A Disneyficação da literatura: quando o ratinho que dominou o mundo entra em ação

Por Veridiana Domingos*

Esta imagem é de autoria própria, pois a Disney tem um poderoso esquema de Copyright que proibe qualquer reprodução sem prévia concessão dos personagens Disney. Mais uma jogada de Walt.

Esta imagem é de autoria própria, pois a Disney tem um poderoso esquema de Copryght que proibe qualquer reprodução sem prévia concessão dos personagens Disney. Mais uma jogada de Walt.

Poucas vezes na história do cinema houve longas metragens que retratavam o que acontecia nos bastidores dos estúdios Disney. O recém estreado Saving Mr. Banks conta a história sobre o conflituoso processo de convencimento de Walt Disney para que a escritora Pamela Travers concedesse os direitos autorais de Mary Popins. Ao longo do enredo, Walt Disney tenta persuadir a autora por meio de argumentos emocionais e apelativos, como, por exemplo, vincular a compra dos direitos autorais à felicidade de suas próprias filhas. Embora o filme mostre o lado dissimulador de Disney, ele ainda não abarca todos os mecanismos presentes do que hoje se denomina disneyficação da literatura e das histórias.

Apesar da morte precoce, Disney teve tempo, ao longo de seus 65 anos, de cuidadosamente articular e sedimentar as empresas que carregam seu nome (The Walt Disney Company), que hoje arrecadam U$ 45 bilhões anualmente. O magnata americano não soube apenas montar uma companhia muito bem consolidada, mas também criar, por meio de suas histórias (não tão suas assim), um reino mágico de fantasias que não só tem caráter ilusório, mas, sobretudo, ideológico.

Aproveitando da ausência (ou da regulamentação) fraca dos direitos autorais na época em que foram escritas, a Disney tem, em seus maiores sucessos, histórias furtadas de autores a quem pouco se dá os créditos – pouco ou nenhum. Nem créditos e nem dinheiro. Lewis Carroll (ou seus herdeiros) não recebeu um tostão por Alice no País das Maravilhas; nem os irmãos Grimm, por Pequena Sereia. Se a questão estivesse apenas nos direitos autorais, ainda não haveria tanto problema – mesmo porque estes ainda não eram leis estabelecidas na época em que os Grimm escreviam. O problema repousa no rolo compressor pelo qual passam essas histórias populares, lendas e folclores furtados pelo “caro” Walt.

Clássicos, como O Rei Leão, diretamente inspirado em um conto japonês, passam pelo processo hoje denominado disneyficação. Este processo seria reponsável por imputar nas histórias furtadas visões sanitárias que retiram o mistério e os conflitos nelas presentes. O resultado seriam histórias pasteurizadas, sentimentalistas e reducionistas[1]. Não apenas isso, como também há uma americanização das histórias que compreende uma reprodução dos padrões sociais dominantes. Padrões dominantes, aqui, têm uma miríade de conteúdos que vão desde padrões de beleza e gênero até padrões colonizadores. Pocahontas, por exemplo, é uma narrativa colonialista de teor antimiscigenacionista, enquanto Cinderela ou A Pequena Sereia trazem padrões patriarcais de submissão da figura feminina à eterna busca pelo príncípe encantado – busca esta que se apresenta como a única possibilidade de vida a elas. Esse padrão, inclusive, é bastante distinto das histórias dos concorrentes da Disney, os irmãos Warner, que criaram personagens de personalidade única, como o Pernalonga, um coelho descolado e de língua afiada.

Há umas boas décadas, contudo, o ratinho de calças vermelhas tem vencido o coelho sagaz. Nossas crianças cresceram e ainda crescem assistindo à Disney. Que padrões sociais estes desenhos vêm imprimindo nelas? Um estudo[2] com meninas pequenas, desenvolvido por Michele Escoura Bueno, demonstra que as narrativas Disney conformam padrões de beleza e conjugais idealizados. Com frequência, as meninas associam felicidade ao encontro de um príncipe encantado e beleza a olhos claros e cabelos lisos, tomando como referências as princesas da Disney.

Fica aqui a reflexão para um futuro sem Mary Popins disneyficadas, mais personagens sem o véu rosa jogado por Walt e muitos, mas muitos sacis pererês.

*socióloga formada em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Memória e Violência.

 Este texto foi revisao por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 Uma indicação de leitura que dá continuidade aos processos sociais desenrolados pelo fenômenos Disney é o livro Disneyzação da Sociedade, onde o autor Alan Bryman, a partir de uma perspectiva distinta da aqui apresentada, demonstra como os padrões dos parques temáticos Disney se impuseram para outros espaços sociais e urbanos.


[1]Schickel, R. The Disney version: the life, times, arts and commerce of Walt Disney. London: Pavillon Press, 1986

[2]Este estudo é parte da dissertação de mestrado defendida no departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo pela antropóloga Michele Escoura Bueno. O trabalho está disponível neste link: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-08012013-124856/pt-br.php

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Categorias: Sociedade

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um comentário em “A Disneyficação da literatura: quando o ratinho que dominou o mundo entra em ação”

  1. Anônimo
    23/03 às 18:15 #

    Muito interessante o trabalho de análise sociológica e também psicológica. O artigo chama a atenção sobre aspectos que, embora conhecidos, passam desapercebidos. Somos todos arrebatados pelos sonhos. Sonhos muitas vezes que não surgem do acaso, mas sim de uma proposta concreta repleta de valores bem estabelecidos. Acrescentaria apenas que pesa sobre W Disney de ser um colaborador do período negro da história americana liderado pelo senador McCarthy – macartismo.

    Claudio Felisoni de Angelo

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