A questão da homossexualidade no budismo: a permissão em meio a interditos

 

Por Veridiana Domingos* e Hugo Neri**

Nos últimos dias, rodou pela internet um trecho da entrevista de Dalai Lama ao veterano apresentador da televisão americana, Larry King. Ali, King questiona-o sobre seu posicionamento frente à homossexualidade. Dalai Lama, que se apresenta como um “progressista” e “feminista” responde que essa é uma escolha de cada um, uma decisão pessoal que não lhe compete opiniar: “Se duas pessoas, um casal, realmente acharem que este é o caminho mais prático, mais curto para a satisfação e ambos concordarem completamente, então OK”. Sua declaração teve repercussão porque difere de seus posicionamentos anteriores.

Na base de qualquer ramificação do budismo, o hedonismo nunca foi o pilar principal. Justamente o contrário, o principal pilar de todas as ramificações do budismo foi a ascese, isto é, a negação de todo e qualquer prazer que o mundo físico pode nos oferecer. Devemos nos afastar deles. Isso ocorre pois o objetivo central do budismo é atingir um tipo muito específico de salvação, o nirvana, cuja tradução mais aproximada ao português do termo é “extinção”. Mas, afinal, o que é extinto? Ou, o que deve ser extinto? Vejamos brevemente a base de crença do budismo para responder essa questão e qual a grande divergência entre ela e a afirmação de Dalai Lama.Vimos que o budismo nega o mundo, pois este o afasta do nirvana, o último estado. Essa concepção religiosa está enraizada nas profundezas da cultura indiana. Uma longa tradição ascética indiana, como as práticas e técnicas de yoga conhecida por nós, culminou no budismo. Partimos da crença de que o universo não foi criado, de que a vida não começou do nada. E que seu fim não é iminente. Ao contrário, o universo é uma entidade autoexistente. A vida eternamente emanou desta entidade e não há fim para o que nunca teve início. Sobrepõem a essa crença uma outra, a crença nas transmigrações das almas que é regida pelo famoso karma. Há uma recompensa moral de uma à outra existência; um saldo na balança de atos moralmente positivos e os moralmente negativos. Sabendo disso, vamos relacionar esses componentes.

O que mantém todos esses elementos unidos é o desejo, a vontade, ou seja, o desejo pelas coisas do mundo, da vida, vontade da vida. É isso que nos atrela ao ciclo de reencarnações. Por isso que devemos negar o mundo caso quisermos sair deste ciclo, e assim atingir a salvação.  Todos nós sabemos, por exemplo, que uma das principais fontes de prazer é o prazer sexual. Assim, toda conduta sexual auxilia negativamente para atingir o estado de iluminação. Essas ideias pulsam no coração de cada uma das grandes correntes budistas, ainda que essa vertente seja o budismo tibetano, uma das vertentes mais politizadas que existem – muito provavelmente pela anexação do Tibet pela China – e ritualizadas.

Da mesma maneira, entre os budistas, há grande diversidade sobre a homossexualidade. O budismo contemporâneo, embora proíba a homossexualidade, assim como proíbe qualquer sexualidade ativa dentro das ordens religiosas, ele aceita (ou pelo menos não proíbe) a homossexualdiade entre os laicos. Quanto à homossexualidade, acredita-se que ela não seja “imprópria” por si só, mas que o uso de órgãos não destinados naturalmente ao contato sexual seria um ato profano. Assim como o cristianismo, o budismo incentiva que o ato sexual seja regulado pelas leis naturalmente estabelecidas. Isso é afirmado pelo próprio Dalai Lama em seu livro Além do Dogma, no qual há declarações claras de que o ato sexual homossexual seria um “desvio sexual” já que não estaria em conformidade com as construções naturais fisiológicas dos indivíduos. O que levaria Dalai Lama a uma declaração como a que fez em frente a Larry King? Uma resposta coerente seria afirmar que para além dos interditos sexuais, valores tais como compaixão, tratamento igualitário e respeito são proponderantes na religião budista, o que levaria a uma rejeição da homofobia. A permissão em meio aos interditos sexuais: a religião e suas contradições.

*Socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unviersidade de São Paulo (FFLCH/USP). Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Violência e Memória.

 ** Sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Unviersidade de São Paulo (FFLCH/USP) e mestre em Sociologia pela USP. Trabalha na área de educação e desenvolve pesquisas relativas à Sociologia da Ciência, Conhecimento, Religião e Linguagem.

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Categorias: Sociedade

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