Preconceito de gênero nas manhãs da Globo e no Twiter do prefeito

 

Por Veridiana Domingos *

Programa global Encontro com Fátima Bernardes

Há alguns dias atrás, duas declarações polêmicas, que circularam na mídia, parecem ter passado em branco pela crítica. As duas, contudo, tinham algo em comum: de teor machista e carregadas de preconceito de gênero, colocavam a mulher em uma situação de submissão e coisificação. Mais do que servir de convite à reflexão, o texto de hoje também tem um caráter de denúncia.

Após anos atrás da bancada do Jornal Nacional, a jornalista Fátima Bernardes decidiu encabeçar seu projeto Encontro com Fátima Bernardes, nas manhãs globais. Sem identidade, o programa coloca, no mesmo sofá, “Pedros Biais” e líderes políticos, médicos e atrizes de novela, sambistas e economistas. O psiquiatra Francisco Daudt é figurinha carimbada do programa e em uma conversa esquizofrênica com Fátima e a atriz Sophie Charlotte, deu um show com seu discurso preconceituoso e descabido.

Em tal episódio, Fátima questionou se a atriz já havia sofrido algum preconceito por sair sozinha. A atriz respondeu que adora sair sozinha, seja para ir ao cinema, praia ou para o teatro, mas que “sempre tem um olhar assim, sempre acham que você está esperando alguém”. Rapidamente o psiquiatra Francisco Daudt intervém, dizendo: “se você está vestida para matar, vai para um bar,  toma um chopinho e passa o radar em torno, as pessoas vão fazer a leitura correta social de que você está disponível. Você tem que saber que cada coisa que você faz, você paga um preço para fazer.” Fátima um pouco assustada com a declaração do psiquiatra questiona se a mulher não pagaria um preço mais alto por isso. E ele continua não nos poupando de suas declarações: “É claro que paga! A mulher que está sozinha é frequentemente uma garota de programa que está a caça de companhia. A moça é garota de programa e estará passando essa mensagem se estiver vestida para matar num bar chique e passando radar em torno”. O assunto continua com Fátima e Sophie, absolutamente perplexas. Sophie, então, finaliza a discussão: “eu não concordo com isso, eu acho que a gente tem que quebrar esse tipo de pensamento que se tem em cima da beleza feminina. As mulheres bonitas e que se vestem de uma maneira mais sensual pagam um preço diferente pela própria beleza e juventude e a gente tem que parar de julgar os outros, quanto mais livre a gente for em relação a isso, se quiser sair sozinha, saia sozinha! Fatal ou não!” Pois bem, Sophie, eu te digo que isso não é apenas uma questão de julgamento moral. O doutorzinho foi muito mais longe e atestou a necessidade, mais do que urgente, de uma formação mais politizada dos médicos e psiquiatras (não que isso valha para absolutamente todos), sobretudo ao que se refere à questão de gênero[1].

Se Sophie fosse um homem que sai sozinho no bar com seus braços de fora, Francisco Daudt diria que ele é um garoto de programa? Parece que apesar da extensa luta do movimento feminista, ainda temos uma leitura das representações de gênero ainda bastante ultrapassada.

O movimento feminista, nos anos 1970, teve grande inserção tanto no cenário político, como acadêmico, tendo assim grande impacto nas concepções de gênero enraizadas no senso comum. Um grande êxito do feminismo foi ter conseguido modificar não somente a perspectiva política com que se abordava o conflito nas relações mulher-homem, mas também transformar o paradigma utilizado para explicá-lo. Não um novo posicionamento e a hierarquização entre mulheres e homens, mas sim uma simbolização que as sociedades fazem dela.  As feministas utilizaram essa desconstrução para desarmar os códigos patriarcais herdados da ética e da política. O feminismo desenvolveu o conceito de gênero como o conjunto de ideias em uma cultura sobre o que é “próprio” dos homens e “próprio” das mulheres e, com isto, se propôs a revisar como a determinação de gênero assegura a dicotomia na qual se fundamenta a tradição intelectual ocidental. Como sabemos, essa tradição é por demasiado androcêntrica, o que enviesa a produção de conhecimento e gera postulados que legitimam mecanismos de dominação e exclusão.

É de posse desse conhecimento que não podemos deixar de condenar, veemente, a fala do psiquiatra que em duas ou três frases conseguiu fazer tudo aquilo que o feminismo combate há mais de quarenta anos: incorporou no seu discurso a discriminação e a opressão sexual e social da mulher por conta de uma diferença de gênero. Na sua fala, Francisco construiu uma imagem social da mulher que implica em sua anulação e opressão e acima de tudo em sua coisificação como algo que está exposto e em busca e dependência necessárias da figura masculina.

Como se não bastasse para uma mesma semana, o prefeito de Manaus, Artur Neto, escreveu em seu Twitter a seguinte frase: “Pedi ao embaixador da Inglaterra Alex Ellis para dar um recado aos ingleses: aqui nas ruas eles não encontrarão onças, mas sim gatas”. A declaração de Artur, assim como a declaração de Francisco, coloca as mulheres em uma posição de opressão, vítimas de opressão, e principalmente as objetifica e as coisifica como itens “comercializáveis” que podem ser oferecidos aos estrangeiros.

Para quem ainda diz que não há preconceito de gênero e opressão em relação à mulher, ai estão dois casos que foram veiculados na mídia. Mal posso imaginar todos aqueles discursos que são silenciados todos os dias.

*Socióloga formada pela Faculdade de Filosofia, Letras de Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP, trabalha com educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Violência e Memória.

Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica. Atua com o ensino de idiomas, tradução, interpretação e revisão de textos e desenvolve pesquisas no ramo da linguística, cultura, artes e línguas.


[1] Gostaria de fazer um ressalva e deixar clara a participação politicamente ativa dos psiquiatras na luta antimanicomial no Brasil e a presença da psicanalista Maria Rita Kehl na Comissão da Verdade, por exemplo.

 

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Categorias: Sociedade

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4 Comentários em “Preconceito de gênero nas manhãs da Globo e no Twiter do prefeito”

  1. Carol
    12/02 às 15:24 #

    Infelizmente ouvimos essas barbaridades todos os dias. Mais chocante, no entanto, com vem de alguém com poder de mídia como nos casos citados.

  2. Franco Ortiz
    12/02 às 09:47 #

    Muito bom!

  3. Feliciano Cordeiro
    11/02 às 23:28 #

    As mulheres sofrem preconceito de gênero, de forma contínua, no mundo todo, apesar de todas as iniciativas do movimento feminista. Interessante no artigo, pescar e comentar sobre dois comentários preconceituosos, na mesma semana, no Brasil.

  4. André
    11/02 às 19:00 #

    Excelente texto!

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