qualidade, como atestam os inúmeros obituários publicados nas duas últimas semanas, gravitando ao redor da grandeza de Cem Anos de Solidão. Sobre este último, não me sinto capaz de descrevê-lo, pois foi justamente diante dessa sensação de construção de um grande mundo específico pela leituraque me vi obrigado a abandoná-lo.

Parece que estamos diante de um desses curiosos entrelaçamentos entre vida e literatura. Gabriel García Márquez,escritor colombiano nascido em 1927 e agraciado com o Nobel de Literatura em 1982, esmiuçara com sensibilidade sem igual o papel da memória na estruturação da vida presente. Sua morte no último dia 17 de abril (aos 87 anos) decorre de complicações oriundas, precisamente, do Alzheimer – doença que nos faz ”perder a memória”, terrivelmente capaz de apagar os traços de afeto existentes entre pessoas que um dia lhes foram queridas.

Esses dois livros que li de García Márquez foram duas leituras que deixaram marcas profundas na memória que tenho do período entre o final do colegial e início da faculdade. Afora os livros indicados pela escola, e para além de autores brasileiros e alguns poucos norte-americanos, havia até então me defrontado com algumas referências básicas da literatura europeia (incluindo, ou melhor, sobretudo, a russa), e meu contato com literatura latino-americana de língua não portuguesareduzia-se a dois livros de Borges.

Memórias de minhas putas tristes, originalmente publicado em 2004,parece ter feito sentido especialmente nesse final de adolescência, em que a sexualidade vai paulatinamente deixando de ser algo imaginado, ou mesmo esporádica, e converte-se em realidade – consistindo não por isso algo resolvido, apenas um modo diverso, talvez mais ativo, de vivenciar essa tensão. Lembro muito bem que o li por indicação de uma menina com quem saí algumas vezes nessa época: nós dois estudávamos na USP, e foi sentado no gramado da faculdade que, em algumas poucas horas, devorei o livro.

Foi uma leitura rápida e intensa. Se o tema da sexualidade era constante nas conversas entre amigos e amigas que começavam, uns antes, outros depois, a concretizar seus desejos sexuais, a leitura de uma obra em que o protagonista é um velho reexaminando a sua vida sexual parecia ao mesmo tempo algo extremamente distante e próximo: como se nós mesmos, antes de concretizar esses anseios, já vislumbrássemos as possibilidades de rememoração daquilo que se anunciava como iminente.

Um livro curto e que trazia consigo essa potência de construir sensivelmente todo um modo de atribuir significado a um assunto naquele momento tão importante. É muito provável que na época tenha ignorado o tom de tristeza, e certo excesso de heteronormatividade do livro: um velho professor que nas vésperas de festejar o seu nonagésimo aniversário resolve se dar de presente uma noite de sexo com uma menina virgem. Rememorando ao longo das 150 páginas do livro as suas histórias de amor de juventude, suas primeiras experiências, o seu envolvimento com o trabalho e com a escrita, esse novo amor é como um desafio a si mesmo para provar que estava vivo.

Doze contos peregrinos, por sua vez, proporcionava outra maneira de entender algo sobre o lugar de onde eu vinha. Se o contato com Borges era um exercício imaginativo desconcertante, mesclando traços locais com um pensamento abstrato sobre o tempo, o espaço como labirinto ou a reminiscência de referências desconhecidas – muitas vezes inventada –, a leitura desse livro de García Márquez era, por sua vez, uma primeira abertura para o mundo latino-americano não-brasileiro.

Não pretendo de nenhum modo afirmar que tal leitura me proporcionara uma melhor compreensão da minha identidade enquanto sul-americano. Talvez tenha sido o oposto, e muito mais interessante. Filho de imigrantes de origem judaica do leste europeu (meu pai nasceu em Bucareste, na Romênia, e minha mãe é a segunda geração nascida no Brasil de uma mescla de moldavos, ucranianos e romenos), a leitura de um livro cujos doze contos exploravam os infortúnios e ingenuidades de latino-americanos vivenciando a incomplacência e frieza da vida na Europa perturbava quaisquer tipos de separações simplistas entre ”ocidentais” e outros, entre o meu mundo familiar-caseiro e o mundo que experimentava na rua, na escola, na faculdade.

Os personagens de cada conto vivenciam uma série de contradições pitorescas não sem um desejo de regressar à ”casa”: uma prostituta brasileira que arquiteta em seus mais ínfimos detalhes o seu funeral na Espanha; a história de um peregrino que leva o pequeno caixão de sua filha morta para Roma, crente de poder realizar uma audiência com o Papa; os infortúnios de um casal que se vê obrigado a procurar médicos em Paris….

Para além das histórias como estão escritas no papel, toda leitura é um ato de reinvenção dentro de um contexto pessoal. E esse exercício no caso dessa obra foi para mim – e o é ainda hoje – especial por alguns motivos. Ao mesmo tempo em que naquela época já não me sentia havia alguns anos de nenhum modo ligado à tradição religiosa nenhuma, tampouco podia, e não seria exagero dizer que ainda hoje não posso, afirmar que me sinto identificado com a cultura brasileira.

Doze contos peregrinos encontra-se muito provavelmente na origem dessa minha obsessão por entender esses processos imaginativos a partir dos quais a Europa foi constituindo uma imagem de si, separando-se virtualmente do resto do mundo por características que lhe seriam próprias. Vivendo nessa abstração chamada Europa, que representa muito mais do que os meros contornos do velho continente, os viajantes latino-americanos narrados pela obra, embora pudessem muito bem ser descendentes de europeus, pouco tinham a ver com aquele mundo. De um modo análogo, sinto vivenciar algo similar hoje, enquanto faço o meu mestrado em terras europeias: mesmo tendo sido criado no bojo de uma cultura cujas referências principais haviam se desenvolvido na Europa, é a sensação de eterno estrangeiro que prevalece por aqui, assim como o era no Brasil.

Sem dúvida foram livros que, curtos e densos, cuja duração efêmera talvez me possibilitaram imaginar o que teria sido o desdobramento dos pontos de tensão do livro, a partir daquilo que então vivenciava e experimentava. Talvez tenham feito, sobretudo, sentido naquela época, e eu me questiono se hoje não os consideraria demasiadamente simplórios, e com algum tom de exotismo que certamente me pareceria fastidioso. Acredito, de todo modo, que este seja um momento adequado para retomar a leitura de Cem anos de solidão, e encarar novamente o que já chegou a ser considerado o segundo livro mais importante da literatura em língua espanhola, atrás apenas de Dom Quixote.

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Categorias: Cultura

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