O conflito árabe israelense através do olhar ideológico da Rede Globo

Por Veridiana Domingos*

O médico palestino e a médica Rebeca

Não há como negar que a televisão e, principalmente, as novelas da Rede Globo têm influência na percepção e comportamento de uma parcela da sociedade brasileira. A novela das 21h da emissora é, há anos, uma das maiores audiências da televisão brasileira. A grande popularidade e a mídia pela qual é vinculada a colocou como parte da vida social brasileira, desempenhando um papel considerável na circulação e formação de ideias. Não tem sido diferente em relação à atual novela Amor à Vida. Um dos núcleos conta a história de um “romance” entre uma médica judia Rebeca (interpretada por Paula Brun) e um médico palestino Pérsio (interpretado por Mouhamed Harfouch), remontando assim o emblemático conflito árabe- israelense. O modo enviesado, contudo, como o povo palestino vem sendo retratado deu fruto, no final do ano passado, a cartas de repúdio da Frente em Defesa do Povo Palestino e da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil.

Embora pareça, simbolicamente, que o amor de Pérsio e Rebeca retrate uma tentativa de harmonia entre judeus e árabes, em várias cenas, sutilmente, a Globo deixa transparecer sua já conhecida posição política conservadora. Por exemplo, em uma das cenas, Pérsio se recusa a atender uma paciente vítima de um aborto mal feito, pois isso iria contra as leis divinas do Alcorão, o que acaba implicando na sua demissão do hospital. Os diálogos se desenvolvem de tal maneira que parece que a “única saída” para Pérsio é o romance com a médica judia, já que isto poderia “atenuar” seus valores religiosos. Há ai uma clara hierarquização dos valores religiosos, colocando os princípios judaicos como mais éticos e modernos do que os muçulmanos. O estopim das cartas de repúdio, contudo, à cena posterior ao fim do relacionamento de Pérsio e Rebeca, na qual se desenrolou o diálogo abaixo:

 Pérsio: “Rebeca, eu lutei na guerra, na Palestina”.

Rebeca: “Eu sei, já pensei muito sobre isso. Mas Pérsio, em Israel existem muitos casais de árabes com judeus”,

Pérsio: “Eu pertencia a uma célula terrorista. Eu queria ser um homem bomba. Achava que era um sacrifício justo pela causa do meu povo. Só não fui porque eu sou filho único, a minha mãe me procurou, insistiu demais pra eu desistir. Mas eu ajudei a organizar um atentado. Um amigo meu, um amigo próximo, foi o homem bomba. Ele entrou num ônibus em Jerusalém e explodiu, matando muita gente. Mulheres, crianças… crianças como o seu irmãozinho, Rebeca.

Rebeca:  “Você foi um terrorista, Pérsio? Eu não podia imaginar. Quando você veio fazer residência no hospital, dizia que queria se aprimorar, e voltar pra guerra, pra ajudar o seu povo como médico”.

Pérsio:  “Eu me senti culpado, quando vi o seu irmão, quando falei com a sua família. Eu percebi que a guerra, o terrorismo, atinge pessoas indefesas, crianças. Vendo aquele menino sorrindo, eu percebi que um dia eu quis atacar crianças como ele. Como eu posso dizer que aquele menino é meu inimigo?”.

Rebeca:  “Você foi realmente um terrorista, pensou mesmo em ser homem bomba?”.

Pérsio: “Agora eu tô horrorizado comigo mesmo

Rebeca: “Eu é que tô horrorizada com você, Pérsio. Adeus”.

O diálogo encena uma distorção e falsificação sobre os palestinos, criminalizando a resistência legítma do povo palestino contra a ocupação de suas terras desde 1947 e o posterior Apartheid israelense. Embora esse seja o diálogo em que isto ficou mais evidente, outras cenas também se referem à resistência Palestina como terrorista e elevando a disputa a um pé de igualdade. Há dois pontos aqui que devem ser atentados: primeiramente, o fato de que não se trata de dois povos que lutam, de maneira igualitária pelo mesmo pedaço de terra e, ainda, a maneira como os palestinos são retratados a partir de um estereótipo construído pelo ocidente. Vejamos cada um deles.

