Prisão de El Chapo: Uma mudança para o México?

Por Priscila Villela*El Chapo

Foi preso, neste final de semana no México, Joaquím Guzmán Loera, conhecido como “El Chapo” – em português, “o baixinho” –, o mais procurado senhor do tráfico mexicano desde sua fuga de uma prisão de segurança máxima em 2001. O Cartel de Sinaloa, comandado por El Chapo, está presente no comércio de drogas em diversos países na América, na Europa e na Ásia. Apesar das comemorações de Enrique Peña Nieto, Presidente do México (PRI) e da DEA (Drug Enforcement Administration), agência de repressão às drogas norte-americana, que participou da operação que capturou El Chapo, é muito improvável que o impacto sobre o tráfico do México aos Estados Unidos seja significativo.

O Cartel de Sinaloa comanda um quarto do comércio das drogas nos Estados Unidos, além de participar do tráfico também à Europa, Ásia e América Latina. Desde El Capone (gângster ítalo-americano que liderou um grupo criminoso dedicado ao contrabando e venda de bebidas nos Estados Unidos), El Chapo é o primeiro homem a ser nomeado inimigo número 1 de Chicago. O Cartel de Sinaloa, sob o comando de El Chapo, tinha participação no cultivo de ópio no Afeganistão, nas ruas das grandes cidades dos EUA, nas plantações de coca da Colômbia e em laboratórios de metanfetamina no México, de modo que sua força é atribuída à diversidade de seus produtos que incluem maconha, cocaína, heroína e metanfetamina.

A captura de El Chapo, contudo, não significa necessariamente que as atividades do tráfico devam ser interrompidas. Enquanto houver demanda por drogas no mercado, sobretudo norte-americano, alguém tomará conta da oferta. A violência, por sua vez, corre o risco de ser potencializada com a quebra da estrutura hierárquica interna do cartel e com as disputas entre outros grupos criminosos pelo poder sobre áreas até então dominadas por El Chapo. É importante lembrar que ele próprio tomou o comando sobre o tráfico em Sinaloa graças à morte do então líder do Cartel de Guadalajara, Miguel Angel Gallardo, de quem era subordinado. O que significa ser muito provável que uma nova estrutura do tráfico seja montada a partir de sua queda.

Ainda, a depender de onde será preso, El Chapo poderá continuar comandando as atividades do cartel remotamente ou, ainda, planejar uma nova fuga da prisão. Ciente desta possibilidade, autoridades norte-americanas estão exigindo a extradição de El Chapo, para que ele seja preso sob segurança máxima nos Estados Unidos. Segundo George Grayson, especialista na área de guerra às drogas, “a queda de Chapo Guzmán é uma pedra no sapato do Cartel de Sinaloa, mas não um punhal em seu coração”.

É ainda provável que grupos rivais avancem na ocupação do vácuo deixado pela queda de El Chapo e da possível desestabilização do Cartel de Sinaloa. O Cartel de Los Zetas será um personagem importante dessa disputa, um grupo reconhecidamente violento e com uma estrutura menos hierárquica e, portanto, muito mais difícil de ser desmantelada pelas autoridades. Enquanto o Cartel de Sinaloa é conhecido por não ter declarado guerra ao Estado mexicano, mas convivido entrelaçado e ao lado dele, o Cartel de Los Zetas tem um histórico de rivalidade contra as autoridades estatais.

O futuro do tráfico de drogas no México e do Cartel de Sinaloa é incerto, mas está muito claro entre especialistas que dificilmente esta medida isolada tenha significado uma vitória por parte da DEA em cessar a entrada de drogas ao insaciável mercado norte-americano (maior mercado consumidor de drogas do mundo), ou tampouco uma vitória do México, que não verá os índices de violência serem reduzidos tão cedo, já que, ainda que abalada, a estrutura do tráfico logo será reorganizada.

Priscila Villela é formada em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisa o Tráfico de Drogas e Segurança Brasileira e Sul-Americana.

 

 

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Categorias: Mundo

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2 Comentários em “Prisão de El Chapo: Uma mudança para o México?”

  1. Boa tarde. Bacana o artigo, mas, no segundo parágrafo, o trecho “cultivo de ópio no Afeganistão, nas ruas das grandes cidades dos EUA” ficou esquisito, além de o ópio não ser cultivado, é produzido a partir da papoula.

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