Macabro e perverso na obra de Joca Reiners Terron

tristeza

Capa do livro “A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves”

Por Fábio Zuker*

Ambientado no bairro do Bom Retiro, o livro A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves, de Joca Reiners Terron, estrutura-se ao redor de quatro histórias, diante das quais o leitor espera com anseio o momento em que elas irão se cruzar. Parte da romance transcorre durante a noite – e mesmo as passagens diurnas têm um forte caráter noturno, em que prevalece uma certa escuridão na narrativa. Não uma boêmia noite paulistana, de bares, bebedeiras e histórias para contar: uma noite vazia, macabra e silenciosa, que esconde uma série de mistérios aos quais a narrativa, potente e sedutora pelo clima de suspense, aliado a uma escrita seca e por vezes cínica, alude.

De um lado, a história de um escrivão de meia idade da Polícia Militar, que entre passar as noites acordado na delegacia e tomar conta de seu pai já senil, vive em constante estado de insônia, acompanhando com descrença as ineficientes investidas da polícia contra os usuários de crack do centro da cidade – que mais lhe parecem com uma caça de gato e rato, em que os perseguidos correm desesperados pelos quarteirões do centro da cidade, apenas para reencontrar a polícia na esquina seguinte, e tomarem o caminho de volta na mesma direção da qual acabam de vir.

De outro, a personagem Senhora X, cristã religiosa que dedica a sua vida a cuidar de pacientes terminais ou com doenças raras, e que agora se incube do tratamento da Criatura, como ela mesma apelidara a pessoa de quem passara a se ocupar: mulher cuja idade a Senhora X desconhece e que leva uma vida notívaga, ao abrigo da luz solar, dormindo com o nascer do sol e recebendo os cuidados necessários para estancar as secreções e sangramentos de sua pele. Contribuindo ao suspense, a Senhora X vive sozinha em um casarão com a Criatura, sem jamais travar contato com as pessoas que a contrataram. Estes últimos, pagam-lhe mensalmente mediante transferências bancárias e solicitam que de maneira alguma ela leve a Criatura para passear.

Duas outras personagens, cujas histórias vão sendo paralelamente construídas, e que embora recebam menor atenção na economia do livro são igualmente importantes na narrativa: o taxista que sai à noite com seus rottweilers para caçar em terrenos baldios e o ajudante de vendas de origem coreana em um pequeno mercado de bairro que busca a todo custo encontrar algum tipo de atividade para além de sua vida familiar e de seu trabalho pouco estimulante.

São personagens escondidos. Não apenas os invisíveis ordinários da massa de habitantes de uma grande cidade, mas, sobretudo, aqueles que não podem, não conseguem ou não devem integrar-se à massa. O cenário no qual se desenrolam as histórias não poderia ser, assim, mais conveniente: o bairro do Bom Retiro, situado na região central de São Paulo, mistura de decadência com local ainda acolhedor de imigrantes e que esconde distintas camadas culturais italianas, judaicas, gregas, sul-coreanas com imigrantes bolivianos ilegais e usuários de crack – estes dois últimos, alvo de medidas sociais e políticas para que simplesmente desapareçam.

As quatro histórias passam a esboçar uma conexão não menos aflitiva do que a angústia presente na expectativa de que viessem a se juntar. O policial, narrador em primeira pessoa de sua própria história, inicia o acompanhamento do catastrófico caso do zoológico, o mesmo em que a Senhora X levava a Criatura para passear durante a visita noturna e ver o leopardo-das-neves – animal que tanto a fascinara na enciclopédia que folheava em sua casa, noites a fio; sua única distração. Elas são conduzidas pelo taxista, que logo após deixá-las no zoológico volta para casa para passear com seus cachorros que, por sua vez, numa das passagens mais asquerosas do livro, parecem ter o apetite estimulado pelas secreções e pedaços de pele deixados pela criatura no banco traseiro do automóvel.

A trama, então, começa a ser desvendada, embora não seja eu o encarregado de contá-la aqui.

O livro seduz e perturba pela sensação de mistério que cria. No ponto de encontro de Edgard Allan Poe com Sherlock Holmes, do suspense-macabro com o investigativo, o livro de Joca Reiners Terron trama essa relação entre prazer e perversidade, abrindo o caminho para um desconfortante e satisfatório processo de identificação por parte do leitor.

Para além do que é propriamente narrado, da qualidade da escrita e descrição de uma história, é um certo ambiente, uma certa atmosfera, que parece mais marcar um bom livro – ou ao menos a maneira como dele nos lembramos: uma série de impressões, um clima que prevalece, enquanto detalhes mais ou menos factuais vão se perdendo.
Nesse sentido, se tanto literatura como ferramenta para conhecer o mundo como forma de autoconhecimento foram temas demasiadamente explorados pela crítica e estudos literários, deixou-se de lado outra forma de conhecimento pela leitura, igualmente válida, e que se localizaria não no polo da racionalidade, mas nesse em que não encontramos melhor palavra para nos referir senão ”sensação”. E talvez aí esteja um dos grandes méritos do livro: gerar uma perturbação ao proporcionar uma literatura ao mesmo tempo prazerosa e perversa, uma fascinação diante da leitura e descoberta de algo da ordem do abominável. Daí sermos reenviados a outra via reflexiva sobre si, àquilo que parece encontrar-se na parte obscura de nossa suposta humanidade, jamais diretamente manifestada, mas sempre aludida, embora dissimulada.

Sobre o escritor/
Joca Reiners Terron, nascido no em Cuiabá e radicado
em São Paulo, é escritor e artista gráfico. Autor de romances como Do fundo do Poço Se Vê a Lua e de Não Há Nada como Lá, foi vencedor do Prêmio Machado de Assis de Romance. Recentemente, trabalhou junto ao Teatro da Vertigem como dramaturgo de Bom Retiro 958 Metros, também ambientada no bairro que dá nome à peça. A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves, seu livro mais recente, foi lançado em abril de 2013, pela editora Companhia das Letras.

* formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP). Atualmente é mestrando em Artes e Linguagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e gestor cultural na área de arte contemporânea

Este texto foi revisado por Camilla Wooton Villela

 

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Categorias: Cultura

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