 A criação do Estado de Israel, em 1948, foi possível por meio da expulsão de quase um milhão de palestinas de suas terras e de milhares de mortes cometidas por judeus sionistas contra palestinos (também conhecido pelos palestinos como Nakhba). O Estado Palestino que, à época, deveria ser criado com base nas leis internacionais nunca existiu (digamos que o reconhecimento internacional, no final de 2012, da Autoridade Nacional Palestina, que não corresponde propriamente a um estado, em pouco mudou a realidade do povo palestino). E após a Guerra dos Seis Dias em 1967, Israel avançou ainda mais na ocupação dos territórios e tomou o controle da simbólica Jerusalém.[1] Hoje, são quase 4 milhões de palestinos árabes pelo mundo, que estão exilados.

Desta maneira, há uma negação a palestina e seu povo. Negação porque todo ser humano tem direito a direitos fundamentais e sendo e a auto determinação  um deles, ninguém pode ser expulso de sua terra. Resta-nos questionar: em que medida a negação da sociedade e povo palestinos pode ser justificada pela tentativa de salvamento dos judeus europeus das mãos dos nazistas?

E a questão da estereotipação deve ser desmistificada para que a ideia de “terrorismo” não continue sendo vinculada a estes indivíduos nas mídias ocidentais[2]. Em termos númericos (e posso dizer também em termos testemuhais, pois estive na Palestina conversando com muitas pessoas), de corpos e propriedades destruídas, nada se compara ao que os zionistas fizeram para os palestinos. Os ataques, pos parte dos zionistas, aos campos de refugiados no Líbano e na Jordania, sobretudo nas décdas de 1970 e 1980 e nos últimos vinte anos é muito maior do que os ataques palestinos, que tiveram muitomais caráter de retaliação. Assim a noção de terrorismo árabe é uma cosntrução midiática, na medida em que a mídia é aparelhada ideologicamente[3], transmitindo as notícias e manchetes sempre de maneira distorcida, como “Terror Árabe contra civis israelitas” e “Ataques israelenses conta a posição árabe”. A mídia ignora a história da Palestina, dado esse padrão fragmentado de sempre noticiar ataques bomba palestinos, sem ao menos fazer uma retomada histórica dos conflitos, deixando o leitor com visões descontextualizadas do todo.

Se a novela tivesse explicitado que, por exemplo, os avôs de Pérsio tiveram suas terras roubadas pelos judeus, qual teria sido a repercurssão das organizaçõe judaicas aqui no Brasil? E assim, a Rede Globo como o maior veículo midiático do Brasil, segue fazendo “seu papel”.

* Socióloga formada pela Universidade de São Paulo. Atualmente é mestranda pelo departamento de Sociologia da USP, trabalha com Educação e desenvolve pesquisas nas áreas de Teoria Social, Violência e Memória.

* Este texto foi revisado por Jaqueline Zanon, formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP). Atua com ensino de idiomas, tradução, interpretação e revisão de texto e desenvolve pesquisas no ramo da linguística, cultura, artes e línguas.


[1] Os entraves e detalhes do conflito histórico arábe israelense remontam ao surgimento do movimento sionista no final do século XIX e passam por fatos muito mais complexos do que estes grosseiramente citados.

[2] Sobre essa construção ideológica do desconhecido como um inimigo a ser combatido, Edward Said disserta, com mais detalhes, em O Orientalismo, Ed. Cia das Letras.

[3] “Ideologia”, no sentido marxista de “falsa consciência da realidade”.

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Categorias: Cultura

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um comentário em “O conflito árabe israelense através do olhar ideológico da Rede Globo”

  1. 31/01 às 18:38 #

    Surreal. Eu sei que é novela, e os standarts são baixos, mas ainda assim: surreal.

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