Desventuras em série: Dilma, Cuba e a imprensa.

Dilma e Raúl Castro. (Foto: Blog do Planalto)

Dilma e Raúl Castro. (Foto: Blog do Planalto)

Por Renato Nunes Dias*

A ida da presidenta Dilma Rousseff a Cuba, para a inauguração do porto de Mariel, financiado pelo BNDES, causou desconforto e revolta em parcelas da mídia nacional. Para o jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, a viagem é um “afago à ditadura cubana [que] reitera o carinho de Dilma Rousseff pelo dogmatismo ideológico que o lulo-petismo compartilha com os Castros”. Falta ao jornal honestidade ou estudo da história da política externa brasileira, ou ambos.

Em relação a nossa política externa, o jornal fecha os olhos, inclusive, para seu acervo, coleção relevante para aqueles que, volta e meia, prestam-se a refletir sobre as venturas e desventuras de nossa imprensa. A edição do Estadão de 11 de novembro de 1975, traz, além de texto na capa, uma página inteira com análises sobre a independência de Angola, que consagrou a subida ao poder do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), de orientação marxista-leninista. Um dos artigos alude ao reconhecimento do Brasil, por meio do Itamaraty, à independência do país africano e à legitimidade do recém instalado governo de Luanda (de orientação marxista-leninista, repito).

É importante lembrar que em 1975 estávamos em plena ditadura militar, liderada pelo General Ernesto Geisel, que empreendia, ainda, a luta contra o “inimigo interno”, “a esquerda”, “o comunismo”. Esse fato expõe uma aparente contradição: como é possível que um governo militarista, conservador, que caça, prende e tortura elementos que considera revolucionários em seu território, apoie, precisamente, um governo revolucionário, de esquerda, que subiu ao poder por meio de um golpe em Angola?

Ao darmos dois passos atrás no tempo, lembramos, também, que 1973 assistiu ao choque do petróleo, que lançou o país das estradas e dos automóveis numa crise de abastecimento e aumento dos preços de combustível.

Em tempos de crise, Angola era, para o mesmo Estadão (página 9), um “país rico em petróleo”, “o chamado Kuwait africano” – em referência ao país da região do Golfo Pérsico exportador do ouro negro. Pois era exatamente disso que precisava o país no momento. Título na capa da edição citada indica: as exportações aumentam 20% em dez meses.

O General Geisel apenas aprofundava e mantinha, de maneira realista e coerente, a orientação em matéria de política externa que seus antecessores, com exceção de Castello Branco (o primeiro presidente do regime militar), empreenderam. Era uma política externa pragmática, e por isso universalista, que buscava o incremento do comércio exterior e das relações políticas no eixo Sul-Sul, com quem quer que fosse, não por orientação ideológica, é claro, mas por senso de oportunidade.

A lógica bipolar, ocidentalista e ideologicamente inflamada durou, na condução da política externa brasileira, apenas pouco mais de dois anos, período entre o golpe militar e a sucessão de Castello por Costa e Silva. Na condução dos editoriais e das opiniões de parcelas de nossa imprensa, no entanto, ela está para fazer aniversário: meio século em poucos meses.

O editorial de hoje do Estadão repete, ainda, essa velha lógica. Ao fazê-lo, esconde seu acervo no armário, ignora a história do país e resume um ato de Estado, inserido no contexto amplo da formulação e condução da política externa, a mero afago ao autoritarismo. Vale, nesse sentido, a leitura do texto de José Antonio Lima, na Carta Capital, mostrando que a obra inaugurada pela presidenta “se pagou” e ainda gerou no Brasil 156 mil empregos diretos, indiretos e induzidos. Vale, ainda, considerar que a visita de Dilma a Cuba marca a presença do Brasil na II Cúpula da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos), importante organismo de coordenação e alinhamento de ações com vistas à integração regional.

O jornal perde importante oportunidade de oferecer à opinião pública um debate mais rico. Deve-se, evidentemente, questionar os caminhos (e eventuais descaminhos) da política externa brasileira. Exemplo de postura contundente é da ONG CONECTAS Direitos Humanos, que vem denunciando as contradições da condução dos assuntos externos, por meio da campanha “Ministro, eu #QueroSaber“, que oferece espaço para cidadãos questionarem o Ministro das Relações Exteriores, em suas sabatinas na Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. Isso é informação.

Do paradoxo aparente de Geisel, vamos ao paradoxo real do Estadão: não há dogmatismo ideológico na viagem à Ilha, há dogmatismo ideológico em defender que fechemos os braços e as portas para maior investimento, novos mercados e entrepostos comerciais. Há, na condução da política externa de hoje – e houve, é necessário reconhecer, na política externa do regime militar –, senso de oportunidade (ainda mais se confirmar-se, no futuro próximo, a previsão de José Antonio Lima, da retirada do bloqueio a Cuba, que está a pouco mais de cem quilômetros do imenso mercado americano).

De paradoxo em paradoxo, vale inverter o questionamento final feito no editorial do Estadão, sobre o que a presidenta e o PT planejam para o futuro da democracia brasileira: talvez, indaga o jornal de maneira rasteira, o mesmo que “os amigos de fé de Dilma e Lula oferecem a cubanos, nicaraguenses, venezuelanos, bolivianos…?”.

É de se questionar, portanto, o que alguns setores da nossa imprensa planejam para o futuro de nossa democracia, em tempos de eleição: o mesmo, talvez, que fizeram em outras ocasiões, tripudiando sobre a inteligência dos leitores, manipulando de maneira rasa e obscena os fatos, somando mais uma conta ao rosário de suas desventuras? Desventura por desventura, melhor acreditar que andamos para frente.

* Mestrando do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP) e bacharel em Relações Internacionais pela PUC-SP. Trabalha com educação e desenvolve pesquisa em Multilateralismo, Integração Regional e Economia Política Internacional.

Tags:, , , , ,

Categorias: Mundo, Política

Conecte-se

Assine nosso feed RSS e nossos perfis sociais para receber atualizações.

2 Comentários em “Desventuras em série: Dilma, Cuba e a imprensa.”

  1. 31/01 às 18:35 #

    Excelente análise. Bravo.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: