Do alto de suas vassouras, os garis aprendem e ensinam um novo Brasil nas ruas

Passeata dos garis no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA

Passeata dos garis no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA

Por Caetano Patta*

Na última semana, a vitoriosa mobilização dos garis no Rio de Janeiro, pautada em legítima reivindicação, colocou uma provocação sobre a mesa desse novo período de efervescência que vivemos no Brasil. Quem não se lembra quando, em 2009, o âncora Boris Casoy fez um comentário carregado de desrespeito sobre os votos de fim de ano feitos por dois garis em uma peça publicitária? Casoy – ex-integrante do C.C.C.[1] e atual emissário da Casa Grande -, sem saber que estava com o microfone ligado, humilhou os garis em pleno horário nobre: “Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho”. De lá até aqui, a sociedade brasileira passou por importantes mudanças em sua composição e estrutura. A democracia “permitida” pela Casa Grande há 20 anos dá crescentes sinais de esgotamento, que se expressam em tensões cotidianas que envolvem não apenas interesses, mas também questões referentes à participação e representatividade. O “mais baixo da escala do trabalho” melhorou, mas ainda tem muito a conquistar em termos de qualidade de vida e cidadania. Nesse contexto, os garis, assim como os novíssimos movimentos da juventude, optaram pela organização coletiva e pela rua para catar seus próprios interesses.

O Brasil passou por uma forte transformação na última década. O emprego cresceu no país, batendo marcas inéditas. O mês de dezembro de 2013 apresentou taxa de desemprego em 4,3%, a menor da série histórica do IBGE (iniciada em 2002). A média do ano de 2013 também foi a menor do período, chegando em 5,4% (a média de 2002 ficou em 12,4%). Comparando com 2003, as taxas de 2013 apresentam queda de 49,5%. O salário também cresceu. A média dos salários para o ano de 2013 foi de R$ 1.929,03, crescendo 1,8% em relação a 2012 (R$ 1.894,03). De acordo com o IBGE, entre 2003 e 2013, o poder de compra do rendimento do trabalhador aumentou 29,6% (em 2003 era de R$ 1.488,48)[2]. Além disso, a redução da pobreza no Brasil é uma realidade, trata-se de um processo intenso que mexe em alicerces do país que conhecemos. Segundo o Ipea, o índice de extrema pobreza caiu 57% entre 2002 e 2008.  Entre 2011 e 2012 foram mais 15, 9%. As pessoas podem até não estar chegando nesse paraíso vendido como “nova classe média”, mas com certeza muita gente se moveu do inferno chamado “pobreza extrema” (pessoas que vivemo com menos de US$ 1,25 por dia). Em 2012, o número de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza foi de 15,7 milhões, enquanto em 2002 o número era de 41 milhões[3].

São mudanças de grande magnitude, mas ainda há muita sujeira que não pode ser varrida para baixo do tapete. É preciso reconhecer que a precariedade marca parte expressiva dos ramos profissionais “antigos” e “novos”, dos garis aos operadores de telemarketing. Se mantendo em níveis baixos o desemprego, a pressão dos salários aumenta e, num movimento paralelo, a insatisfação com a precariedade em determinadas funções também. O processo pressiona em alguma medida à mobilidade “vertical” ou “horizontal”: ou ganhar mais ou ir trabalhar em outro lugar. O salário dos garis do Rio de Janeiro era de R$ 802,57. O gari Célio Vianna apresentou o ponto de vista dos grevistas: “Queremos mil e duzentos reais, mais os quarenta por cento de insalubridade. Eu acho que é justo, pelo trabalho que realizamos na chuva, no sol, no vento, em eventos também, como réveillon, natal…”[4].

Foi questão de grande publicidade no ano passado, para ilustrar, o trabalho das funcionárias domésticas e a “indignação” da elite do país, ao perceber que caíra um de seus privilégios/mordomias. Movimento sem volta. Se não houve exatamente uma mobilização política da categoria, houve mobilização social brusca, envolvendo aumento da escolaridade e acesso a crédito. A velha elite se queixou: “as domésticas estão sumindo do mercado”, como se falasse de um detergente na prateleira do Pão de Açúcar.

Vimos grandes mobilizações da juventude desde junho passado. Elas são politizadas, exigem melhores condições de vida e de vivência nas cidades e mais atenção e responsabilidade dos governos. Não têm referência no trabalho em si, nem se organizam a partir dele. Ao mesmo tempo, outra parcela da juventude também se mobilizou: foram os “rolezinhos” – que também não tiveram origem no mundo do trabalho – e carregam tensões culturais e sociais marcadas pela cidadania anêmica de uma das maiores democracias liberais do mundo. Para dizer o mínimo, chamou atenção ao mostrar o forte ruído presente neste perigoso processo de ampliação do consumo com engessamento da cidadania, em seu sentido mais amplo.

Voltando-nos para o mundo do trabalho, cabe registrar um movimento ascendente de greves. Crescendo acentuadamente durante o segundo governo Lula, as greves alcançaram em 2012 o maior número de ocorrências em 16 anos, segundo o Dieese. A leitura do técnico do instituto, Rodrigo Linhares, é que “gente que antes não fazia greve porque tinha sensação de insegurança com o emprego, agora está fazendo. Se os salários atrasam, os trabalhadores param mesmo”[5]. Em alguns casos o movimento de categorias tradicionais se encontrou com as manifestações da juventude, como foi o caso da greve dos transportes em Porto Alegre, há poucas semanas.

