Recordar é Viver: Bali e Nova Iorque também agradam presidentes

FHC também viajava - e gastava. (Foto: World Economic Forum)

FHC também viajava – e gastava. (Foto: World Economic Forum)

Por Juliana M. Bueno*

Sem nos debruçarmos profundamente sobre os questionamentos da imprensa brasileira a respeito do episódio em que Dilma Rousseff, em visita não oficial a Portugal, “estacionou” o avião presidencial em Lisboa durante um fim de semana no qual não havia compromissos oficiais na agenda, acredito ser importante fazer uma reflexão sobre a questão do gasto transparente das viagens – ou em quaisquer outras ocasiões – feitas por políticos brasileiros com dinheiro público.

Sem pensar muito, recordo-me das recentes absurdas licitações de comida para as residências oficias de Renan Calheiros, presidente do Senado, em Brasília, e de Roseana Sarney, filha do Grande Senhor do Maranhão e governadora do estado, com quilos e quilos de camarão, salmão e outras iguarias de alto custo – o que deve, certamente, “agregar ao camarote” dos peemedebistas.

Em uma rápida busca na internet, acho duas notícias que me chamam a atenção: a primeira delas intitulada “FHC rebate críticas à parada na Ilha de Bali” , de 20 de janeiro de 2001;  a segunda, “FHC gasta US$ 70 mil em viagem”, de 11 de dezembro de 2002 – as duas, publicadas pela Folha de São Paulo. Para entender mais sobre os dois episódios, reproduzo, a seguir, alguns trechos das matérias. Sobre a viagem a Bali:

“O presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu hoje às críticas feitas sobre sua parada na ilha de Bali antes da visita ao Timor Leste.

Questionado pelos jornalistas que o acompanham na viagem à Asia, FHC esclareceu que se trata do local com instalações adequadas mais próximo ao território, e que não é o primeiro chefe de Estado a fazer este percurso.”

Já sobre os gastos de outra viagem, esta a Nova Iorque, em uma data na qual, diga-se de passagem, FHC já saberia que passaria a faixa presidencial a Lula, as seguintes informações:

“Em vez dos US$ 35.140 estimados, a comitiva presidencial utilizou US$ 70.040, equivalente a cerca de R$ 266 mil pela cotação de ontem. […]São cerca de 30 [convidados], incluindo os ministros Celso Lafer (Relações Exteriores), Paulo Renato (Educação) e Barjas Negri (Saúde. A atriz Regina Duarte viajou como convidada, tendo as despesas custeadas pela União.”

A comitiva a Nova Iorque tinha figuras bem conhecidas. Paulo Renato, ministro da educação dos dois governos FHC e secretário da educação do estado de São Paulo de 2009 a 2010, quem, antes de seu falecimento, foi acusado de ser mandante do esquema que concedia bolsas de ensino superior fantasmas, além de fraudar licitações de livros didáticos das escolas estaduais e de permitir que fosse inserido conteúdo de marketing nos mesmos. Já Barjas Nigri, quando ministro da Saúde, ficou conhecido por ser o chefe do esquema de corrupção “Máfia das Sanguessugas” do PSDB. A mais ilustre convidada da comitiva, a atriz Regina Duarte, dispensa apresentações, já que é antiga entusiasta e garota propaganda do PSDB (vide link no youtube).

Melhor esclarecer que imagino que ninguém se opõe, por princípio, ao serviço prestado pela imprensa brasileira quando denuncia irregularidades sobre gastos públicos por parte de políticos, até porque sabemos que elas ocorrem com frequência. Aliás, um governo ter a certeza de que será cobrado publicamente para explicar seus gastos é uma ferramenta que serve à democracia. Como a literatura de Ciência Política já nos mostrou, as ferramentas mais úteis à luta anti-corrupção são as medidas que envolvem transparência. A relação é diretamente proporcional: quanto mais transparente, mais democracia. Ou inversamente proporcional: quanto mais transparência, menos corrupção.

O incômodo, particularmente, vem dos comentários que relacionam os gastos do governo federal – que, obviamente, não eximimos da prestação de contas públicas – de seus ministérios, e de quaisquer outras instâncias que façam uso do dinheiro público, como se tivessem sido inventados pelo partido que atualmente se encontra no poder. Contra essa lógica, um pouco de “recordar é viver”.

* Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, seus temas de pesquisa se relacionam ao estudo de política brasileira e classes sociais.

Tags:, , , , , , ,

Categorias: Política

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

Nenhum comentário ainda.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: