Os muitos universos de Camille Henrot

Por Fábio  Zuker   e Viviane Letayf  *  

                                                                              

Otras dificultades propone el tiempo.Una, acaso la mayor, la de sincronizar el tiempo individual de cada persona con el tiempo general de las matemáticas (…) Si el tiempo es un proceso mental, ¿cómo pueden compartir miles de hombres, o aun dos hombres distintos?

Jorge Luis Borges

La Grosse Fatigue, Camille Henrot

La Grosse Fatigue, Camille Henrot

Apresentado na Bienal de Veneza de 2013, o vídeo La Grosse Fatigue, da artista francesa Camille Henrot,  começa com a tela padrão de inicialização do computador da Apple : a imagem de uma galáxia. Um cursor percorre a tela/galáxia e clica no arquivo que compartilha o mesmo nome do trabalho: “La Grosse Fatigue”. Inicia-se, então, outro vídeo dentro do já iniciado vídeo – primeira sobreposição importante a ser ressaltada, uma vez que este é um artifício recorrente da obra-, com a narração de um mito sobre a origem do universo.

Diferentes versões sobre este episódio – dentre elas, a narrativa bíblica, mitos não-ocidentais e a explicação científica – vão se justapondo. Trata-se de uma confluência de diferentes versões que, entre si, compartilham apenas a enfadonha, mas talvez essencialmente humana, tarefa de atribuição de sentido à passagem do tempo, à criação do cosmos, de seu desenvolvimento e de tudo o que nele passa a existir. Ou seja, a busca de atribuição de sentido à própria existência.

O vídeo reproduz uma tela de computador bombardeada por centenas de janelas simultaneamente abertas. Enquanto o ritmo da narração em estilo spoken word se intensifica com o decorrer do tempo, aumenta-se, concomitantemente, as justaposições angustiantes de imagens. Estamos diante de um excesso de informações, tema que a Bienal de Veneza, em sua exposição O Palácio Enciclopédico, trabalhou – e que era, sem sombra de dúvidas, um sintoma do que propunha – ao fazer uma reflexão megalomaníaca sobre formas de criação de conhecimento e informação.

Talvez um dos pontos mais interessantes da obra de Camille seja a insistência das sobreposições como solução narrativa ao longo de todo o vídeo, quer na sua forma concreta – por meio das janelas ininterruptamente abertas –, quer de maneira menos evidente, na própria narrativa que está por trás do vídeo. A não-linearidade do trabalho surge de uma linearidade “cosmológica” (vazio → deus → terra), em um incessante movimento pendular entre “conter/estar contido”: ou seja, dentro de um vídeo, que inicia outra tela que se abre para  inúmeras janelas e mitos, subjaz certa linearidade narrativa.

O vazio apresentado no vídeo pode ser aquele descrito na Gênesis bíblica. O deus que emerge na obra pode ser o “grande deus Bumba” da cosmogonia Bakuba (África Central). A explicação que tenta concatenar a origem do universo com o desenvolvimento da racionalidade humana pode ser a o mito ocidental da cientificização darwinista. A terra que surge diante de tais eventos é, portanto, una e ao mesmo tempo diversa, de acordo com as variadas perspectivas possíveis que permeiam a narração – certamente não apenas a ciência ocidental, em seu recente predomínio darwinista, oferece uma explicação sobre o processo de origem e evolução do universo.

O conhecimento cientifico é particularmente abordado a partir das imagens do Smithsonian Institute de Washington, reconhecido por ser o maior museu e a mais completa instituição de pesquisa em história natural do mundo. No vídeo de Camille, seu acervo é apresentado como metáfora ao esquadrinhamento e catalogação proposta pela ciência, dotada de uma pretensão explicativa e inequívoca do sentido do universo.

Outro ponto importante do trabalho diz respeito à experiência pessoal do tempo, que emerge como desdobramento natural às indagações sobre o tempo cósmico. Surgem, assim, a partir deste primeiro questionamento sobre o tempo, outras  duas acepções complementares: a dimensão histórica do tempo e a dimensão pessoal. É a partir do confrontamento destas últimas que apreendemos uma tensão cara ao vídeo: a maneira como o tempo histórico é hoje experimentado em toda sua velocidade e excesso de informações entra em choque com a efemeridade do tempo pessoal – e daí a angustiante sensação de impotência. A informação acumulada é passível de ser transmitida, mas a exorbitância do acúmulo é motivo do desconforto, uma vez que a apreensão deste é impossível no espaço de uma vida.

Camille apresenta em sua obra um imbricamento de campos “modernamente” impenetráveis ao sobrepor em um mesmo plano ciência, religião, mitologia, história e subjetividade. A força de seu trabalho vem, em alguma medida, da sensação original do caos como dotado de sentido. O caos como “um corpo multidimensional, cuja organização é revelada nas partes centrais, enquanto em sua periferia reinam ainda a incerteza e a confusão”, para valer-se de uma imagem apropriada de Lévi-Strauss.

Propõe-se, assim, uma atenção especial a essa confusão, incomodando formas de pensamentos que se dizem certeiras. Essas diversas maneiras de atribuir sentido ao inexplicável não apresentam diferentes gradações de veracidade e tampouco estão em competição. Se a maneira como se atribui sentido ao mundo é diversa e cria uma forma de ser e estar nele, então se tratam não de diferentes versões sobre o mesmo mundo, mas talvez de mundos distintos.

 

* Fábio Zuker é formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP). Atualmente é mestrando em Artes e Linguagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e gestor cultural na área de arte contemporânea

*Viviane Letayf é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP).

Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica.

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Categorias: Cultura

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