Culpa Organizada

Por Thiago Belmar*

Os casos de violência dentro e fora dos estádios brasileiros, infelizmente, estão cada dia mais correntes, como o recente caso da briga envolvendo as torcidas organizadas do Vasco da Gama e do Atlético Paranaense, no final do campeonato brasileiro de 2013, em Joinville,  também a invasão, por parte de alguns torcedores, do centro de treinamento do Corinthians, na zona leste de São Paulo. Certamente, esses episódios estão bem claros na memória de quem acompanha o futebol e, até mesmo, de quem apenas vê as notícias do dia-a-dia.Torcida orgnizada

Logo que esses e outros casos ocorrem, aparecem muitas análises sobre o tema, e, no calor dos acontecimentos, proposições de soluções supostamente radicais e efetivas. Por exemplo, muitos jornalistas pregam o fim das organizadas como a solução para o “fim da violência”. Projetam um mundo fantasioso, no qual as pessoas vão aos estádios para abraçar os torcedores adversários, celebrar com balões coloridos e sentar comportadamente em suas cadeiras para assistir os jogos. Não é o caso de defender os episódios de violência, mas de tratar a questão com seriedade, e não com simulações de um mundo ideal que não existe. Atentar para os acontecimentos, para as dinâmicas dos eventos, as características dos atores, não imaginar um mundo e sobrepor aos fatos essa fantasia.

Essas soluções não são viáveis, porque na prática partem de um pressuposto equivocado, que seria extinguir as torcidas organizadas, colocando-as como culpadas e obtêm o apoio da sociedade (http://esportes.r7.com/futebol/noticias/torcidas-organizadas-sao-esponsaveis-pela-violencia-para-83-das-pessoas-aponta-estudo-20130227.html). Elas tratam o problema como algo de ordem institucional – a violência existe porque existem torcidas organizadas, que são, por natureza, violentas e só pensam em si, não nos clubes. Mas não é de ordem institucional. As organizadas não são instituições criadas para cometer atos violentos. Podem ter seu papel questionado, é claro, já que não são isentas de críticas. Talvez elas não sejam mais aquilo que eram quando foram criadas (muitas delas criadas em plena ditadura militar, nos anos mais rígidos, em que era difícil criar associações civis). Elas podem ter trazido para dentro delas problemas que não surgiram com elas e indivíduos que são reflexos desses problemas, porém isso não quer dizer que sua extinção resultará na paz nos estádios. Argumentar nesse sentido é simplificar as coisas. É mais fácil achar um bode expiatório e as organizadas são o alvo perfeito

Não se pode atribuir inteira responsabilidade às torcidas. Um primeiro elemento é que a violência não é um fenômeno exclusivo do futebol. Ela se encontra na sociedade, tanto por parte de civis quanto por parte do Estado, por meio da polícia, que se mostra violenta, usando da força mesmo em protestos de rua que se mostram pacíficos e são garantidos pela constituição. Há um ciclo de violência. O segundo elemento é que há indivíduos que, em grupo, gostam da violência, do clima que ela cria.  E não se trata só de uma questão de problemas ligados à renda, à vulnerabilidade social, exclusão e más condições de trabalho. Bill Bufford, no livro Entre os vândalos (1991, Companhia das Letras), mostra um pouco dessa realidade. Ele entrou no meio dos hooligans do Manchester United, conviveu com eles, viveu o ambiente, por vezes até se sentiu como aqueles torcedores e notou que há mecanismos psicossociais que moviam esses indivíduos e esses grupos. Havia muitas pessoas que não tinham nenhum tipo de problema de renda ou trabalho e estavam ali por que gostavam daquilo.

