São Paulo: a cidade cinza

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Por Gabriela Ferreira*

No final de janeiro, tive a oportunidade de participar de um cine-debate realizado ao ar livre em frente ao Centro Cultural Palhaço Carequinha, no Grajaú. O filme exibido foi “Cidade Cinza”, documentário lançado no final de 2013 que traz à tona a questão do grafite na cidade de São Paulo. Já o bate-papo contou com a participação dos diretores Marcelo Mesquita, Guilherme Valiengo, rapper Criolo (que desenvolveu a trilha sonora), o grafiteiro Nunca e os arte-educadores Tim e Mauro, integrantes do Imargem. [1]

A exibição foi feita ao entardecer no muro do próprio centro cultural. A praça estava tomada de jovens e famílias, que curtiram o cinema e o bate-papo ao ar livre deitados de forma despretensiosa no chão, curtindo o finalzinho do domingo.  Pensando na cidade de São Paulo que conta com poucos espaços públicos onde as pessoas possam se encontrar e desfrutar de momentos de lazer, este evento que mostrou como os paulistanos podem ocupar a cidade em prol da cultura e do lazer. Foi um momento memorável e digno de ser repetido não só no Grajaú, mas em outros locais da cidade.

As “formas de ocupar a cidade” também fazem parte do tema abordado pelo documentário Cidade Cinza. O filme tem como objetivo debater uma das ações da Lei Cidade Limpa da prefeitura de São Paulo (Lei nº 14.223/2006)[2]  que contratou uma empresa terceirizada para pintar com tinta cinza muros grafitados da cidade. O conflito, no entanto, surge quando a prefeitura ‘apaga’ um painel feito pelos artistas Os Gêmeos no Viaduto do Glicério. O incidente teve repercussão internacional, devido à fama dos grafiteiros pelo mundo.

A relação da cidade de São Paulo com os grafites é antiga. As primeiras intervenções se iniciaram na década de 1970 e se caracterizavam, na época, como pichações e desenhos de reprodução seriada feitos com a técnica do estêncil. Neste período, este tipo de intervenção artística começa a chamar atenção e ganhar adeptos, tornando-se assim um movimento de grande influencia na capital paulista.

Na década de 1980, alguns grafiteiros paulistanos começam a expor seus trabalhos em bienais e galerias de arte e posteriormente, na gestão Luiza Erundina (1989 – 1992), são convidados a realizar intervenções artísticas em São Paulo. Esta política pública trouxe o reconhecimento do grafite como elemento cultural de grande importância para a cidade e a superação do preconceito que existia da sociedade sobre esta forma de arte.

A partir deste momento, o grafite se incorpora no estilo de vida urbana da região metropolitana de São Paulo e passa a despertar o interesse dos jovens pela arte, principalmente aqueles das regiões mais periféricas. Atualmente, o grafite também é considerado como um grande fator de mobilização social nas regiões metropolitanas, sendo usado por muitas iniciativas e projetos sociais como meio de inserir os jovens em ações voltadas para a cidadania.

O grafite, com suas cores e formas, transforma e traz identidade a espaços esquecidos e marginalizados da cidade. Suas mensagens estão acessíveis a todos, sem qualquer tipo de distinção e restrição. É também uma arte efêmera, que está sujeita a interação de outros grafiteiros, da poluição, das condições do clima. Estas características nos mostram que é impossível pensar em grandes cidades sem pensar nos grafites

São estas reflexões sobre as formas de ocupação e pertencimento nas grandes cidades que o documentário “Cidade Cinza” nos propõe, enquanto revela a rotina da empresa terceirizada que pinta os muros da cidade de cinza; e os trabalhos feitos pelos grafiteiros paulistanos Os Gêmeos, Nunca, Nina, Finok, Zefix e Ise.

Por fim, o problema que reside na política municipal “Cidade Limpa” é que ela “apaga” não somente o grafite, mas uma parte importante da história e da identidade de São Paulo.


[1] Ver notícia em http://catracalivre.com.br/sp/cultura-de-ponta/gratis/exibicao-do-filme-cidade-cinza-no-grajau-zona-sul/

[2] Ver a lei na íntegra em: http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/cidadelimpa/conheca_lei/conheca_lei.html

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* é gestora ambiental formada pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo. Atualmente, desenvolve projetos e pesquisas na área da Educação Ambiental, Agroecologia e Políticas Públicas.

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Categorias: Cidades, Cultura

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