Shopping: espaço dominado, dominante, apropriado

Templo do consumo, espaço do controle. (Foto: Herbert Kajirua)

 (Foto: Herbert Kajirua)

As recentes tensões geradas em torno dos rolezinhos em shopping centers de São Paulo foram em ampla medida tratadas pela perspectiva da segregação e do preconceito evidenciados pela reação de lojistas e clientes de shoppings, bem como pela polícia e nossa grande mídia. Entretanto, há ainda algo a ser destacado no que toca à ideia de segregação presente nesse fenômeno: o quanto os shoppings, não apenas como contexto ou espaço-suporte para as relações sociais, são, eles próprios, um espaço construído que organiza e direciona as ações, objeto vetor e reprodutor de relações de segregação; modelo de prática social concretizada e difundida.

O shopping center é um espaço sob controle. O indivíduo não é objeto de controle direto, mas seu fluxo é severamente direcionado – sem qualquer abertura para distração do olhar que vá além das lojas – e sua liberdade completamente condicionada: há uma função clara de sua presença dentro de um shopping, de modo que, caso sua postura dentro daquele espaço saia dos conformes, o sujeito será retirado de lá ou de fato reprimido de outras formas. Como muitas outras situações na cidade, essa opção pela liberdade controlada é feita como uma resposta a um desejo de segurança.

Shopping centers, como chamamos, começaram a se popularizar nos EUA no pós-Segunda Guerra Mundial, quando houve forte apoio e incentivos federais para a expansão de um estilo de vida pautado no crescimento da cidade em áreas suburbanas e no rodoviarismo como modelo de deslocamento; bairros residenciais pouco densos e freeways. Nesse contexto, surgiam estes centros comerciais: nos entroncamentos de grandes estradas, como parte complementar à vida suburbana, e sem relação com os centros urbanos de fato. Centros de consumo de uma população segregada e com uma vida fortemente mediada pelo automóvel individual: um novo e retumbante american way of life.

Já por aqui, os shoppings começaram a surgir em meados dos anos de 1960, com o Shopping Iguatemi, em São Paulo, e o Méier, no Rio de Janeiro, porém, em contexto completamente distinto: dentro de núcleos densos das cidades. Assim como, posteriormente, nossos condomínios fechados (de casas e prédios), a incorporação dos shoppings é feita de maneira completamente invertida no território, inteiramente integrados à rede urbana e a áreas de ocupação mais centrais.

Dentro de um contexto de explosão das fronteiras urbanas, de introdução do ônibus como transporte público principal alcançando as novas periferias da autoconstrução, da  motorização das classes altas e médias, os shoppings foram, por aqui, consolidando-se como espaço de consumo diferenciado, controlado, mediado pelas fronteiras do status, das marcas (sociais e comerciais), do exclusivo (acento aqui aos significados de exclusivo). Tais fronteiras do status parecem, então, alimentar a reprodução desse modelo de sociabilidade concretizado. O shopping passa a funcionar como representação de um novo modelo de vida, como referência de um desejo de cidade.

Assim, em meio às recentes discussões sobre os rolezinhos, é interessante desenterrar o texto da seguinte propaganda do Conjunto Cidade Jardim:

“O Parque Cidade Jardim foi concebido em cima dessas perspectivas, concretas e abstratas. Muito mais do que perspectivas arquitetônicas, ele traz perspectivas de vida que a cidade nos roubou, como caminhar depois do jantar, andar com segurança ou fazer compras a pé. São desenhos de um projeto de vida. São esboços de uma cidade mais habitável, mais humana e mais saudável.”

As “perspectivas de vida que a cidade nos roubou, da propaganda citada acima, parece não significar nada além de um desejo de segregação.  O “projeto de vida” a que se refere, nada mais é do que uma referência àquilo que é, por natureza, o espaço urbano: espaço de encontro, fluxos, trocas, circulação, co-presença e diversidade. A urbanidade que permite “caminhar depois do jantar” é a mesma que se nega na construção da “segurança”, vista aqui pela perspectiva do isolamento e exclusão. Não se percebe, então, a negação da urbanidade dentro do próprio espaço urbano.

