Os tesouros do tráfico de drogas

Copyright World Economic Forum www.weforum.org / Eric Miller

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Por Priscila Villela* 

Pela primeira vez a política sobre drogas foi uma das questões presentes no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Koffi Annan (ex-secretário geral da ONU), Rick Perry (governador do Texas), Juan Manuel Santos (presidente da Colômbia) e Kenneth Roth (diretor executivo da Human Rights Watch) trouxeram à tona o tema da descriminalização e da legalização das drogas, mas, claro, com alguns desacordos. Kofi Annan afirmou que “as drogas destruíram muitas pessoas, mas a política governamental destruiu muito mais”. O governador do Texas, Rick Perry, por outro lado, reiterou sua posição sendo “provavelmente a única pessoa que irá a favor da anti-legalização”, enquanto Manoel Santos mencionou que “o que estamos fazendo agora não está tendo sucesso e não é o melhor que podemos fazer”. 

De modo geral, o debate abriu as portas para uma nova abordagem das drogas e, apesar das divergências, foi unânime a necessidade de rastrear o dinheiro e reprimir fortemente os lucros ilegais gerados pelo tráfico de drogas. Ken Roth denunciou o fato de os Bancos não divulgarem os bens que passaram por lavagem em suas instituições. Ainda que o tema não tenha sido suficientemente aprofundado, foi importante o reconhecimento de que as instituições financeiras são as principais peças do tráfico de drogas, e que de nada adianta atacar o crime organizado sem combater lavagem de dinheiro e a conivência de políticos e de instituições bancárias. 

Uma investigação do Senado dos Estados Unidos, conduzida por quase uma década, concluiu que subsidiárias do banco britânico HSBC lavaram durante anos bilhões de dólares para cartéis de droga mexicanos, assim como para serviços bancários a bancos da Arábia Saudita e de Bangladesh, suspeitos de financiarem organizações terroristas. O relatório da investigação afirmou, ainda, que US$ 290 milhões foram lavados por meio do envio de cheques para um banco japonês em benefício de russos envolvidos no negócio de carros usados. Além disso, os bancos Citigroup, JP Morgan Chase & Co., Wachovia (comprado pela Wells Fargo em 2009), ING Bank, Standard Chartered e American Express Bank International foram alguns dos acusados de não respeitarem a lei norte-americana de lavagem de dinheiro. 

Em investigação promovida pelo Ministério Público Estadual de São Paulo, foi revelado que o PCC (Primeiro Comando da Capital) fatura cerca de R$ 8 milhões por mês com o tráfico de drogas e outros R$ 2 milhões com sua loteria e contribuições feitas por integrantes. O faturamento anual de R$ 120 milhões o colocaria entre as 1.150 maiores empresas do País, segundo o volume de vendas, o que não inclui os negócios particulares dos membros. Estes números são assustadores e a pergunta que devemos fazer é: onde está guardado este dinheiro? Debaixo do colchão ou escondido em algum barraco da favela é que não é, certamente. Uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Tecnologia Contra a Lavagem de Dinheiro (LAB) de São Paulo, em 2009, concluiu que A facção recorre principalmente a contas bancárias abertas em nomes de parentes e “laranjas” e a empresas de fachada para lavar os seus lucros. 

Segundo Martim Sampaio, coordenador da comissão de Direitos Humanos da OAB-SP (Ordem dos Advogados do Brasil), “o crime organizado se combate com inteligência e não apenas aumentando penas”. O traficante da favela é só a ponta mais vulnerável de toda a rede de tráfico de drogas. Grande parte da receita do tráfico é injetado na economia ilícita para depois ser lavado por meio de transações bancárias. A lavagem de dinheiro permite que seja apagado qualquer traço de ilegalidade no dinheiro originado do crime. 

Segundo o Relatório sobre Drogas na ONU de 2013, um dos caminhos mais efetivos de enfraquecer os grupos criminosos é atacar suas finanças. Por outro lado, como apontou Manoel Santos em Davos, existe uma barreira de sigilo na indústria dos bancos que impede a investigação da polícia. Os bancos estão onde o dinheiro está, e isso inclui comércio ilegal das drogas. Os lucros das drogas entram no sistema bancário porque precisam ser lavados e aí está a chave da investigação. Portanto, para desmascarar e derrubar o crime, o segredo está em seguir o caminho do dinheiro e encontrar o tesouro do tráfico. 

* Formada em Relações Internacionais pela PUC-SP, mestranda em Relações Internacionais no Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP, PUC-SP) e pesquisa o Tráfico de Drogas e Segurança Brasileira e Sul-Americana.”

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Categorias: Política

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