Guerra da Crimeia: Lições Históricas

"Defenda Sebastopol", óleo sobre tela de Vasily Igorevich Nesterenko, 1967.

“Defenda Sebastopol”, óleo sobre tela de Vasily Igorevich Nesterenko, 1967.

por André Castro*

A Crimeia é uma região semiautônoma da Ucrânia com forte presença de russos étnicos, onde a Federação Russa mantém bases militares – inclusive a sede da poderosa, porém tecnologicamente obsoleta, Frota do Mar Negro. Enquanto milícias não-identificadas e tropas russas saem de seus quartéis para cercar as bases ucranianas, a história talvez tenha algo a dizer aos líderes mundiais atuais.

Essa região foi anexada pelo Império Russo após a Guerra Russo-Turca de 1768-74, junto com o sul da Ucrânia e o norte do Cáucaso. A Guerra da Crimeia (1853-56) foi marcada por alguns fatores sem precedentes: foi o primeiro confronto internacional coberto quase que ao vivo (para os padrões da época, receber a notícia no mesmo dia era uma revolução sem precedentes) através de cabos telegráficos franceses e britânicos recém-instalados; também apresentou destemidos fotógrafos, que iam a campo registrar tudo que se passava – inclusive, a queda do governo do primeiro-ministro britânico, o Conde de Aberdeen, foi atribuída às mórbidas notícias das mortes aos milhares principalmente por doenças que poderiam ser facilmente evitadas.

A questão religiosa que envolveu o conflito foi mais um subterfúgio para camuflar os verdadeiros objetivos econômicos e geoestratégicos envolvendo as potências europeias. A França clamava ser a guardiã dos católicos no Império Turco-Otomano, enquanto os russos eram os guardiões dos ortodoxos, porém se arrogavam a pretensão de defender a cristandade contra a expansão do Islamismo pelos Bálcãs e demais territórios sob controle do sultão Abdülmecid I. Ambos alegavam estar de acordo com obscuros tratados do século XVIII. Em paralelo, monges católicos ortodoxos e católicos disputavam quem deteria as chaves das sagradas Igrejas da Natividade e do Santo Sepulcro em Jerusalém. O sultão acabou decidindo pelo catolicismo francês, temendo uma represália não apenas militar, mas econômica de Napoleão III, o que levou o tsar Nicolau I a iniciar a série de disputas diplomáticas que terminariam no conflito bélico.

O que realmente movia o Império Russo para a guerra era, na verdade, a contenção do expansionismo otomano e a conquista de um porto em águas quentes, ou seja, que não congelasse no inverno, o que seria o caso de Sebastopol, ao sul da península da Crimeia. Relutantes de início, os britânicos acabaram entrando na guerra objetivando impedir a expansão de um império com maior potencial: o russo. Mesmo após a retirada das tropas russas das províncias austríacas no Danúbio, o que havia gerado uma situação de quase-guerra, as potências imperialistas não se satisfizeram.

Após quase dois anos e meio de um sangrento confronto que vitimou mais de meio milhão de soldados (fora os civis), os aliados europeus conseguiram render a Rússia, que se viu forçada a assinar o Tratado de Paris, que reabriu o Mar Negro para o comércio internacional e a retirada da Crimeia. As terríveis perdas e o confisco de bens impostos pelo tsarismo, de modo a financiar sua máquina de guerra, finalmente fizeram com que os levantes populares conseguissem a abolição do resquício feudal que era a servidão e a garantia de alguns escassos direitos sociais. No entanto, no longo prazo, não havia ninguém capaz de forçar o cumprimento das cláusulas, o que levou a Rússia a reocupar a Crimeia e a novamente fundear uma frota no Mar Negro.

O tratado não conseguiu equilibrar o poder na Europa, levando ao crescimento do nacionalismo, que seria ainda mais agravado com as guerras de unificação da Alemanha e da Itália – e ultimamente a Primeira Guerra Mundial, 58 anos depois. Além disso, o Império Turco-Otomano se viu crivado de insurreições motivadas por nacionalismos étnicos de povos historicamente subjugados pelos sultões de Istambul. Quem se aproveitaria dessa fragmentação após a Primeira Guerra seriam justamente os franceses e os britânicos, que se apossaram de Síria, Líbano, Jordânia, Palestina e Iraque. Já Áustria e Rússia quebraram uma parceria que remontava a bem antes do Congresso de Viena – o acordo que reequilibrou o poder na Europa após as Guerras Napoleônicas –, o que levou o velho Império Habsburg a se isolar diplomaticamente após a derrota infligida por Bismarck na Guerra Austro-Prussiana de 1866 e a perda de influência no mundo germânico.

Os russos passaram a competir diretamente com o Império Austro-Húngaro por influência nos Bálcãs, em parte a expensas dos claudicantes turco-otomanos, o que ficou conhecido como a Questão Oriental. Em um parêntese, o primeiro conflito de proporções mundiais teria como gatilho em 1914 justamente questões étnicas na região, quando um grupo clandestino da resistência sérvia assassinou o herdeiro do trono imperial austríaco. Uma espécie de continuação da Guerra da Crimeia se deu de 1877-78 com a Guerra Russo-Turca, na qual os russos conseguiram a independência da Bulgária (nação eslava com laços históricos com a Rússia), da Romênia, da Sérvia e de Montenegro, além da anexação russa de províncias no Cáucaso, todos territórios turcos. No final, o Ocidente não conseguiu impedir que o Império Russo engolisse os otomanos onde eles eram mais frágeis e, no fim, eles próprios acabaram por fazer o mesmo, quando o imperialismo franco-britânico finalmente conquistou o Oriente Médio.

Da mesma forma apressada e sem muitos cálculos prévios com que a Guerra da Crimeia começou no século XIX, o mesmo pode ocorrer nos dias de hoje caso os líderes políticos dos EUA, da Europa, da Rússia e da Ucrânia não aceitem ceder uma satisfação absoluta em troca de uma insatisfação equilibrada. Parece que aulas de história não são o bastante para convencer Obama, Putin e os demais líderes envolvidos a temer mais as drásticas consequências dos precedentes do que ambicionar ganhar terreno no Leste Europeu.


*Formado em Economia pela FEA-USP, tem pós-graduação em Economia pelo Birkbeck College da Universidade de Londres

Texto revisado por Jaqueline Zanon.

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Categorias: Mundo

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