Nesse sentido, o shopping center em si deve ser questionado. Reivindicado como área de lazer e de encontro, ele é concebido, sobretudo, como forma de proteção contra um outro. Essa sociabilidade mediada é, enfim, sua marca: primeiro espaço de “liberdade” de jovens de classe média alta, que deixados pelos pais, podem se relacionar e consumir junto de quem se conhece, com segurança; espaço de “passear”, de jantar, de lazer, sem o perigo da rua, do público, do desconhecido, do “outro”; espaço de estar entre iguais, de encontro e reconhecimento mútuo, espaço, por fim, de consumo entre iguais.

Como parte de uma prática social, reprodutora da segregação e transformada em elemento cultural, shoppings inicialmente de ricos, tornam-se de pobres após “sua invasão”. Reproduzidos em larga escala pela cidade, passaram a concretizar este modelo como o referencial de espaço de lazer disponível em áreas da cidade sem opções de uso coletivo. Esta reprodução parece escancarar um ponto central da discussão: o shopping center não tem como parte de sua finalidade ser um espaço de lazer público. Além de ser um espaço privado, o shopping carrega a tarefa do controle, do direcionamento da conduta e da execução da segurança nas formas simbólicas mais perversas que isso possa encarnar.

Uma vez apropriado por formas de comportamento que lhe são estranhas, um espaço coletivo, porém privado, rapidamente apresenta sua reação: a liberdade normatizada deve ser preservada por meio da contenção das condutas não previstas e desejadas ali. O uso do shopping – fornecido e entendido como único espaço coletivo disponível para que jovens de periferia exerçam sua juventude – é que tornou mais latente esta incompatibilidade.

O espaço coletivo é o espaço da convivência e, consequentemente, o espaço do conflito. O lugar que tem como sua mais forte característica o controle e a segurança, não permite qualquer conflito. Tudo que sair dos conformes será colocado em seu devido lugar.

No momento, parece ficar claro como as soluções imaginadas só reproduzem a lógica de uma sociedade de controle e de segurança: a saída é dar um lugar para os rolezinhos. Aquilo que sair da conduta prevista para o espaço do shopping será alocado a um lugar perfeito para a convivência, flerte e expressão de jovens: um estacionamento. [1] [Link]

Desse modo, como uma forma de desejo de cidade, de vida urbana, o shopping foi reproduzido e desejado. E pelas próprias lógicas de controle e separação, real e ideal, material e simbólica, suas e dentro das quais está inserido, ele teve seu acesso restrito por muito tempo, sobretudo em grande escala, por aqueles aos quais o simples sair de casa não podia ser garantido sem que lhes fosse cobrado em troca um mínimo consumo.

Desde sempre um negócio, imobiliário e comercial [links], ele pôde ter sua expansão territorial potencializada pela tão alardeada expansão da classe C e bons ventos políticos e econômicos dos últimos governos. Por várias razões, dentre elas sua própria reprodução no espaço, shopping centers puderam, entretanto, ser mais que desejados por muita gente nos últimos tempos: puderam ser acessados, usados, apropriados. Sua construção como desejo passou a ser alcançada e nesse exato momento trincada, por não darem mais conta de responder aos anseios sob os quais foram construídos.

Dessa maneira, pensar em responder aos rolezinhos, no que tange a ideia da construção do espaço urbano, envolve passar pela imaginação de uma nova utopia de cidade, de urbanidade, de espaços de ócio e lazer, de encontro e reprodução da vida, que não passem pelo controle e pelo consumo, pelo carro e pelo estacionamento, que vislumbre, assim como os rolezeiros, novas formas de uso e apropriação do espaço.

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Guilherme Minarelli é cientista social pela Universidade de São Paulo.

Victor Próspero é graduando em arquitetura e urbanismo pela mesma universidade.

 

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Categorias: Cidades

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