A nova cara do Rio

Por Fábio Zuker *

O atual momento vivenciado pelo Rio de Janeiro, com as chamadas ”pacificações” das comunidades, internacionalização da cidade e aumento dos custos de vida, parece apresentar uma série de ganhos da política de segurança pública do Estado. Projeto de pacificação contraditoriamente capitaneado de modo violento, transformou a paisagem urbana da zona sul e mudou definitivamente o sentimento das classes média e alta em relação à segurança pública – ao baixo preço de levar à violência cada vez mais às margens (baixo, sobretudo, diante da conjugação do aumento de preços do mercado imobiliário e do novo afluxo turístico à cidade com eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas).

Essas transformações, ocorridas nos últimos cinco anos, são extremamente velozes. Vem acompanhadas de um certo sentimento de que o país como um todo avança, melhora, e que estamos progredindo. Entretanto, a quais custos? Esboço aqui uma análise sobre a atual conjuntura político-urbana no Rio de Janeiro, centrando a reflexão no papel jogado pelas novas instituições culturais criadas na cidade.

Se é claro que as rápidas transformações recentemente vivenciadas pela capital carioca vinculam-se ao controle da violência, aos grandes eventos esportivos e a uma estabilidade econômico, acredito que seja legítimo pensar na correlata falta de espaço para a nova classe média ascendente: a “pacificação” dos morros está diretamente relacionada à procura de mais espaços na zona sul. O raciocínio colocado em prática pelo governo choca por seu cinismo e por repetir momentos historicamente já vivenciados pela cidade.

Ao invés do Estado simplesmente expulsar a população que vive de maneira ilegal em favelas da zona sul, vale-se majoritariamente de mecanismos menos chocantes, cujo eufemismo da nomenclatura (pacificação) gera menos protestos, mas com efeitos igualmente ou mais perversos. O Estado se limita a garantir o monopólio da segurança (expulsando os traficantes) e logo o custo de vida aumenta, permitindo ao Estado recuperar o monopólio da arrecadação e expulsar uma população pobre, incapaz de pagar esse custo. De quebra, os novos moradores, ”cidadãos ricos e de bem”, terão sua merecida vista para o mar.

Entretanto, nem sempre o Estado escolhe esse método sofisticado de atuação e prefere agir por meio de desapropriações. Aqui, a história se repete: Dom João VI chegou ao Brasil colocando placas na porta das propriedades privadas, dizendo que em alguns dias os moradores teriam que abandoná-las; nada muito diferente do que é feito hoje.

O caso da região da Gamboa é paradigmático e aqui começamos a ver o papel crucial das instituições culturais nesse processo. A criação do MAR (Museu de Arte do Rio) vem acompanhada da desapropriação irregular de centenas de famílias (estabelecidas em comunidades hoje centenárias) e da construção de complexos empresariais como o Donald Trump. A construção de um museu valoriza a área, expulsa a população pobre com o aumento do preço de vida (quando esta não é retirada pela via policial) e permite o desenvolvimento de um novo setor econômico da cidade.

Estamos diante de uma cidade que forja uma imagem de si mesma, um projeto político-estético que favorece um determinado setor da sociedade, em detrimento de uma série de problemas vivenciados pela cidade. Mas qual é a imagem que o Rio quer criar de si mesmo? E para quem essa imagem está sendo criada? Para nos aproximarmos dessas questões, devemos nos debruçar sobre a política cultural promovida na cidade.

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MAR – Museu de Arte do Rio, inaugurado em 2013

Política cultural/

Se partirmos do pressuposto que a cultura é, ou ao menos deveria ser, o lócus de um pensamento experimental, que se preocupa em investigar os possíveis desdobramentos do porvir, parece ser essencial repensar a maneira como atividades culturais têm sido capitaneadas por esse projeto político-estético pelo qual o Rio passa hoje.

O atual secretário de cultura da cidade é o controverso Sérgio Sá Leitão, que pretende desenvolver uma ”cultura lucrativa”. Quem melhor resume as contradições desse termo é o crítico de cinema Eduardo Escorel: “Sá Leitão pretende continuar fomentando ‘projetos que visem ao lucro’. Mas, fomentar por quê, perguntaria uma alma cândida: se a produção é considerada lucrativa, por que precisa ser fomentada?”.

Não obstante, a própria concretização de um museu como o MAR é extremamente problemática. O argumento de que existe mais um museu na cidade, com investimentos, é falacioso e não aprofunda as contradições de um programa cultural em consonância com um projeto de urbanização equivocado, estruturado em detrimento as necessidades dos moradores da região. A crítica aqui não é a museus bem estruturados e com alto investimento por parte do estado: são instituições importantes e que devem ter inclusive seus orçamentos aumentados. O problema é ignorar as atuais necessidades da cena cultural carioca e criar novos museus que caem de para-quedas sem dialogar com as tentativas de novos agentes culturais que precisam de apoio e financiamento para desenvolver suas atividades, ou de museus já estabelecidos que necessitam de mais investimentos.

O incentivo a novas práticas deveria vir de mão dada com o fortalecimento das instituições já existentes; seria simplista demais pensar que uma instância anula a outra. Mas, definitivamente, investir dinheiro em atividades culturais que estejam em consonância com o projeto político-estético vivenciado pelo Rio hoje só pode ser considerado contraproducente para uma cultura dinâmica e que se quer crítica.

Essas instituições estão sendo criadas de acordo com essa nova imagem que a cidade quer de si e podemos citar ainda os editais de atividades culturais para a Copa, a abertura da Casa Daros ou estranha política de financiamentos da Rio Filme – financiando de uma série de atividades condizentes com o processo estético-político da cidade e que não estabeleçam nenhuma posição crítica com relação a ele. Nesse sentido, é assustador pensar que o projeto nazifascista era exatamente um projeto político-estético, que se justificava a partir de um projeto cultural específico.

Silenciar sobre os custos sociais, os efeitos negativos de políticas militares engendradas contra seus próprios cidadãos, parece ser exatamente o que devemos fazer no atual cenário carioca. Extirpar as contradições sociais para longe parece ser o grande projeto político-estético da cidade, que deve receber três milhões de estrangeiros nos próximos anos. A criação de políticas culturais que incentivem uma reflexão crítica diante desse panorama não parece, assim, fazer nenhum sentido.

* formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP). Atualmente é mestrando em Artes e Linguagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e gestor cultural na área de arte contemporânea.

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Categorias: Cultura

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