O shopping é a praia do paulistano

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(Foto: Mídia Ninja)

Por André Castro*

O recente fenômeno dos “rolezinhos” na cidade de São Paulo – e em diversas outras metrópoles brasileiras, mas com menor vulto – nos permite fazer uma breve análise de algumas facetas da sociedade paulistana e de nosso capitalismo, que também pode ser replicada para o resto do país, porém sendo a capital paulista o modelo arquetípico.

Primeiramente, o título deste texto ilustra uma situação marcante do urbanismo da maior cidade do país: a tendência à preferência por espaços privados em detrimento de espaços públicos. O shopping center é a grande opção do paulistano para o convívio coletivo por causa principalmente do medo em relação à violência pública, o que leva ao confinamento privado, além da falta de parques, praças, clubes (como os SESCs[1]) e demais espaços públicos onde costumava ocorrer a interação entre os cidadãos. Hoje a interação é entre consumidores. Pesquisa do Datafolha revela que 73% dos moradores da capital vão ao menos uma vez por mês ao shopping.

Os jovens que vão para os “rolezinhos” não têm sequer a alternativa de conviver com amigos e pessoas de extratos sociais distintos nas proximidades de suas residências – o que em uma cidade com um trânsito tão travado é um fator determinante – pelo simples motivo que a cidade é desprovida de equipamentos urbanos deste tipo, ainda mais nas periferias. Por mais que esses jovens prefiram os shoppings às praças – o que é natural – , se a alternativa de passar a tarde em um CEU[2] praticando esportes, frequentando aulas de música ou lendo livros não lhes é apresentada, dificilmente eles sairão da zona de conforto.

Em segundo lugar, destaca-se a questão da recente ascensão da classe média brasileira que teve um acréscimo de 39 milhões de pessoas na última década. Essa nova classe se destaca pelo consumo, e não pela reivindicação de direitos sociais ou pela melhor qualidade dos serviços públicos. E onde é o templo do consumo (e do consumismo, de certo modo)? Nos shoppings centers. Shoppings como o JK Iguatemi -que, após discriminar a entrada de transeuntes pelo “perfil e aparência”, com medo dos “marginais rolezeiros”, fechou as portas pelo mesmo motivo –, são a representação do consumo de status. Apenas em uma economia com altos níveis de desigualdades socioeconômicas poderia haver uma discriminação de preços por grupos de consumidores[3] cujo objetivo é embutir na mercadoria o valor do status.

Em seguida, relacionado à questão da incorporação do status nas mercadorias, os empresários brasileiros costumam preferir ganhar devido às altas margens de lucro, resultando em um produto mais caro, do que pela quantidade, reduzindo tal margem e barateando o produto, tornando-o acessível a um universo maior de consumidores. Obviamente que há exceções a essa regra, principalmente nos dias de hoje e no setor do varejo, mas a constituição histórica do nosso empresariado não foge do preceito da exclusividade, que sempre foi muito caro a nossa elite econômica. E exclusividade, ao pressupor algo que apenas um número limitado de pessoas pode ter acesso, também pressupõe a exclusão de uma quantidade maior de pessoas, no caso, consumidores. Ora, se “favelados” podem adentrar um local exclusivo às elites, então a ideia de exclusividade perde o seu sentido, e o status vendido pelas lojas fica ameaçado pela simples presença desses “cazaques que falam português”, mesmo que eles não tenham a mínima condição de comprar nada.

Ainda considerando a lógica empresarial brasileira, é preciso frisar que é perfeitamente racional que o shopping das zonas mais nobres se recuse a atender o consumidor popular, afinal, aquele lugar não é para este tipo de consumidor, mas sim para a nata da sociedade, a classe AAA. E pior, esse jovem dos “rolês” – que é discriminado por sua aparência e modos, e tratado como um criminoso mesmo antes de se envolver em quaisquer atividades ilícitas – é alijado também de shoppings mais populares, como o do Campo Limpo ou o de Itaquera. Esses locais são destinados para que a classe média-baixa possa se inserir na sociedade de consumo, se espelhando na tão cobiçada elite, e não para jovens marcarem “rolezinhos”, a personificação daquilo que o pai de família humilde e conservador não quer que seus filhos tomem como modelo. Afinal, o preconceito nunca foi uma exclusividade de nenhuma classe social, como revela a pesquisa supracitada, que indica que quanto menor a escolaridade e a renda do entrevistado, maior a sua desaprovação à realização dos “rolezinhos” em shoppings. Ademais, 83% dos entrevistados com filhos menores de 25 anos desaprovariam uma eventual participação deles nesses eventos.

A questão dos “rolezinhos” e da exclusão de pessoas humildes de ambientes de consumo, sejam eles elitistas ou populares, não pode ser resumida a um conflito de classes ou uma discriminação racial derivada do preconceito ainda arraigado na sociedade. É preciso levar em conta a forma de inserção do Brasil no modelo consumista do capitalismo, bem como a estratificação urbana de suas cidades.


[1] Os SESCs, ou Serviço Social do Comércio, são clubes de esportes e diversões variadas privados mantidos por empresários do comércio, através de recursos públicos.

[2] Os CEUs, ou Centro Educacional Unificado, são escolas públicas mantidas pela Prefeitura de São Paulo desde a gesta de Marta Suplicy (2001-2004) cuja característica essencial é ser uma espécie de clube público para os alunos e seus familiares, oferecendo atividades extracurriculares e esportivas.

[3] O que em microeconomia seria uma discriminação de preços de terceiro grau.

*Formado em Economia pela FEA-USP, tem pós-graduação em Economia pelo Birkbeck College da Universidade de Londres

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Categorias: Cidades

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