A aparente beleza do vazio

Por Fabio Zuker*

La grande Bellezza, co-produção ítalo-francesa dirigida por Paolo Sorrentino  e vencedor do Oscar de ”Melhor Filme Estrangeiro” gira em torno da vida social e dos sentimentos mais íntimos do jornalista Jep Gambardella. Entrevistador notável por sua incomplacência e que passa seus dias frequentando festas chiques, conquistando mulheres, indo a caros restaurantes e recebendo amigos em casa. Um dândi na Roma do início do século XXI.

Ao que tudo indica, trabalha muito pouco, para não dizer quase nada. Leva uma vida de ares aristocráticos que se encontra perturbada por uma série de pensamentos de cunho existencialista que o afligem após a celebração de seu 65º aniversário. Agora, além de bares, festas e restaurantes, divide seu tempo com uma aparentemente dolorosa inquietação acerca de seu passado e aquilo que abrira mão de fazer. A inesperada morte de um amor de juventude, já há anos casada com outro, e a ainda mais surpreendente revelação de que ela lhe considerara anos a fio o amor de sua vida, passam também a preencher parte de seus sofrimentos diários.

Sofrimentos, entretanto, de certo modo inertes, incapazes de fazê-lo mover-se em direção a alguma atitude que lhe permitisse superá-los. Pelo contrário: esconde-se atrás de seu cinismo. Autor de um único livro de sucesso, “O Aparelho Humano” – título que não parece nada aleatório –, é constantemente questionado porque nunca voltara a escrever outro livro, e a única resposta esboçada, com uma boa pitada de sarcasmo pelo filme, é que estaria ocupado com os prazeres da vida mundana em Roma.

La Grande Bellezza se insere, assim, na linha de filmes como o Discreto Charme de Burguesia, de Luis Buñuel, – em que um grupo de amigos experimenta uma série de tentativas frustradas de jantar junto e é surpreendido por todo tipo de aparição inverossímil – e, sem dúvida, ainda mais próximo, La Dolce Vitta, de Federico Fellini, em que o jornalista interpretado por Marcelo Mastroiani, igualmente dotado de virtudes literárias, ostenta uma sedutora joie de vivre, acompanhada por suas tensões e contradições, amores e ataques de cólera.

Outra referência que se faz presente no filme – e aí entramos no ponto central deste comentário sobre a forma como relaciona a ociosidade de sua vida social e uma reflexão emocionalmente tensa sobre si – é a obra de Marcel Proust Em Busca do Tempo Perdido. Não apenas o livro é mencionado duas ou três vezes pelos personagens como também existem cenas inteiras construídas em cima de citações do livro: a mais famosa passagem de Proust, em que o ato de comer uma  madeleine molhada no chá lhe permite aceder às sensações que experimentava durante sua infância em Combray, é retomada no filme durante a cena em que o protagonista, ao tomar uma sopa, se entristece e lembra de sua mãe. Entretanto, a tensão de não conseguir escrever devido à perda de tempo que é a ociosidade de sua vida de salões, que acomete Proust ao longo de sua obra, não chega nem a se esboçar como conflito a ser repensado  no personagem de Jep Gambardella.

Diferentemente de La  Dolce Vitta, não existe espaço para o público se seduzir por Gambardella: um alguém vazio, cujos sentimentos dolorosos permanecem sempre rasos e pouco desenvolvidos, incapazes de movê-lo, a não ser quando dizem respeito à imagem de si que cria frente a outros ou quando os trata com tom de superioridade, por vezes humilhante. Tem uma vida de jovem de família milionária no auge de seus 20 anos. A volta ao seu passado perdido, com a outra mulher, sendo escritor, vem acompanhada de um sentimento de inutilidade, que é, porém, preenchido pelas constantes atividades sociais das quais participa.

Os dois personagens do clero que parecem ao longo da narrativa são, de certa forma, duas alegorias opostas daquilo que nem se chega a se estruturar como conflito: o cardeal a ser supostamente nomeado papa é um glutão – figura espelho de Jep – sem a menor empatia com relação às inquietações dos outros e cuja atividade predileta parece ser falar sobre receitas culinárias. A figura da Santa é o seu oposto, ao dedicar sua vida aos doentes e fazer uma dieta apenas de raízes, e dormir no  chão. Personagens caricaturais que não entram em nenhum momento em conflito: o modo de vida que leva a Santa não faz sentido hoje, por isso, cabe mumificá-la.

A câmera e a fotografia do filme têm um papel importante nessa impressão de inércia e de culto ao vazio. A câmera faz movimentos ondulatórios, rodeando de todos os ângulos possíveis a cena, como se fosse um daqueles simuladores de monumentos da antiguidade, em que são reconstituídos a Biblioteca de Alexandria ou o Templo do Rei Salomão. A fotografia, por sua vez, estaria no polo oposto, ao se aproximar de uma estética demasiadamente publicitária, com pessoas lindas dançando e se divertindo. Elas são usadas de maneira extremamente irônicas contra si próprias, pelo ridículo das festas e das situações experimentadas com o contato com o mundo da arte.

La Grande Bellezza seria inconcebível em outra parte do mundo e em outro momento: trata-se de um filme que apenas poderia ter sido feito agora e na Europa. A premiação do Oscar parece um reconhecimento pela atualidade do filme, visto que sua qualidade como produção cinematográfica é duvidável. O filme apenas faz sentido no atual contexto europeu não pela perseverança de hábitos aristocráticos (estes existem também em outras partes do mundo), mas pela sensação de que algo valorado como positivo está irremediavelmente perdido no passado, e frente ao qual nada, ou muito pouco se pode fazer.

 Em um momento em que se observa uma cruzada moral contra tudo aquilo que seria considerado “progressista”, é a inércia das pessoas, a falta de propostas, de imaginação, e a crença de que “meu futuro não será melhor do que o passado dos meus pais”, que mais chocam. Obviamente, o filme não é uma indagação sobre a crise de expectativas vivida no Velho Continente. Mas a conjugação entre a preguiça do personagem, o mundo das futilidades que vive e a falta de expectativas parece, não por acaso, fazer sentido nesse momento e nesse lugar.

*formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH- USP). Atualmente é mestrando em Artes e Linguagem pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e  gestor cultural na área de arte contemporânea 

Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon.

 

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Categorias: Cultura

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