Grand Palais apresenta retrospectiva de Bill Viola

The Veiling, 1995Por Viviane Letayf*

Bill Viola é um artista contemporâneo, estadunidense, reconhecido internacionalmente pela sua inserção na videoarte, sendo por muitos considerado um dos principais expoentes dessa vertente artística e, não raramente, apontado como um dos seus pioneiros. Sua exposição individual no Grand Palais, em Paris, se trata de uma dupla estreia: uma novidade tanto para o artista como para a instituição. É a primeira vez que Bill Viola apresenta uma exposição individual no local e, talvez mais notoriamente, é a primeira exposição na história das Galerias Nacionais da França dedicada a videoarte.

O interesse pela imagem emergiu de maneira prematura e pouco usual. Aos seis anos de idade, o artista sofreu uma experiência de quase morte, onde, acidentalmente caiu em um lago. Sobre tal ocasião, de maneira quase mística, o artista relata o fascínio que a luz e a plasticidade da imersão o provocaram e, de modo despretensiosamente metafórico, afirma que aquela ocasião o levou a entender a existência de um real que vai além da superfície. A despeito de qualquer consideração sociológica em relação à trajetória de vida e à noção racionalizada da relevância dos eventos passados para os desdobramentos presentes, a relevância de tal episódio na vida do artista não é facilmente desmentida, uma vez que a água e o tempo desempenham uma força e destaque ímpar em seus trabalhos.

Talvez o relato da importância de algo que subsista a superfície seja indício da escolha do vídeo como suporte artístico, uma vez que tal meio aparece na arte como forma que permite soluções diversas à expressão de elementos que estão para além de uma impressão imediata. Bill Viola começa a trabalhar com a videoarte ainda nos anos 70, portanto, logo no início de tal vertente como expressão artística.  A coincidência do interesse do artista pelo suporte com o início da apropriação do mesmo de forma artística acaba corroborando para que, de maneira original, tanto o meio quanto o artista se desenvolvam juntos. Assim, suas primeiras obras guardam um traço experimental, nas quais o artista passa a explorar todas as possibilidades inauditas do novo meio, fazendo dessa exploração sua arte. Um dos trabalhos mais célebres desta época é “Tape I” (1972), um trabalho realizado através de um jogo de espelhos, onde fica claro que o artista pretendia explorar todas as possibilidades do meio.

A retrospectiva conta com vinte obras do artista, dispostas nos dois primeiros andares do prédio. A obra que abre a exposição é “The Reflection Pool”, de 1977-1979 (https://www.youtube.com/watch?v=D_urrt8X0l8), que se encontra na linha da experimentação e que, já de início, nos apresenta para a temática da água e do tempo. Aqui, menos a câmera e mais a edição e montagem da imagem são objetos da experimentação características das suas obras iniciais. Na obra, estamos na frente de um plano fixo, onde surge o próprio artista ensaiando um salto na água. No momento do salto, apenas a imagem da pessoa congela, restando um movimento desconcertante para a superfície da piscina e seu entorno. Logo na segunda sala, encontramos a escultura “Heaven and Earth”(1992), obra que apresenta dois aparelhos de televisão reproduzindo dois vídeos distintos: o de uma mulher morrendo e o outro de uma criança recém nascida, de maneira que a aproximação das telas faça uma sobreposição das imagens pelo reflexo de uma na outra. A mulher em questão se trata da mãe de Viola, que faleceu em 1992. A criança é o filho do artista que nasceu no mesmo ano e que, por alguns meses, não conheceu a avó.  Ironia ou não de “Heaven and Earth”, a imagem da mulher é reproduzida no televisor superior, enquanto a imagem da criança no inferior.  Seguindo, nos deparamos com “The Veiling” (1995), uma obra impressionante. São dois projetores colocados em lados opostos lançando imagens a nove grandes telas suspensas.  O efeito de tal disposição é que a imagem se concentra nas primeiras telas, enquanto a luz se dissipa nas últimas. A materialidade que a luz e a imagem ganham nessa obra é impressionante. São dois vídeos de 30 minutos cada: um projeta um homem e o outro, uma mulher, no mesmo ambiente. O lirismo surge quando, ao longo da projeção, percebemos que a imagem de ambos se encontra no espaço das telas pela dissipação da luz. A força dessas três obras inaugurais faz com que ponderemos as seis horas e 37 minutos necessários para assistir a todas as projeções.