As categorias de condições de trabalho mais precarizadas, no entanto, têm um processo diferente daquele que caracteriza bancários, condutores, metalúrgicos, professores etc. As categorias precarizadas – as novas inclusas, muitas ligadas ao setor de serviços, que são parte importante do crescimento recente do emprego – têm uma história diferente. Nada de sindicatos fortes e grandes conquistas a queimar. Estamos falando de um grupo mais vulnerável e com menor poder de barganha: contratos muito flexíveis ou inexistentes e grande facilidade por parte dos empregadores de demitir e repor empregados, em situação de reivindicação, por exemplo. Frequentemente, os sindicatos são dirigidos por máfias associadas aos patrões, muitos ligados a centrais sindicais de corte nada crítico perante a situação das coisas e com interesses alheios à categoria. Além disso, esses setores, por vezes, são associados a uma visão mais conservadora: de moral rígida, fechada em relação à discussão de velhos costumes, fortemente apegada à “ordem pública” e, portanto, desconfiada com a esquerda e seus processos.

Claro que não é a primeira mobilização de garis que o país vê em sua história, nem muito menos os garis são uma categoria nova. Mas essa não foi a greve de praxe do dono do sindicato. Permeada de novidades, de algum modo sintonizada com o que existe de mais fresco e vivo nessa confusa cultura política que começa a nascer no Brasil, foi a greve dos garis. Vale trazer para esta reflexão a incapacidade do prefeito Eduardo Paes de entender o movimento – com algum toque de demagogia. Em entrevista a Globo News[6], o Capitão Paes brada: “Você não tem uma greve, você tem um motim”. E segue: “numa situação de greve normal, em que você negocia com o sindicato, é avisado 72 horas antes” (…) “nenhuma outra categoria organizada faz uma greve sem manter os serviços essenciais”. As palavras do acuado prefeito são riquíssimas para a reflexão.

A greve que Paes conhece é a greve dos manuais da faculdade de Direito da PUC-Rio, cujo cenário é um país de 30 anos atrás, muito diferente da greve que tomou as ruas da capital fluminense, também esculpidas pelo tempo e pelos passos. Paes, representa um Estado em crise com a nova sociedade que se desenha sob seus pés. Ele estaria tranquilo se não existisse a categoria, pois se entendeu muito bem com o velho sindicato. O problema é que o sindicato não se entendeu com os garis. O prefeito tentou desqualificar o movimento de todas as formas, mas esqueceu-se de alguns elementos que conferem a ela legitimidade para além de sua vontade: adesão, organização e legitimidade da categoria e apoio popular. Mas era óbvio que o prefeito não conseguiria lidar com o movimento dispondo apenas de suas velhas ferramentas. Alguém viu algo parecido, com tanto alcance, nos últimos tempos? O movimento é novo. Indo além, é difícil não enxergar nas passeatas dos garis – repletas de cartazes no melhor estilo canetão sobre cartolina, paródias, marchinhas, cobertura constante de mídias independentes na internet, assembleias em praça pública e lideranças diversas – muito daquilo que tem sido cozinhado em fogo baixo no Brasil dos últimos tempos.

Talvez as mobilizações que o Brasil tem acompanhado nos últimos meses – com recusas à verticalidade e menor apego aos métodos tradicionais, maior irreverência, forte construção de identidades e ocupação do espaço público – estejam de certo modo “provocando” grupos que nunca tiveram sua participação e interesses devidamente contemplados. As vontade e necessidades de amplos grupos da sociedade brasileira – que não são as categorias de sindicatos fortes e tradicionais – ficaram por muito tempo na história do país mal acomodadas entre o favor e o cassetete. Acompanhando diariamente a novidade pelas ruas do Rio, quem não se questionaria, mesmo que inconscientemente: “se só precisa de rua, com a rua estamos acostumados. E se a gente tentasse isso aí também?”. O teórico literário e filósofo político norte-americano, Michel Hardt, ao debater o ciclo de protestos ao redor do mundo, sugere que há um elemento de certa “tradução” e “inspiração” a respeito de formatos e objetivos para realidades particulares e diferentes: a movimentação e organização de um grupo defendendo determinada pauta em um determinado lugar inspira outro grupo, com outra pauta, em outro lugar[7]. É possível considerar também que o movimento de um grupo, no caso a juventude, sirva de exemplo ou provoque outra gente nas mesmas ruas pelas quais passou, no mesmo lugar.

Se estivermos mesmo falando de novas mobilizações, é preciso estar disposto a pensar em novas mobilizações em amplo sentido, de atores, até este ponto da história brasileira, pouco e mal representados nos processos reivindicatórios. Se um novo Brasil estiver surgindo desse vacilante terremoto pelo qual estamos passando, novos rostos também surgirão nos noticiários. Pode ser que os garis, do alto de suas vassouras e vitórias, estejam dando a letra de que esse Brasil que se avizinha não será falado só por estudantes e pelas tradicionais categorias profissionais. Embora a beleza do movimento seja sedutora, não nos cabe começar a contar uma história que ainda não acabou. O movimento dos garis, assim como os demais, pode seguir rumos e ganhar significados dos mais diversos. No entanto, mesmo cercado de indefinições de todas as ordens, é certo que há no Brasil uma forte pressão orientada à ampliação e transformação do espaço político em seu sentido mais abrangente, que guarda necessária relação com as silenciosas transformações pelas quais o país passou na última década.

*Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador.

Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica. Atua com o ensino de idiomas, tradução, interpretação e revisão de textos e desenvolve pesquisas no ramo da linguística, cultura, artes e línguas


[1] Comando de Caça aos Comunistas (CCC) foi uma organização paramilitar anticomunista brasileira, de extrema direita atuante sobretudo nos anos 1960, composta por estudantes, policiais e intelectuais favoráveis ao regime militar então vigente.

[7] Michael Hardt: What to do in a Crisis? (http://www.youtube.com/watch?v=66_W9h5dqy4)

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Categorias: Opinião, Sociedade

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