Essa entrevista realizada pela rádio ESPN também é um exemplo que mostra as organizadas com mais detalhes: http://espn.uol.com.br/noticia/316509_os-bastidores-das-torcidas-organizadas-como-funcionam-a-relacao-com-os-clubes-e-a-violencia#. Assim tanto na entrevista da ESPN, como no livro de Bullford mostram que são grupos que reúnem muitas pessoas que querem torcer por seus times, mas também querem entrar em brigas, se envolver em episódios que provoquem adrenalina, que infrinjam a lei e que se colocam contra outros grupos organizados, que também possuem esses objetivos. Ou seja, o significado de pertencer a uma torcida organizada não é mais aquele de reunir um grupo de pessoas que querem torcer por seus times, de maneira organizada, em todos os jogos. Outras atividades foram inseridas no que é fazer parte de tais torcidas e, dentre elas, está sim incluído fazer o que for preciso para, digamos, defender a instituição. Isso não significa, porém que a torcida organizada necessariamente tenha que estar ao lado da violência e que, por esses tipos de ações que, por vezes, geram violência, devam resultar em sua extinção. Elementos que vêm da nossa organização social acabaram por adentrar a essas organizações e tentar combater esses desvios e apenas recuperar a essência de apoiar times de futebol, sem imaginar que torcidas de clubes rivais se amem, é o que necessitamos ter como foco nesse caso, não o simples extermínio das torcidas. Senão, acabaremos punindo os que estão lá para torcer, que não são poucos.

O que é preciso, portanto, é entender como esses indivíduos, inseridos nesses grupos, pensam. Não adianta apenas taxá-los como criminosos e culpá-los por todos os males do esporte. Os sites oficiais da maioria das torcidas apresentam um discurso de paz nos estádios. Pode ser apenas um discurso, mas já é algo. Além disso, há um número muito grande de associados e um número muito menor de envolvidos em confusões. A torcida Gaviões da Fiel, por exemplo, possui mais de 90 mil associados (http://www.gavioes.com.br/p/historia). Imagine 90 mil pessoas agindo violentamente no espaço de um estádio, ou em uma rua.

A solução talvez mais plausível seja a punição individual. O grande problema dessa ação é que o sistema carcerário brasileiro não está nas melhores condições, como mostra a reportagem Masmorras Maranhenses, de Carta Capital (15 de janeiro de 2014, edição nº 782, ano XIX, pp. 30-34). Porém, ainda é a melhor solução, já que, no Brasil, foram testadas medidas como tirar pontos dos times nos campeonatos, tirar mando de campo dos clubes que tiveram torcidas envolvidas em brigas e realizar alguns jogos com portões fechados. Os resultados não vieram e os casos de violência continuaram. O que ainda não acontece é a identificação de quem participou de atos violentos, cometendo crimes que são inseridos na legislação comum do país, e a punição a essas pessoas. Talvez se for percebido que as ações violentas estão sendo punidas, seja criado um receio de outros cometerem novos episódios de violência. Claramente, que sejam medidas que se encaixem nas leis do Estado democrático de direito, não prisões arbitrárias.

O governo brasileiro, assim como a Federação Paulista de Futebol, está criando um cadastro das torcidas organizadas do país, o que talvez ajude a identificar se há torcedores envolvidos nos casos de violência (http://www.esporte.gov.br/index.php/noticias/24-lista-noticias/45584-ministerio-do-esporte-passa-a-receber-dados-das-torcidas-organizadashttp://www. futebolpaulista. com.br/noticias/%C3% 9Altimas/2014/01/30/Confira +datas+e+ locais+de+cadastros+de+torcidas+organizadas). A partir daí, cabe a punição. No entanto, que essa medida possa servir também a qualquer tipo de torcedor, pois fazer apenas para os organizados é dizer, novamente, que eles são os principais culpados. O bode expiatório está pronto.

*É formado em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH – USP). Atualmente é mestrando pelo departamento de Ciência Política da USP  e desenvolve pesquisa acerca dos grupos de interesse na tramitação do projeto de lei que regula as relações de trabalho no esporte, a Lei Pelé.

 

*Este texto foi revisado por Camilla Wootton Villela é formada em Letras pela Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). Desenvolve pesquisa na área de Jornalismo Literário e Português como Língua Estrangeira (PLE), é revisora, escritora e uma das idealizadoras do projeto Vão.

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Categorias: Esporte

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um comentário em “Culpa Organizada”

  1. Leila A.C.H.Belmar
    19/02 às 17:03 #

    Concordo plenamente com tudo que foi colocado pelo autor.

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