De maneira mais pragmática, talvez seja “Going Forth by Day” (2002) que melhor sintetize a obra de Bill Viola para uma primeira e atualizada apresentação. A obra se trata de um fabuloso políptico de cinco vídeos projetados em e entre quatro paredes que, apesar de relatarem imagens completamente desconexas, guardam uma relação entre si na medida em que o tempo avança.  É interessante notar que é nessa última sala do primeiro andar da exposição que somos apresentados para uma mudança estética considerável no trabalho de Viola que, muito embora tenha sido anunciada pelos trabalhos que antecedem “Going Forth by Day”, ganha força neste último pela imponência que apresenta. Faz-se necessário, no mais, notar que referências a obras canônicas é frequente no trabalho de Bill Viola.

O artista, que diz ter nascido com o nascimento do vídeo, demonstra em seus trabalhos mais recentes o domínio total da técnica que o fascina, domínio este que expõe soluções geniais ao próprio vídeo. Quando entramos na sala, durante os primeiros minutos que se passam, parece que estamos frente a quadros projetados – de estilo tão inconfundivelmente americano quanto aqueles de Hopper –, porém, aos poucos, a imagem ganha movimento, forma e som. Não que não os tivessem desde o inicio, mas apresenta tais atributos mais consistentemente conforme o tempo do vídeo corre, o que acaba por evidenciar a incrível solução que o artista dá ao formato do vídeo como suporte, da sua plasticidade quase pictórica que impõe o tempo tão próprio do vídeo.

As projeções que compõem os cinco vídeos de “Going Forth By Day” são de maneira resumida as seguintes: logo na porta está projetado “Fire Birth”, um vídeo que traz a imagem dificilmente reconhecível de uma forma humana imersa em um fluído laranja, em um estado inconsciente entre morte e renascimento. O segundo vídeo, “The Path”, apresenta a caminhada de algumas pessoas em meio a uma floresta. O vídeo projetado na parede principal, “The Deluge”, se trata da tomada do extrato de uma rua que abriga um prédio branco tipicamente americano, onde o espectador é convidado a acompanhar sequências de fatos banalmente possíveis em um pedaço de rua. O terceiro vídeo, “The Voyage”, traz de um ângulo improvável de filmagem, onde toda e qualquer noção de profundidade é suprimida: uma casa cortada ao meio para que seja possível a observação de seu interior, um homem deitado e seus familiares ao redor com uma cena ao fundo de um barco levando tudo aquilo que parece pertencer ao moribundo – salvo o fato da acomodação na casa de tais objetos nunca ter sido possível. O quinto e último vídeo, “First Light”, traz uma equipe de resgate em torno de um lago. Os vídeos se desenrolam orquestradamente. Em uma certa altura, a monotonia das projeções é interrompida por uma enxurrada absurda que devasta o prédio branco e a rua; o som e a imagem absurda são brutais. A seguir, percebemos que o homem convalescente é trancado em sua casa e deixado e, como último movimento do políptico, do poço ascende uma figura encharcada que paira sobe aos céus e quando desaparece cai a chuva, concluindo a obra.

Tal obra parece encerrar bem o trabalho de Bill Viola – entendendo que seu esgotamento é impossível –, pois articula algumas perguntas que são caras ao artista e que se apresentam de maneira reiterada em seus trabalhos: “quem somos?”, “onde estamos”, “para onde vamos?”. Menos que a intenção de respondê-las, o sentido da obra de Bill Viola é nos confrontar com elas. Nesse sentido, “Going Forth By Day”, nos parece um trabalho que se apresenta como metonímia dessa intenção artística.

O artista faz o tempo durar, repetir, demorar ao extremo, construindo a partir da técnica uma percepção sensorial da existência humana. Existe, sem duvida, algo teatral, pictórico e místico no trabalho de Viola. A originalidade do artista subsiste, portanto, através da imperatividade do vídeo como linguagem preferencial em relação a todas essas outras características, através magistral domínio da técnica e do tempo. Para quem tiver oportunidade, a exposição irá até o dia 21 de julho.

*Viviane Letayf é socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica.

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Categorias: Cultura

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