“Eles passarão. Eu passarinho”. Viva Henfil.

Eles passarão. Eu passarinho. Viva Henfil. De Caetano Patta.

Eles passarão. Eu passarinho. Viva Henfil. De Caetano Patta.

“Estes todos que aí estão,
Atravancando meu caminho.
Eles passarão.
Eu passarinho”
Poeminha do Contra  – Mario Quintana.

A semana que passou foi marcada pelas palavras de Rachel Sheherazade. A jornalista do SBT conseguiu fazer o que parecia impossível: inserir algo mais chocante do que as imagens de um garoto de 15 anos nu, espancado e preso pelo pescoço a um poste no horário nobre da TV – no caso, o show de horrores que foram seus comentários. Quando pensamos que a barbárie não pode ser maior, a âncora resolve nos levar ainda mais ao fundo do poço. Nos faz conviver não apenas com o fato de que há gente que faz o que foi feito com o garoto, mas também com o fato de que há quem defenda tal ação, e que essa pessoa tem a mais privilegiada tribuna para fazê-lo . Sheherazade sorri de forma debochada ao falar de quem se apiedou do garoto e se apieda de quem está tendo o seu “direito” de torturar questionado. Se esvai um pouco da nossa humanidade, quando contemplamos palavras tão sórdidas e irresponsáveis. É duro ver um semelhante sendo algo tão distante de um ser humano com tanta desenvoltura.

Nesta mesma semana, no dia 5 de fevereiro, completaria 70 anos o jornalista, escritor e cartunista Henrique de Souza Filho, o Henfil. Henfil sorria e fazia rir, no período mais obscuro da história brasileira, a Ditadura Militar. Trabalhava com um material muito perigoso na época: caneta, opiniões e crítica. Apropriava-se do espaço, do alcance e da empatia do riso para “apiedar-se” dos pobres do nordeste e desmanchar os vernizes de quem faz, lucra e mantém com “tiro, porrada e bomba” a pobreza alheia. Celebrava a inteligência do povo. Enxergava e fazia ver o futebol na torcida, não no jogador ou no cartola. Henfil é responsável pela expressão que transformou em palavra a mais bonita e consequente das respostas da sociedade brasileira à ditadura: as “Diretas Já”. Quem sabe não inspira a nossa geração, que agora experimenta as ruas e que está devendo uma palavra de ordem que aponte pra frente… Henfil é e sempre será inspiração, pela atualidade, pelo compromisso e pela genialidade.

E a tal jornalista do SBT, da qual falávamos – junto com Lobões, Gentilis e Bastos – não será lembrada nos seus 70 anos, pois a tortura e o preconceito continuarão sendo combatidas e derrotadas e seus apologistas passarão.

Henfil foi um grande ser humano. Um grande ser humano se opõe a tortura, pois cresce ao se reconhecer no seu semelhante. Um brinde e um muito obrigado ao ser humano Henfil. Viva em nosso imaginário, viva em nossas ruas, risos e lutas. Viva Henfil.


Caetano Patta é sociólogo formado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo e ilustrador. Reúne alguns trabalhos no blog ociosobretela.tumblr.com

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